# 5 Lei da Cobiça - 5/18 Robert Greene
# 5 Lei da Cobiça –
Tornar-se um objeto de desejo esquivo
A ausência e a presença têm efeitos
fundamentais em nós. Demasiada presença sufoca; um certo nível de ausência
estimula o interesse. Somos marcados pelo desejo constante de possuir o que não
temos — o objeto projetado pelas nossas fantasias. Aprenda a criar algum
mistério à sua volta, a usar a ausência estratégica para fazer que as pessoas
desejem o seu regresso, para que anseiem por o possuir. Mostre aos outros
aquilo que mais desejam na vida, o que não lhes é permitido ter, e irão
ensandecer de desejo. A galinha da minha vizinha é sempre melhor do que a
minha. Ultrapasse estas suas fragilidades abraçando as suas circunstâncias, o
seu destino.
Caso Coco Channel
O
objeto de desejo
No momento em que Chanel
experimentou a roupa de Etienne Balsan e recebeu um tipo de atenção diferente,
algo se ativou no seu cérebro que lhe mudaria para sempre o curso da vida.
Antes, cobiçava algo desviante que estimulasse as suas fantasias. Não era
socialmente aceitável para uma rapariga órfã de origens humildes aspirar ao
convívio com as classes mais altas. Atriz e acompanhante não eram papéis
adequados no seu caso, especialmente para alguém que crescera num convento.
Então, enquanto deambulava pelo
castelo envergando as suas calças de equitação e o seu chapéu de palhinha, era
ela subitamente o alvo da cobiça dos outros.
E estes eram atraídos pelo aspeto
transgressor das suas roupas, pela ridicularização deliberada dos papéis
atribuídos aos géneros. Em vez de ficar fechada no seu mundo imaginário cheio
de sonhos e de fantasias, podia estimular essas quimeras nas outras pessoas.
Bastava inverter a perspetiva — pensar primeiro no público e desenvolver uma
estratégia para a forma de jogar com a sua imaginação. Os objetos que desejara
desde a infância eram todos de alguma forma vagos, fugidios e tabu. Era esse o
seu fascínio. E essa a natureza do desejo humano. Tinha simplesmente de mudar a
situação e de incluir esses elementos nos objetos que criava.
Foi assim que fez a sua magia: em
primeiro lugar rodeou-se a si própria e ao que fazia de uma aura de mistério.
Nunca falava da sua infância pobre. Inventava
inúmeras histórias contraditórias
acerca do seu passado. Ninguém sabia realmente algo de concreto sobre ela.
Controlava cuidadosamente o número de qr públicas realizadas e sabia como era
importante desaparecer por uns tempos. Nunca revelou a receita do seu perfume
ou do seu processo criativo em geral. O seu logótipo estranhamente envolvente
foi concebido para estimular as interpretações
Tudo isto deixou imenso espaço para
o público imaginar e especular sobre omito s Coco. Em segundo lugar, associou
sempre as suas criações a algo vagamente transgressor. A roupa tinha um claro
toque masculino, mas permaneceu, extremamente feminina. Dava a sensação às
mulheres que estavam a transpor a fronteira dos géneros - a perder limitações a
nível físico e psicológico. A roupa também se cingia mais ao corpo, combinando
liberdade de movimentos com sexo. Não era o vestuário típico de mãe. Usar o
estilo Chanel, em geral, era fazer um manifesto a favor da juventude e da
modernidade. Quando o estilo pegou, era difícil para as mulheres jovens
resistirem ao apelo.
Finalmente, desde o início,
certificou-se de que a sua roupa era vista por todo o lado. Observar outras
mulheres usarem este tipo de roupa estimulava desejos competitivos de terem o
mesmo e de não ficarem excluídas. Coco lembrava-se de quão profundamente
desejara homens que já estavam comprometidos. Eram desejáveis porque outra
pessoa os desejava. Este tipo de impulso competitivo é muito forte em todos
nós, e certamente entre as mulheres.
Na verdade, os chapéus de palhinha
que criou originalmente não eram mais do que objetos vulgares que qualquer
pessoa podia comprar num armazém. As primeiras peças de roupa que criou eram
fabricadas com os materiais mais baratos. O perfume, uma mistura de flores
comuns, como jasmim, e de químicos, nada de exótico ou especial. Era pura magia
psicológica que os transformava em objetos capazes de estimular um desejo tão
intenso de os possuir.
Compreender: Tal como Chanel, deverá inverter a
sua perspetiva. Em vez de se concentrar no que deseja e cobiça no mundo,
procure treinar-se de modo a conseguir concentrar-se nos outros, nos seus
desejos reprimidos e nas suas fantasias impróprias. Experimente compreender como
o percecionam a si e aos objetos que produz, como se estivesse a observar a sua
pessoa e o seu trabalho de fora. Isto dar-lhe-á um poder praticamente ilimitado
de moldar as perceções dos outros acerca destes objetos e de os deixar
empolgados. As pessoas não querem verdade e sinceridade, independentemente da
quantidade de vezes que repitam esse absurdo, mesmo que interminavelmente.
Querem que a sua imaginação seja estimulada e pretendem ser levadas para lá das
suas circunstâncias banais. Desejam fantasia e objetos de desejo para cobiçar e
perseguir. crie uma aura de mistério à volta da sua pessoa e do seu trabalho.
Associe-se a algo novo, familiar, exótico, progressivo e tabu. Não defina a sua
mensagem, mas deixe-a vaga. Crie uma ilusão de ubiquidade – o seu. objeto pode
ser visto por todo o lado e é desejado pelos outros. Deixe então a cobiça, tão
latente em todos os seres humanos, faça o resto, desencadeando uma reação em
cadeia de desejo.
Tenho finalmente o que desejava.
Estou feliz? Nem por isso. Mas o que me falta? A minha alma já não tem a
atividade estimulante conferida pelo desejo. . . oh, não nos deveríamos deixar
enganar -— o prazer não reside na realização, mas na procura.
- Pierre-Augustin Caron de
Beaumarchais
Explicações
para a natureza humana
Por natureza, os seres humanos não
se satisfazem facilmente com as suas circunstâncias. Devido a uma força
perversa que existe dentro de nós, no momento em que possuímos algo ou
alcançamos o que desejamos, as nossas mentes começam a desviar-se para algo novo
e diferente, a imaginar que podemos ter algo melhor. Quanto mais distante e
inalcançável for este novo objeto, maior é o nosso desejo de o possuir. Podemos
chamar a este processo síndrome da galinha da minha vizinha, o equivalente
psicológico a uma ilusão de ótica — se nos aproximarmos demasiado da galinha da
vizinha, desse novo objeto, vemos que afinal não é algo assim tão bom. Esta
síndrome tem raízes muito profundas na nossa natureza.
Perto da nossa realidade, podemos
ver esta síndrome em ação nas nossas vidas diárias. Estamos sempre a olhar para
outras pessoas que parecem estar melhor do que nós — os seus pais são mais
carinhosos, as suas carreiras mais excitantes, as suas vidas mais fáceis.
Podemos viver um relacionamento amoroso perfeitamente satisfatório, mas as
nossas mentes dirigem-se permanentemente para outra pessoa alguém que não tem
os defeitos bem reais do nosso companheiro ou pelo menos é o que pensamos.
Sonhamos ser arrebatados da nossa vida entediante ao viajarmos para uma cultura
exótica, onde as pessoas são simplesmente mais felizes do que na cidade escura
em que vivemos. No momento em que arranjamos um emprego, imaginamos algo
melhor. A nível político, o nosso governo é corrupto e precisamos de uma
mudança real, talvez de uma revolução. Nesta revolução, imaginamos uma
verdadeira utopia a substituir o mundo imperfeito em que vivemos. Não pensamos
na grande maioria das revoluções da história em que os resultados foram mais do
mesmo ou algo pior. Em todos estes casos, se nos aproximássemos mais das
pessoas que invejamos, da suposta família feliz, do outro homem ou mulher que
cobiçamos, dos indígenas exóticos numa cultura que desejamos conhecer, do
emprego melhor, da utopia, veríamos para lá da ilusão. E muitas vezes, quando
agimos com base nestes desejos, apercebemo-nos da verdade, para nossa
desilusão, mas isso não muda o nosso comportamento. O próximo objeto a brilhar
lá ao fundo, o próximo culto exótico ou esquema para enriquecer depressa irão
inevitavelmente seduzir-nos. Um dos exemplos mais marcantes desta síndrome
corresponde à imagem que construímos acerca da nossa infância quando esta vai
ficando para trás. A maior parte das pessoas recorda um tempo dourado de
brincadeiras e entusiasmo. A medida que envelhecemos, torna-se ainda mais dourado
na nossa memória. Claro que esquecemos convenientemente as ansiedades, as
inseguranças e os sofrimentos que nos atormentavam na infância e que muito
provavelmente consumiam mais do nosso espaço mental do que os prazeres
passageiros de que nos lembramos. Mas como a nossa juventude é um objeto que se
distancia cada vez mais à medida que envelhecemos, conseguimos idealizá-lo e
vê-lo como a mais gorda das galinhas.
Esta síndrome pode ser explicada
por três características do cérebro humano. A primeira é conhecida por indução,
a forma como algo positivo cria uma imagem negativa contrária, na mente. É algo
que se torna mais óbvio no sistema visual. Quando vemos uma cor vermelho ou
preto, por exemplo esta tende a intensificar a perceção da cor contrária, que
nos rodeia, neste caso verde ou branco. Quando olhamos para o objeto vermelho,
podemos ver com frequência formar-se um halo verde à volta dele. De modo geral,
a mente funciona por contraste. conseguimos formular conceitos sobre algo
tornando-nos conscientes do seu oposto. O cérebro está sempre a desenvolver
estes contrastes.
O que isto significa é que, sempre
que vemos ou imaginamos algo, as nossas mentes não conseguem evitar ver ou
imaginar o contrário. Se a nossa cultura nos proibir ter um pensamento específico
ou acalentar um desejo especial, esse tabu traz-nos imediatamente à mente
precisamente aquilo que nos é vedado. Cada «não» desencadeia um «sim»
correspondente. (Foi a proibição da pornografia nos tempos da rainha Vitória
que deu origem à primeira indústria pornográfica.) Não conseguimos controlar
esta oscilação mental entre contrastes. Esta predispõe-nos para pensar naquilo
que não temos e para desejar precisamente isso.
Em segundo lugar, a satisfação
poderia ser um traço evolutivo perigoso para um animal consciente como o ser
humano. Se os nossos mais remotos antepassados tivessem tendido a sentir-se
satisfeitos com as circunstâncias em que viviam, não teriam sido
suficientemente sensíveis a possíveis perigos que espreitavam em ambientes
aparentemente mais seguros. Sobrevivemos e prosperámos graças aos nossos
constantes alertas conscientes, que nos predispuseram para pensar e imaginar
nos possíveis aspetos negativos de quaisquer circunstâncias. Já não vivemos em
savanas ou florestas cheias de predadores extremamente ameaçadores e de perigos
naturais, mas os nossos cérebros estão preparados para essa eventualidade.
Tendemos, portanto, para um permanente preconceito negativo, que muitas vezes
se expressa conscientemente através de queixumes e de resistências.
Finalmente, o que é real e o que é
imaginado são ambos experimentados do mesmo modo no cérebro. Trata-se de algo
que ficou provado através de várias experiências em que indivíduos que imaginam
algo produzem atividade elétrica e química nos seus cérebros que é
extraordinariamente semelhante aquando efetivamente vivem aquilo que estão a
imaginar, podendo tudo isto verificar-se através de uma ressonância magnética
funcional. A realidade pode ser muito dura e cheia de limites e problemas.
Todos haveremos de morrer. Todos os dias ficamos mais velhos e menos fortes.
Tornar-se bem-sucedido exige sacrifício e trabalho árduo. Mas, na nossa
imaginação, podemos viajar para lá destes limites e acalentar todo o tipo de
possibilidades. A nossa imaginação é essencialmente ilimitada. E aquilo que
imaginamos tem quase a mesma força daquilo que efetivamente vivemos. E por isso
nos tornamos seres que tendem sempre a imaginar algo melhor do que a
circunstâncias presentes e a sentir algum prazer na libertação da realidade que
a nossa imaginação nos traz.
Tudo isto torna a síndrome da
galinha da minha vizinha inevitável na nossa disposição psicológica. Não
devemos moralizar ou queixar-nos deste possível defeito da natureza humana. Faz
parte da vida mental de cada um de nós e traz muitas vantagens. Está na origem
da nossa capacidade de pensar em novas possibilidades e de inovar. Foi aquilo
que fez da nossa imaginação um instrumento poderoso. E, por outro lado, é
aquilo que nos permite mobilizar, entusiasmar e seduzir as pessoas.
Saber trabalhar com a cobiça
natural das pessoas é uma arte intemporal de que dependemos para usar em todas
as formas de persuasão. O problema que hoje temos não é o de as pessoas terem
subitamente parado de cobiçar, mas precisamente o contrário: estamos a perder a
ligação com esta arte e com as possibilidades que a acompanham.
Vemos provas deste fenómeno na
nossa cultura. Vivemos numa era de bombardeamento e de saturação. A publicidade
asfixia-nos com as suas mensagens e presença de marca, remetendo-nos para aqui
ou para ali, de modo a fazermos «cliques» com o rato e comprarmos coisas. Os
filmes assaltam-nos, atacando os nossos sentidos. Os políticos são
especialistas no que diz respeito a agitar e explorar o descontentamento com as
circunstâncias presentes, mas não fazem ideia de como suscitar a imaginação
acerca do futuro. Em todos estes casos, sacrifica-se a subtileza, e tudo isto
tem um efeito generalizado de endurecimento da imaginação, que secretamente anseia
por algo diferente.
Também encontramos sinais deste
aspeto nos relacionamentos pessoais. Cada vez mais, as pessoas passaram a
acreditar que os outros as deveriam desejar simplesmente pelo que são. Isto
significa revelar ao máximo o que são, expondo todos os seus gostos e aversões
e tornando-se tão familiares quanto possível. Não deixam espaço para a
imaginação ou para a fantasia, e, quando o homem ou a mulher que desejam perdem
o interesse, vão para a Internet arengar sobre a superficialidade dos homens ou
sobre a frouxidão das mulheres. Cada vez mais autocentrados temos uma
dificuldade crescente em entrar na psicologia da outra pessoa, em imaginar o
que ela pretende de nós, em vez daquilo que queremos dela.
Compreender: As pessoas podem indicar todos
estes factos como provas de que os seres humanos estão a tornar-se mais
sinceros e verdadeiros, mas a natureza humana não muda em apenas algumas
gerações. As pessoas não se tornaram mais óbvias e francas devido a um profundo
apelo moral, mas devido a um egocentrismo crescente e a uma preguiça
generalizada. Não exige qualquer esforço ser-se simplesmente quem se é ou
anunciar a sua mensagem. E a falta de esforço resulta apenas numa ausência de
efeito sobre a psicologia do outro. Significa que o interesse da pessoa por si
será muito reduzido. A sua atenção passará rapidamente para outro ponto, e não
verá motivos para isso. Não aceite o moralismo fácil dos nossos tempos, que
incita à sinceridade em detrimento da desejabilidade. Faça o contrário. Com tão
poucas pessoas a compreenderem a arte de se fazer desejar, terá um sem-fim de
oportunidades de brilhar e de explorar as fantasias reprimidas das pessoas.
Estratégias para estimular desejo
A solução para permitir que esta
lei funcione em seu favor consiste em objetivar a sua própria pessoa e aquilo
que produz. Normalmente está fechado nos seus próprios pensamentos e sonhos.
Imagina que as pessoas o deveriam amar e respeitar por quem é. Acredita que
aquilo que produz deveria entusiasmar naturalmente as pessoas. Afinal, investiu
muito nisso e tem grandes esperanças no seu sucesso. Mas os outros não vêem
nada disso. Para eles, é apenas um indivíduo entre muitos, e, como pessoa,
inspira curiosidade e entusiasmo ou indiferença e até hostilidade. Os outros
projetam em si as suas próprias fantasias e ideias preconcebidas. Depois de se
tornar público, o seu trabalho também é um objeto completamente divorciado das
suas próprias esperanças e sonhos e inspira emoções que são fracas ou fortes.
Se conseguir ver a sua pessoa e o que produz como objetos que as pessoas
percecionam à sua maneira, terá o poder de alterar as suas perceções e de criar
objetos de desejo.
Eis as três principais estratégias
para criar esses objetos.
Saber como e quando afastar-se.
Trata-se da essência desta arte. Qualquer ser humano tem uma presença que as
pessoas vêem e interpretam. Se for demasiado óbvio neste aspeto, se as pessoas
o conseguirem ler com demasiada facilidade e percebê-lo, revelará as suas
necessidades de forma demasiado visível, e os outros começarão
inconscientemente a manifestar um certo nível de desrespeito; com o tempo,
perderão interesse. A sua presença deverá ter um toque de frieza, como se
sentisse que pode passar sem os outros. Isto mostra às pessoas que se considera
digno de respeito, o que inconscientemente reforça o seu valor aos seus olhos.
Faz que as pessoas queiram ir atrás de si. Este toque de frieza é a primeira
forma de afastamento que deve praticar. Adicione-lhe um pouco de
inexpressividade e ouvirmos uma piada ou anúncio que sejam ambíguos, somos nós
que fazemos a interpretação, e ficamos muito entusiasmados por ser capazes de
exercitar a imaginação desta forma. Através do seu trabalho, pretenderá estimular
ao máximo este prazer nas pessoas.
Crie rivalidades de desejo. O desejo humano nunca é um
fenómeno individual. Somos seres sociais, e o que desejamos reflete quase
sempre o que as outras pessoas desejam. Este facto tem origem nos nossos
primeiros anos de vida. Encarámos a atenção que os nossos pais nos podiam dar
(o objeto que primeiro cobiçámos) como um jogo de soma zero. Se os nossos
irmãos recebiam muita atenção, havia menos para nós. Tínhamos de competir com
eles e com os outros para obter atenção e afeto. Quando víamos os nossos irmãos
e amigos receber algo — um presente ou um favor —, isso desencadeava um desejo
competitivo de ter o mesmo. Se um objeto ou pessoa não fosse desejado pelos
outros, tendíamos a vê-lo como algo indiferente ou desagradável — devia haver
algo de errado com ele.
Este processo torna-se um padrão
para a vida. Para algumas pessoas é mais claro. Nos relacionamentos,
interessam-se apenas por homens ou mulheres comprometidas, que são claramente
desejados por um terceiro elemento. O seu desejo é o de afastar este objeto de
desejo, triunfar sobre a outra pessoa, uma dinâmica que muito certamente tem
origem na sua infância. Se as outras pessoas estão a fazer dinheiro através de
um truque novo, querem não só participar, mas monopolizar o mercado. Para
outras, é mais subtil. Vêem pessoas que possuem algo que parece interessante, e
o seu desejo não é apropriarem-se dele, mas partilharem e participarem na
experiência. Seja qual for o sentido, quando vemos pessoas ou coisas desejadas por
outros, isso faz subir o seu valor.
Temos de aprender a explorar este
aspeto. Se de alguma forma conseguir criar a Impressão de que os outros o
desejam a si e ao seu trabalho, irá captar as pessoas sem ter de dizer uma
palavra ou de se impor. Estas virão até si. Procure rodear-se desta aura social
ou pelo menos criar a ilusão da mesma.
Pode criar este efeito de várias
maneiras. Geri-lo de forma que o seu objeto seja visto ou ouvido por todo o
lado, chegando a encorajar a cópia, se necessário, como Chanel. Não intervenha
diretamente. Dessa forma irá desencadear inevitavelmente um movimento viral.
Pode acelerar este processo alimentando rumores ou histórias sobre o objeto
através de várias redes sociais. As pessoas irão começar a falar, e a boca a
boca espalhará o efeito. Comentários negativos ou polémica também resultam, por
vezes melhor ainda do que os louvores. Dará ao seu objeto um toque provocador
ou transgressor. Seja como for, as pessoas são atraídas por tudo o que é
negativo. O seu silêncio ou a falta de um sentido aberto para a mensagem
permitirão às pessoas deleitarem-se com as suas próprias histórias e
interpretações.
Também pode pedir a pessoas
importantes ou criadores de tendências que falem sobre ele aticem um pouco as
chamas. O que oferece, dizem, é novo, revolucionário, algo nunca antes visto ou
ouvido.
A certo ponto, haverá pessoas
suficientes a sentirem a novidade e não quererem ficar de fora e estas captarão
outras pessoas. O único problema deste
jogo é que no mundo de hoje há muita competição quanto a estes efeitos virais,
e o público é extremamente instável. Deverá revelar-se um mestre não só na
criação destas reações em cadeia, mas na sua renovação ou na criação de outras
novas.
Como indivíduo, deve perceber que
as pessoas o desejam, que tem um passado — não tão remoto que inspire
desconfiança, mas o suficiente para mostrar os outros o acharam desejável. Seja
indireto neste aspeto. Permita que as pessoas oiçam histórias acerca do seu
passado. Procure que vejam literalmente a atenção que recebe de homens ou
mulheres, tudo sem dizer uma palavra. Gabar-se ou dar indicações explícitas
neste sentido irá neutralizar este efeito.
Em qualquer situação de negociação,
deverá sempre incluir um terceiro quarto elemento que compita com os seus
serviços, criando uma rivalidade de desejo. Isto irá inflacionar imediatamente
o seu valor não apenas enquanto guerra de licitações, mas também pelo facto de
se tornar óbvio que os outros o cobiçam.
Use a indução.
Podemos pensar que vivemos num período de grande liberdade, quando comparado
com o passado, mas, na verdade, vivemos num mundo que é mais regulado do que
nunca. Todos os nossos movimentos são seguidos de forma digital. Há mais leis
do que nunca a governar todos os aspetos do comportamento humano. A correção
política, que sempre existiu, pode ser mais intensa pelo facto de nos termos
tornado muito visíveis nas redes sociais. Secretamente, a maior parte das
pessoas sente-se entediada ou esmagada por todas estas limitações à
movimentação física e mental. Ansiamos pelo que é transgressivo e pelo que
excede os limites estabelecidos. Podemos ser facilmente atraídos por esse «não»
ou «sim» reprimido.
Procure associar o seu objeto a
algo ligeiramente ilícito, pouco convencional ou politicamente avançado. Chanel
fê-lo com o seu aspeto abertamente andrógino e com a ambivalência relativa ao
papel dos géneros. O fosso intergeracional é sempre material a explorar para
este efeito. Aquilo que oferece deverá opor-se claramente à geração anterior,
mais formal. John F. Kennedy fê-lo em contraposição com os anos cinquenta e com
a era Eisenhower - um período de conformismo estupidificante. Por oposição,
votar nele representava juventude, vigor, masculinidade extrema. Jogou essencialmente
com a revolta secreta face à figura paternal e com o desejo transgressor de se
livrar dela. Este desejo encontra-se sempre tacitamente entre os jovens e traz
sempre consigo uma vertente tabu.
Um desejo ilícito que quase todas
as pessoas partilham é o do voyeurismo. Espreitar para dentro das vidas
privadas dos outros viola tabus sociais rigorosos referentes à privacidade, mas
toda a gente sente o impulso de ver o que se passa na vida privada dos outros.
O teatro e o cinema dependem destes desejos voyeur. Põem-nos dentro dos espaços
pessoais dos outros, e sentimo-lo como se estivéssemos literalmente a
espiá-los. Pode integrar este aspeto no seu trabalho dando a impressão de que
está a revelar segredos que na verdade não deveriam ser partilhados. Alguns
ficarão chocados, mas toda a gente sentirá curiosidade. Podem ser segredos
sobre si e sobre a forma como alcançou o que fez ou pode tratar-se de algo
sobre outrem, sobre o que acontece à porta fechada com pessoas poderosas e
sobre as leis que as guiam. Seja como for, o que oferecer deverá ser novo,
invulgar e exótico ou, pelo menos, apresentado como tal. O contraste com a vida
normal, tão entorpecidamente convencional, criará um impulso de cobiça.
Finalmente, acene com a perspetiva
de alcançar o inatingível ou o impossível. A vida está cheia de todo o tipo de
limites e dificuldades aborrecidos. Tornar-se saudável ou bem-sucedido exige
grande esforço. Estamos fechados na nossa personalidade e não conseguimos
tornar-nos outros. Não conseguimos recuperar a juventude ou a saúde que a
acompanhava. Cada dia deixa-nos mais perto da morte, o derradeiro limite. No
entanto, o seu objeto oferece a fantasia de um caminho rápido para a riqueza e
para o sucesso, de recuperar a juventude perdida, de se tornar uma pessoa nova
e até de vencer a própria morte. As pessoas agarram-se avidamente a estas
coisas por serem consideradas impossíveis. Pela lei da indução, podemos
imaginar todos estes atalhos e fantasias (tal como podemos imaginar um
unicórnio), o que nos transmite o desejo de as alcançar, e imaginá-las é quase
como vivê-las.
Lembre-se: não é a possessão, mas o
desejo que secretamente impele as pessoas. Possuir algo traz inevitavelmente
implícito alguma deceção e desencadeia o desejo de algo novo a perseguir. Somos
consumidos pela necessidade humana de fantasias e do prazer de as perseguir.
Neste sentido, os esforços deverão ser permanentemente renovados. Quando as
pessoas obtêm aquilo que desejam ou quando se apoderam da sua pessoa, o seu
valor e o respeito que têm por si começam imediatamente a diminuir. Continue a
manter a distância, a surpreender e a estimular a perseguição. Enquanto o
fizer, terá o poder.
O desejo supremo
O seu caminho deve orientar-se
sempre no sentido de uma maior consciência da sua própria natureza. E
importante vermos a síndrome da galinha da minha vizinha
atuar em nós e impelir-nos
constantemente para determinadas ações. Precisamos de ser capazes de distinguir
entre o que é positivo e produtivo na tendência para a cobiça e o que é
negativo e contraproducente. Do lado positivo, sentirmo-nos irrequietos e
insatisfeitos pode motivar-nos para procurarmos algo melhor e para não nos
conformarmos com o que temos. Alargará a nossa imaginação, na medida em que
consideramos outras possibilidades, em vez das circunstâncias que enfrentamos.
A medida que envelhecemos, tendemos a tornar-nos complacentes, e renovar a
irrequietude dos nossos primeiros anos pode conservar-nos a nós jovens e às
nossas mentes ativas.
No entanto, esta insatisfação deve
ser mantida sob controlo consciente. Muitas vezes, o descontentamento é
crónico; o desejo de mudança é vago e apenas um reflexo do tédio. Isto leva a
um desperdício de tempo precioso. Sentimo-nos infelizes com a forma como a
carreira está a evoluir e por isso fazemos uma grande mudança, que exige
aprender novas competências e adquirir novos contactos. Apreciamos a novidade
de tudo isso. Mas alguns anos mais tarde sentimos novamente o bulício do
descontentamento. Este novo caminho também não é certo.
Seria melhor pensar nisto mais
profundamente, concentrando-nos nos aspetos da carreira anterior que não
resultaram e operando uma mudança mais suave, numa área profissional
relacionada com a anterior, mas exigindo uma adaptação das nossas capacidades.
No campo dos relacionamentos,
podemos passar a vida à procura do homem ou da mulher perfeitos e acabar
sozinhos. Ninguém é perfeito. Em vez disso, é melhor conformarmo-nos com os
defeitos da outra pessoa e aceitá-los ou até descobrir algum encanto nas suas
fragilidades. Ao acalmarmos desejos cobiçosos, podemos aprender a arte do
compromisso e como fazer funcionar um relacionamento o que nunca acontecerá de
forma fácil ou natural.
Em vez de andar sempre atrás das
últimas tendências e de moldar os seus desejos por aquilo que os outros
consideram excitante, deveria investir conhecer melhor os seus gostos e
anseios, para que possa distinguir aquilo de que verdadeiramente precisa ou o
que quer do que foi produzido por anunciantes ou efeitos virais
A vida é breve, e a nossa energia é
limitada. Se nos deixarmos conduzir por desejos cobiçosos, podemos desperdiçar
muito tempo em buscas e mudanças fúteis. De modo geral, não fique sempre na
expectativa de alcançar algo melhor tire o melhor proveito do que possui.
Pense nesta questão da seguinte
forma: está integrado num meio formado pelas pessoas que conhece e pelos locais
que frequenta. Esta é a sua realidade. A sua mente é constantemente atraída
para longe desta realidade, devido à natureza humana, sonha para lugares
exóticos, mas, quando se encontra neles, arrasta consigo o seu estado de
espírito insatisfeito. Procura o tipo de entretenimento que lhe traga novas
fantasias com que se alimentar. Lê livros cheios de ideias que não se
relacionam com a sua vida diária, que estão cheios de especulações vazias sobre
coisas que só existem pela metade. E nada, neste furacão e desejo incessante,
do que está mais inacessível o conduz a algo que o realize - limita-se a
suscitar ainda mais quimeras a perseguir. Acaba por não conseguir fugir de si
mesmo.
Por outro lado, a realidade
atrai-o. Concentrar a mente no que está mais perto, em vez de no que se
encontra mais afastado, traz-lhe uma sensação muito diferente. Com as pessoas
do seu círculo, pode sempre ligar-se a um nível mais profundo. Há muita coisa
que nunca saberá sobre as pessoas com quem lida, e isso pode constituir uma
infindável fonte de fascínio. Pode relacionar-se mais profundamente com o meio
que o envolve. O lugar onde vive tem uma história profunda em que pode
mergulhar. Conhecer melhor o seu contexto apresentar-lhe-á muitas oportunidades
de poder. Quanto a si, possui recessos misteriosos que nunca compreenderá
completamente. Ao tentar conhecer-se melhor, pode assumir o controlo da sua
própria natureza em vez de ser escravo dela. E o seu trabalho sugere
possibilidades infinitas de aperfeiçoamento e inovação, desafios intermináveis
para a imaginação. São estas as coisas que lhe são mais próximas e que
constituem o seu mundo real, não virtual.
No fim, o que deverá realmente
cobiçar será um relacionamento mais profundo com a realidade, que lhe trará
calma, concentração e a capacidade prática de alterar o que for possível mudar.
Permita que todas as pessoas que
conhece — sejam homens ou mulheres — sintam, agora e sempre, que poderá perfeitamente
passar sem a sua companhia. Isto irá consolidar essa amizade. De facto, com a
maior parte das pessoas, não haverá mal em, de vez em quando, acrescentar uma
ponta de desprezo à sua forma de as tratar; isso irá fazê-las valorizar ainda
mais a sua amizade. . . Mas, se realmente tivermos alguém em grande conta,
deveríamos ocultar-lho, como um crime. Não é algo muito gratificante de fazer,
mas está certo. Um cão não suportaria ser tratado com demasiada delicadeza,
quando mais um ser humano!
—Arthur Schopenhauer