# 4 Lei do Comportamento Compulsivo - 4/18 Robert Greene
# 4 Lei do Comportamento
Compulsivo – Determine a força da personalidade de alguém
Quando é preciso escolher pessoas
com quem trabalhar e com quem se possa desenvolver uma parceria, não se deixe
enfeitiçar pela sua fama ou arrebatar pela imagem superficial que estas tentam
projetar. Em vez disso, treine-se para olhar mais para o seu interior e para
divisar a sua personalidade. Esta é formada nos primeiros anos de vida e
através dos hábitos quotidianos. E o que obriga as pessoas a repetirem
determinadas ações nas suas vidas e a reiterarem padrões negativos. Observe
atentamente esses padrões e lembre-se de que os seres humanos nunca fazem nada
uma única vez. Irão repetir inevitavelmente o seu comportamento. Meça a força
da sua personalidade pela forma como lidam com a adversidade, pela sua
capacidade de se adaptarem e de trabalharem com outras pessoas, pela sua
paciência e capacidade de aprendizagem. Gravite sempre em torno daqueles que
apresentem sinais de força evite os muitos tipos tóxicos que andam por aí.
Conheça minuciosamente a sua própria personalidade, para poder quebrar os seus
padrões impulsivos e assumir o controlo do seu destino.
Exemplo - Howard Hughes Jr.
(1905—1976)
O padrão da vida de Howard Hughes
ficou definido desde muito cedo. A mãe tinha uma natureza ansiosa e, depois de
saber que não podia ter mais filhos, direcionou grande parte da sua ansiedade
para o descendente. Asfixiava-o com uma atenção permanente; tornou-se a sua
companheira mais próxima, quase nunca o perdendo de vista. O pai depositou imensas
expectativas no filho, no sentido de este continuar o nome da família. Os pais
determinavam tudo o que ele fazia — o que vestia, o que comia e quem eram os
seus amigos (embora fossem poucos). Mudavam-no de escola para escola, em busca
do ambiente perfeito para o filho, que provara ser hipersensível e de trato
difícil. Estava completamente dependente deles para tudo e, devido a um medo
terrível de os dececionar, tornou-se extremamente educado e obediente.
No entanto, a verdade é que se
ressentia amargamente da sua dependência total. Depois da morte dos pais, a sua
verdadeira personalidade podia finalmente vir à tona, por detrás dos sorrisos e
da obediência. Não nutria qualquer sentimento pelos seus familiares. Preferia
enfrentar o futuro sozinho a que a menor autoridade o determinasse. Precisava
de ter o controlo absoluto, mesmo aos dezanove anos, sobre o seu destino; tudo
o que fosse de menos despertaria as velhas ansiedades de infância. E, com o
dinheiro que herdara, tinha a possibilidade de realizar o seu sonho de
independência total. O seu amor pelos aviões refletia esse traço de
personalidade. Apenas no ar, sozinho e com o controlo da situação, podia
experimentar realmente a excitação de dominar e de se libertar das suas
ansiedades. Podia planar bem acima das massas, que secretamente desprezava.
Conseguia desafiar a morte, o que fez muitas vezes, porque seria um fim sob o
seu controlo.
A sua personalidade surgiu de forma
ainda mais clara no tipo de liderança que assumiu em Hollywood e nas suas
outras iniciativas empresariais. Se escritores, realizadores ou executivos
avançassem com ideias novas, Hughes encarava este facto apenas como um desafio
pessoal à sua autoridade. Isto agitava as suas velhas ansiedades sobre ser
impotente e dependente dos outros. Para combater este sentimento, tinha de
manter o controlo de todos os aspetos do negócio, censurando até a ortografia e
a gramática do mais pequeno anúncio publicitário. Tinha de criar uma estrutura
muito livre nas suas empresas, incitando que todos os executivos se
digladiassem pela sua atenção. Preferia que houvesse algum caos interno, desde
que tudo passasse por ele.
O paradoxo da situação era que, ao
tentar ganhar esse controlo total, tendia a perdê-lo; um único homem nunca
conseguiria estar em cima de tudo, e por isso surgia todo o tipo de problemas
imprevistos. E quando os projetos começavam a desmoronar-se e a pressão se
tornava intensa, desaparecia de cena ou adoecia convenientemente. A sua
necessidade de controlar tudo à sua volta estendia-se até às mulheres com quem
saía - analisava todas as suas ações, mandando investigadores privados
segui-las.
O problema que Howard Hughes
apresentava a todos os que decidiam trabalhar com ele em qualquer campo residia
no facto de construir uma imagem pública que escondia as fragilidades notórias
da sua personalidade. Em vez do microgestor irracional, apresentava-se como o
individualista austero e como o pioneiro americano consumado. O aspeto mais
prejudicial era a sua capacidade de se retratar como um homem de negócios de
sucesso, à frente de um império de milhares de milhões de dólares. Na verdade,
herdara do pai uma empresa de ferramentas altamente lucrativa. Com os anos, as
únicas partes do seu império que deram lucros substanciais foram a empresa de
ferramentas e uma versão mais antiga da Hughes Aircraft que arrancara a partir
da companhia do pai. Por vários motivos, estes dois negócios eram dirigidos de
forma totalmente independente de Hughes; este não tinha influência nas suas
operações. Os muitos outros negócios que dirigia pessoalmente — a divisão
aeronáutica posterior, as empresas cinematográficas, os hotéis e os imóveis em
Las Vegas — perderam todos quantias substanciais que felizmente foram cobertas
pelos outros dois.
Na verdade, Hughes era um homem de negócios
terrível, e o padrão de fracassos que o revelou era fácil de verificar. Mas
este é o ângulo morto da natureza humana: estamos pouco equipados para medir a
personalidade das pessoas com quem lidamos. A sua imagem pública, a sua
reputação, hipnotiza-nos facilmente. Somos cativados pelas aparências. Se estas
nos envolverem em algum mito sedutor, como Hughes fez, queremos acreditar nele.
Em vez de tentar compreender a personalidade das pessoas — a sua capacidade de
trabalhar com os outros, de cumprir as promessas, de permanecer forte na
adversidade —, preferimos trabalhar com as pessoas ou contratá-las com base no
seu currículo reluzente, na sua inteligência e no seu encanto. Mas mesmo um
traço positivo como a inteligência não tem qualquer valor se a pessoa revelar
uma personalidade fraca ou dúbia. E, por isso, por causa deste nosso ângulo
morto, sofremos às mãos do líder irresoluto, do chefe da microgestão, do colega
intriguista. Esta é a fonte de um sem-fim de tragédias na história, o nosso
padrão como espécie.
Tem de mudar a sua perspetiva,
custe o que custar. Treine-se a ignorar a fachada que as pessoas apresentam, o
mito que as rodeia, e, em vez disso, sonde-as profundamente em busca de sinais
da sua personalidade. Pode vê-lo nos padrões que revelam do seu passado, na
qualidade das suas decisões, na forma como escolheram resolver os problemas, no
modo como delegam a autoridade e trabalham com os outros e em muitos outros
sinais. Uma pessoa de personalidade forte é como peça de ouro — rara e inestimável.
Pode adaptar-se, aprender e melhorar. Visto que o seu sucesso depende das
pessoas com quem trabalha ou para quem trabalha, faça da sua personalidade o
objeto principal da sua atenção. Irá poupar-se ao desgosto de a descobrir
quando for demasiado tarde.
“Personalidade é destino.”
- Heráclito
Explicações
para a natureza humana
Ao longo de milhares de anos, os
seres humanos acreditaram no destino: uma espécie de força — espíritos, deuses
ou Deus — obrigava-os a agir de certa forma. A nascença, toda a vida era
planeada com antecedência; estávamos condenados a ser bem-sucedidos ou a
falhar. Hoje vemos o mundo de forma muito diferente. Acreditamos que
controlamos de modo geral o que nos acontece, que criamos o nosso próprio
destino. No entanto, por vezes, podemos ter uma impressão transitória que nos
aproxima daquilo que os nossos antepassados devem ter sentido. Um
relacionamento pessoal poderá correr mal ou o nosso percurso profissional
esbarra com um obstáculo, e estas dificuldades são estranhamente semelhantes a
algo que nos aconteceu no passado. Ou apercebemo-nos de que a nossa forma de
trabalhar num projeto tem de ser melhorada, de que podemos fazer mais. Tentamos
alterar os nossos métodos, apenas para nos descobrirmos a fazer as coisas
exatamente da mesma maneira, praticamente com os mesmos resultados. Podemos
sentir por momento que alguma espécie de força maligna no mundo, alguma
maldição nos obriga a reviver as mesmas situações.
Muitas vezes, podemos identificar
este fenómeno mais claramente nas ações dos outros, especialmente os que nos
são mais próximos. Por exemplo, vemos amigos apaixonarem-se constantemente pela
pessoa errada e afastarem de forma inconsciente a pessoa certa. Retraímo-nos
perante um comportamento disparatado da parte dessas pessoas, como um
investimento imponderado ou uma decisão profissional, apenas para as vermos
repetir essas tolices alguns anos mais tarde, depois de se terem esquecido da
lição aprendida. Ou sabemos de alguém que consegue sempre ofender a pessoa
errada na altura errada, suscitando hostilidade onde quer que vá. Ou então
esses indivíduos cedem sob pressão, sempre da mesma maneira, mas culpando os
outros ou o seu azar pelo que acontece. E claro que conhecemos
toxicodependentes que ultrapassam esta dependência apenas para voltarem a cair
a mesma ou que arranjam outra. Nós vemos estes padrões, mas os outros não,
porque ninguém gosta de acreditar que está a agir movido por uma espécie de
compulsão que está fora do seu controlo. E um pensamento demasiado perturbador.
Se formos sinceros connosco
próprios, teremos de reconhecer que há alguma verdade no conceito de destino.
Temos tendência para repetir as mesmas decisões e métodos ao lidar com os
problemas. Mas há uma maneira diferente de olhar para esta ideia: não são os
espíritos ou os deuses que nos controlam, mas o nosso caráter. A etimologia da
palavra caráter, do grego antigo, refere-se a um instrumento de gravação ou
estampagem. Caráter, ou personalidade, é, portanto, algo que está tão
profundamente gravado ou estampado em nós que nos obriga a agir de determinada
maneira, para lá da nossa consciência e controlo. Podemos conceber este caráter
ou personalidade como tendo três componentes essenciais, sobrepostas,
conferindo-lhe esta profundidade imaterial.
A camada mais profunda vem da
genética, de uma constituição particular dos nossos cérebros que nos predispõe
para certos estados de espírito e preferências. Esta componente genética pode
fazer alguém tender para a depressão, por exemplo. Torna algumas pessoas
introvertidas e outras extrovertidas. Poderá fazer que certas pessoas tendam a
tornar-se especialmente ávidas — de atenção, de privilégios ou de bens. A
psicanalista Melanie Klein, que estudou crianças, acreditava que o tipo da
criança ávida e gananciosa chegava ao mundo predisposto para este traço de
personalidade. Poderá haver outros fatores genéticos que também nos predispõem
para a hostilidade, para a ansiedade ou para a abertura.
A segunda camada que se forma por cima desta surge nos nossos primeiros anos de vida e do tipo especial de ligações que formámos com a nossa mãe ou cuidadores. Nestes três ou quatro primeiros anos, os nossos cérebros são especialmente maleáveis. Experimentamos emoções de forma mais intensa, criando vestígios de memórias que são muito mais profundas do que tudo o que se seguirá. Neste período da vida, encontramo-nos no nosso maior estado de suscetibilidade à influência dos outros, e a marca deixada por esse período temporal será profunda.
John Bowlby, antropólogo e psicanalista, estudou padrões de ligação mães e filhos e desenvolveu quatro esquemas básicos: livre | autónomo, desinteressado | confuso-ambivalente | desorganizado.
a) A marca livre/autónomo
inspira-se nas mães que dão aos filhos liberdade para se descobrirem e são
sempre sensíveis às suas necessidades, mas que também os protegem.
b) As mães que são desinteressadas
são com frequência distantes, por vezes revelando até hostilidade e rejeição.
Estas crianças ficam marcadas por uma sensação de abandono e pela ideia de que
têm sempre de se desenvencilhar sozinhas.
c) As mães confusas-ambivalentes
não são coerentes com a sua atenção por vezes sufocantes e excessivamente
envolvidas, outras vezes afastando-se devido aos seus próprios problemas ou
ansiedades. Podem fazer os filhos sentir a obrigação de tomar conta da pessoa
que deveria tomar conta delas.
d)
Existem, naturalmente, muitas
gradações em cada tipo e combinações dos mesmos, mas em todos os casos o tipo
de ligação que conhecemos nos nossos primeiros anos de vida irá criar
tendências profundas dentro de nós, especialmente na forma como usamos os
relacionamentos para lidar com o stresse ou para o moldar. Por exemplo, filhos
de mães desinteressadas tenderão a evitar qualquer tipo de situação
emocional negativa e a escudar-se em sentimentos de dependência. Podemos ter
dificuldade em entregarmo-nos a um relacionamento ou afastar inconscientemente
as pessoas. Os filhos de mães confusas sentiram grande ansiedade nessas
relações e muitos sentimentos contraditórios. Serão sempre ambivalentes face
aos outros, e isto irá definir padrões detetáveis nas suas vidas, de acordo com
os quais perseguem as pessoas e depois recuam inconscientemente.
De modo geral, a partir destes
primeiros anos, as pessoas apresentam uma nota característica em termos de
personalidade - hostis e agressivas, seguras e confiantes, ansiosas e
evitantes, carentes e confusas. Estas duas camadas são tão profundas que não
temos verdadeira consciência delas e do comportamento que implicam a menos que
nos esforcemos muito a analisarmo-nos.
De seguida, surge uma terceira camada
formada a partir dos nossos hábitos e experiências, à medida que envelhecemos.
Com base nas duas primeiras camadas iremos tender para confiar em certas
estratégias para lidar com o stresse, para procurar o prazer ou para lidar com
as pessoas. Estas estratégias tornaram-se agora hábitos que se tornam
enraizados durante a juventude. Haverá modificações na natureza particular da
nossa personalidade, dependendo das pessoas com quem lidamos — amigos,
professores, companheiros amorosos — e na forma como estes nos respondem. Mas,
de modo geral, estas três camadas irão definir alguns padrões detetáveis.
Tomaremos uma decisão específica. É algo que está neurologicamente inscrito nos
nossos cérebros. Somos forçados a repeti-lo porque o caminho já se encontra
traçado. Torna-se um hábito, e a nossa personalidade forma-se a partir destes
milhares de hábitos, tendo os primeiros sido estabelecidos muito antes de
termos consciência deles.
Existe igualmente uma quarta camada.
Desenvolve-se com frequência no fim da infância e na adolescência, à medida que
as pessoas se tornam conscientes das falhas presentes na sua personalidade.
Fazem os possíveis para as disfarçar. Se sentem que lá no fundo correspondem a
um tipo de pessoa ansiosa e tímida, apercebem-se de que este não é um traço
socialmente aceitável. Aprendem a disfarçá-lo com uma máscara. Compensam
tentando parecer descontraídos, despreocupados ou mesmo autoritários. Isto
dificulta-nos ainda mais a tarefa de apurar a natureza da sua personalidade.
Alguns traços de personalidade
podem ser positivos e refletir força interior. Por exemplo, algumas pessoas têm
tendência para ser generosas e abertas, empáticas e resistentes sob pressão.
Mas estas qualidades mais fortes e flexíveis exigem muitas vezes consciência e
prática para se tornarem verdadeiramente um hábito com que possamos contar. À
medida que envelhecemos, a vida tende a enfraquecer-nos. Torna-se mais difícil
confiar na empatia. Se formos generosos com os outros e abertos a todas as
pessoas que conhecermos, podemos meter-nos em grandes sarilhos. A confiança sem
autoconsciência e controlo pode tornar-se arrogância. Com um esforço
consciente, estes pontos fortes tenderão a esgotar-se ou a transformar-se em
fragilidades. O que isto significa é que as partes mais frágeis da nossa
personalidade são as que criam hábitos e um comportamento compulsivo, porque
não exigem esforço ou prática para se manterem.
Finalmente,
podemos desenvolver traços de personalidade contraditórios, provavelmente com
origem numa diferença entre as nossas disposições genéticas e as nossas
primeiras influências ou em progenitores que nos instilam valores diferentes.
Podemos sentir-nos simultaneamente idealistas e materialistas, com as duas
partes a lutarem dentro de nós. A lei continua a ser a mesma. A personalidade
contraditória, que se desenvolve nos primeiros anos, revelará simplesmente um
tipo de padrão diferente, com decisões que tendem a refletir a ambivalência de
alguém, ou essa oscilação.
Como estudioso da natureza humana,
a sua tarefa é dupla: em primeiro lugar, deverá compreender a sua própria
personalidade, analisando o melhor possível os elementos do seu passado que o
formaram e os padrões, principalmente negativos, que pode considerar como
recorrentes na sua vida. É impossível livrar-se desta marca que constitui a sua
personalidade. É demasiado profunda. Mas, através da consciência, pode aprender
a mitigar ou mesmo a interromper alguns padrões negativos. Pode trabalhar no
sentido de transformar os aspetos negativos e frágeis da sua personalidade em
pontos realmente fortes. Pode tentar criar novos hábitos e padrões que os
acompanham através da prática, moldando ativamente a personalidade e o destino
que a acompanha.
Em segundo lugar, deverá
desenvolver a sua capacidade de ler a personalidade das pessoas com que lida.
Para o fazer, procure considerar a personalidade como um valor primordial
quando se trata de escolher uma pessoa para quem trabalhar, com quem trabalhar
ou um companheiro para a vida. Isto significa apreciar esse aspeto mais do que
o seu encanto, inteligência ou reputação. A capacidade de observar a
personalidade das pessoas — através das suas ações e padrões - e uma
competência social perfeitamente determinante. Pode ajudá-lo a evitar
precisamente o tipo de decisões que podem representar anos de infelicidade —
escolher um líder incompetente, um colega duvidoso, um assistente intriguista
ou o tipo de cônjuge incompatível que lhe pode envenenar a vida. Mas trata-se
de uma capacidade que deve desenvolver de forma consciente, porque os seres
humanos são normalmente ineptos quando se trata destas avaliações.
A fonte habitual da nossa inaptidão
tem a ver com o facto de tendermos a basear os nossos juízos de valor acerca
das pessoas no que é mais aparente. Mas, como referido, as pessoas muitas vezes
tentam disfarçar as suas fragilidades apresentando-as como algo positivo.
Vemo-las cheias de autoconfiança, para mais tarde descobrirmos que na verdade
são arrogantes e incapazes de ouvir. Parecem francas e sinceras, mas com o
tempo apercebemo-nos de que na verdade são básicas e incapazes de ter em conta
os sentimentos dos outros. Ou parecem prudentes e ponderadas, mas acabamos por
perceber que na verdade são tímidas e têm medo da menor crítica. As pessoas
podem ser muito hábeis a criar estas ilusões óticas, e nós deixamo-nos enganar.
Do mesmo modo, encantam-nos e bajulam-nos, e, ofuscados pelo desejo de gostar
delas, não conseguimos ir mais longe e ver os seus defeitos.
Relacionado com este aspeto, quando
olhamos para as pessoas, de modo geral aquilo que vemos realmente é apenas a
sua fama, o mito que as rodeia, a posição que ocupam, e não o indivíduo.
Acreditamos que uma pessoa com sucesso tem de, por natureza, ser generosa,
inteligente e boa e que merece tudo o que lhe coube em sorte. Mas há pessoas bem-sucedidas
de todos os tipos e feitios. Algumas são boas a usar os outros para chegarem
onde querem, disfarçando a sua própria incompetência. Outras são completamente
manipuladoras. As pessoas bem-sucedidas têm tantos defeitos como qualquer outra
pessoa. Do mesmo modo, tendemos a acreditar que alguém que adere a uma religião
em particular, a um sistema de crenças político ou a um código moral deverá ter
uma personalidade em consonância. Mas as pessoas levam a personalidade que têm
para o cargo que ocupam ou para a religião que professam. Um indivíduo pode ser
um liberal progressista ou um cristão devoto e lá no fundo continuar a ser um
tirano intolerante.
Assim sendo, o primeiro passo ao
estudar a personalidade é estar consciente destas ilusões e aparências e
treinar-se a olhar para lá delas. Devemos esquadrinhar toda a gente em busca de
sinais da sua personalidade, seja qual for o aspeto que apresentem ou a posição
que ocupem. Com este aspeto bem presente, podemos trabalhar em várias
componentes-chave para dominar essa competência: reconhecer sinais que as
pessoas transmitem em determinadas situações e que revelam claramente a sua
personalidade; compreender algumas categorias gerais em que as pessoas se
encaixam (personalidade forte versus fraca, por exemplo); e, finalmente, estar
consciente de certos tipos de personalidade que muitas vezes são os mais
tóxicos e que deveriam ser evitados, se possível.
Sinais de personalidade
O indicador mais significativo da
personalidade das pessoas surge através das suas ações no tempo. Apesar do que
as pessoas dizem acerca das lições aprendidas (ver Howard Hughes) e de como
mudaram com os anos, verá inevitavelmente as mesmas ações e decisões
repetirem-se ao longo das suas vidas. Nestas decisões, revelam a sua
personalidade. Deverá reparar em quaisquer formas de comportamento que destoem
— desaparecer quando o stresse é excessivo, não concluir um trabalho
importante, tornarem-se subitamente beligerantes quando desafiadas ou, pelo contrário,
provarem o que valem quando lhes são atribuídas responsabilidades. Com este
aspeto em mente, investigue um pouco o seu passado. Procure outras ações que
tenha observado e que encaixam neste padrão, agora em retrospetiva. Preste toda
a atenção ao que fazem no presente. Veja as suas ações não como Incidentes
isolados, mas como partes de um padrão compulsivo. Se ignorar este padrão, a
culpa será sua.
Nunca se deverá esquecer da lógica
primordial desta lei: as pessoas nunca fazem algo apenas uma vez. Podem tentar
desculpar-se, dizer que perderam a cabeça na altura, mas pode ter a certeza de
que irão repetir qualquer tolice que tenham feito noutra ocasião, impelidas
pela sua natureza e pelos seus hábitos. De facto, repetem com frequência ações
quando isso é completamente contra o seu interesse, revelando a natureza
compulsiva das suas fragilidades.
É difícil para nós acreditar que as
pessoas não conseguem controlar tendências que são tão autodestrutivas e
queremos dar-lhes o benefício da dúvida, como os romanos fizeram. Mas não
devemos esquecer as palavras sábias da Bíblia: «Como um cão que regressa ao seu
vómito, assim é um louco que repete o seu desvario.»
E possível detetar sinais
eloquentes da personalidade das pessoas na forma como lidam com as questões do
dia a dia. Se se atrasam na conclusão de tarefas simples ou se se atrasam em
projetos mais latos. Se ficam irritadas com pequenos inconvenientes, se tendem
a esmorecer perante os seus superiores. Se forem desleixadas em questões menos
importantes e desatentas aos pormenores, em breve o serão em aspetos mais
importantes. Veja como tratam os seus funcionários em cenários quotidianos e
verifique se existem discrepâncias entre a persona que apresentam e a sua
atitude face aos seus subalternos.
Na vida do dia a dia, as pessoas
muitas vezes conseguem disfarçar bem os seus defeitos, mas, em períodos de
stresse ou de crise, estes defeitos podem tornar-se subitamente muito visíveis.
As pessoas sob stresse perdem o autocontrolo habitual. Revelam as suas inseguranças
quanto à sua fama, o seu medo de falhar e uma falta de resistência interior.
Por outro lado, algumas pessoas permanecem altura da situação e revelam coragem
debaixo de fogo. Não há maneira de saber como irão reagir enquanto as
adversidades não o propiciarem, mas deve prestar toda a atenção a momentos como
estes.
Do mesmo modo, a forma como as
pessoas lidam com o poder e com a responsabilidade dir-lhe-á muito sobre elas.
Como Lincoln disse, «Se quiser
testar a personalidade de um homem, dê-lhe poder». A caminho de alcançarem esse
domínio, as pessoas tendem a desempenhar o papel do cortesão, a parecer
diferentes, a seguir a tendência geral, a fazer o que for necessário para
chegarem ao topo. Uma vez lá em cima, há menos limitações, e muitas vezes revelam
algo acerca de si próprias em que nunca se reparou. Algumas pessoas permanecem
fiéis aos valores que tinham antes de alcançarem uma posição cimeira —
mantêm-se respeitadoras e empáticas. Por outro lado, muito mais pessoas
sentem-se no direito de tratar os outros de forma diferente, agora que têm o
poder.
De modo geral, há sempre sinais
destes traços de personalidade no passado se observar com a atenção suficiente,
mas, mais importante, é preciso reparar naquilo que as pessoas revelam quando
estão no poder. Muitas vezes pensamos que o poder muda as pessoas, quando na
verdade simplesmente revela mais claramente o que estas são.
A escolha que as pessoas fazem de
um cônjuge ou companheiro diz muito acerca de si. Umas procuram um parceiro que
possam dominar e controlar, talvez alguém mais novo, menos inteligente ou
bem-sucedido. Algumas escolhem alguém que consigam salvar de uma situação
negativa, representando o papel do salvador, outra forma de controlo, outras
ainda procuram um companheiro que preencha o papel de mãe ou de pai. Querem ser
mimadas. Estas escolhas raramente são racionais; refletem os primeiros anos e
os esquemas de ligação das pessoas. Por vezes são surpreendentes, como quando
os indivíduos escolhem alguém que parece muito diferente e aparentemente
incompatível. No entanto, existe sempre uma lógica interna nestas decisões. Por
exemplo, imagine alguém que tem medo terrível de ser abandonado pelo ser amado,
o que reflete ansiedades que vêm da infância. Por esse motivo, escolhe um
companheiro que seja consideravelmente inferior em aspeto ou inteligência,
sabendo que essa pessoa se irá agarrar a si aconteça o que acontecer.
Outro campo a analisar é a forma
como as pessoas se comportam nos momentos em que não estão a trabalhar. Num
jogo ou numa atividade desportiva, podem revelar uma natureza competitiva que
não conseguem desligar. Têm medo de ser ultrapassadas em algum ponto,
inclusivamente quando conduzem um automóvel. Têm de ir sempre à frente dos
outros. Este aspeto pode ser canalizado funcionalmente para o trabalho, mas,
fora de horas de expediente, revela inseguranças profundas. Repare na forma
como as pessoas perdem, quando jogam. Conseguem fazê-lo de forma graciosa? A
sua linguagem corporal dirá muito acerca desse campo. Fazem os possíveis para contornar
as regras ou para as distorcer? Pretendem fugir e relaxar do trabalho ou
afirmar-se, inclusive nestes momentos?
De modo geral, as pessoas podem
dividir-se em introvertidas e extrovertidas, e este aspeto desempenha um
papel determinante na personalidade que desenvolvem. Os extrovertidos
geralmente regem-se por critérios exteriores. A questão que os domina é «O que
pensam os outros de mim?». Tendem a gostar do que as outras pessoas gostam, e
os grupos que frequentam muitas vezes condicionam as opiniões que defendem. São
abertos à sugestão e a novas ideias, mas apenas se forem populares na cultura
ou apresentados por uma autoridade que respeitem. Os extrovertidos valorizam
coisas exteriores - roupa de qualidade, refeições agradáveis, diversão concreta
partilhada com outros. Procuram sensações novas e inovadoras e têm faro para as
tendências. Não só se sentem à vontade com o barulho e com o alarido como os
procuram ativamente. Se forem ousados, gostam da aventura física. Se não forem
assim tão corajosos, gostam dos confortos materiais. Em qualquer circunstância,
anseiam por estimulação e atenção por parte de outros
Os introvertidos são mais sensíveis
e cansam-se mais facilmente com demasiada atividade exterior. Gostam de
conservar a energia, de passar tempo sozinhos ou com um ou dois amigos mais
chegados. Em oposição aos extrovertidos, que estão naturalmente fascinados por
factos e estatísticas, os introvertidos estão interessados nas suas próprias
opiniões e sentimentos. Gostam de pensar e de chegar as suas próprias ideias.
Se produzirem algo, não gostam de o promover; acham esse esforço de mau gosto.
O que fazem deveria vender-se por si. Gostam de manter uma parte da sua vida
isolada dos outros, de ter segredos. As suas opiniões não surgem a partir do que
os outros pensam ou de qualquer autoridade, mas dos seus critérios interiores
ou pelo menos é isso que pensam. Quanto maior for a multidão, mais perdidos e
sozinhos se sentem. Podem parecer pouco à vontade e desconfiados, incomodados
com a atenção que lhes é concedida. Também tendem a ser mais pessimistas e a
preocupar-se em geral mais do que os extrovertidos. A sua ousadia expressa-se
através das ideias inovadoras que têm e da sua criatividade.
Poderá detetar tendências nos dois
sentidos, nos indivíduos ou em si, mas em geral as pessoas pendem para um ou
para outro. E importante avaliar este aspeto nos seres humanos por um motivo
simples: os introvertidos e os extrovertidos não se compreendem naturalmente
uns aos outros. Para o extrovertido, o introvertido não tem graça, é teimoso e
até antissocial. Para o introvertido, o extrovertido é superficial, volúvel e,
de modo geral, preocupa-se com o que as pessoas pensam. Enquadrar-se numa ou
noutra categoria é normalmente algo que depende da genética e que fará duas
pessoas verem a mesma coisa sob uma luz totalmente diferente. Quando perceber
que está a lidar com alguém que se encaixa no outro tipo, deverá reavaliar a
sua personalidade e não impingir-lhe as suas próprias preferências. Ao mesmo
tempo, por vezes os introvertidos e os extrovertidos podem funcionar bem
juntos, especialmente se apresentarem uma combinação de ambas as
características e se complementarem, mas na maior parte dois casos não se dão
bem, e tende a haver desentendimentos constantes. Tenha em mente que em geral
há mais extrovertidos do que introvertidos no mundo.
Finalmente, é fundamental avaliar a
força relativa da personalidade das pessoas. Pense nisto desta forma: esta
força surge do mais fundo desse indivíduo. Pode ter origem numa mistura de
determinados fatores — genética, segurança transmitida pelos pais, bons
mentores pelo caminho e aperfeiçoamento constante. Seja qual for a causa, esta
força não é algo que se apresente exteriormente sob a forma de fanfarronice ou
de agressão, mas que se manifesta através de uma resistência e adaptabilidade
gerais. Uma personalidade forte tem uma natureza dúctil, como um bom metal —
pode ceder e dobrar, mas mantém a forma geral e nunca parte.
Essa força emana de uma sensação de
segurança pessoal e de valor próprio. Permite às pessoas aceitarem críticas e
aprenderem com as suas experiências.
Isto significa que não desistem tão
facilmente, visto que querem aprender a ser melhores. São rigorosamente
persistentes. As pessoas com personalidades fortes estão abertas a novas ideias
e formas de fazer as coisas sem comprometerem os Princípios básicos a que
aderem. Na adversidade, conseguem manter a presença de espírito. São capazes de
lidar com o caos e com o imprevisível sem sucumbirem à ansiedade. Cumprem a
palavra dada. Têm paciência, conseguem organizar muito material e concluir o
que determinaram. Não se sentindo permanentemente inseguras relativamente ao
seu estatuto, podem subordinar os seus interesses pessoais ao bem coletivo,
sabendo que o que resulta para a equipa acabará por lhes a vida e por a tornar
melhor.
As pessoas de personalidade fraca
começam na posição contrária. Sentem-se facilmente ultrapassadas pelas
circunstâncias, o que torna difícil confiar nelas. São escorregadias e
evasivas. Pior, não podem ser ensinadas, porque aprender com os outros implica
crítica. Isso significa que estará constantemente a chocar com uma parede
quando lida com elas. Podem parecer ouvir as suas indicações, mas regressam
simplesmente ao que pensam ser melhor.
Todos somos um misto de
características fortes e fracas, mas algumas pessoas tendem claramente para um
ou para outro sentido. Dentro do possível, irá desejar trabalhar e associar-se
a personalidades fortes e evitar as fracas. Foi esta a base para quase todas as
decisões de investimento de Warren Buffett. Este vê para lá dos números, olha
para os diretores-gerais com que terá de lidar, e aquilo que pretende avaliar
acima de tudo é a sua resiliência, a sua fiabilidade e a sua autoconfiança.
Deveríamos usar apenas estas medidas com as pessoas que contratamos, com os
sócios que aceitamos e até com os políticos que escolhemos.
Embora nos relacionamentos íntimos
haja decerto outros fatores que guiam as nossas escolhas, a força de caráter
também deveria ser considerada.
Ao avaliar os pontos fortes e
fracos, veja como as pessoas lidam com momentos stressantes e com a
responsabilidade. Observe os seus padrões: O que realmente concluíram ou
alcançaram? Também pode testar as pessoas. Por exemplo; uma piada bem-disposta
sobre a sua pessoa pode ser muito reveladora. Respondem com bons modos, com
menos à-vontade, enredando-se nas suas inseguranças os seus olhos lampejam de
ressentimento e até de raiva? Para avaliar a sua fiabilidade como elementos de
uma equipa, dê-lhes informação estratégica ou partilhe um boato com elas —
passam essa informação rapidamente a outros? Apoderam-se logo de uma das suas
ideias e apresentam-na como sua? Critique-as de uma forma direta. Levam-no a
peito e tentam aprender e melhorar ou revelam sinais evidentes de
ressentimento? Dê-lhes uma tarefa aberta com menos orientação do que o normal e
veja de que forma organizam os seus pensamentos e o seu tempo. Desafie-as com
uma tarefa difícil ou com uma forma nova de fazer alguma coisa e veja como
respondem, como lidam com a ansiedade.
Não se esqueça: uma personalidade fraca neutralizará todas as outras qualidades boas que alguém possua. Por exemplo, as pessoas de inteligência superior, mas de caráter fraco podem ter boas ideias e até desempenhar bem uma função, mas, ao mesmo tempo, desabar sob pressão, não aceitar críticas facilmente, pensar primeiro e acima de tudo nos seus próprios interesses ou revelar uma arrogância e qualidades tão desagradáveis que fazem que aqueles que as rodeiam se despeçam, prejudicando o ambiente geral. São os custos subjacentes de trabalhar com elas ou de as contratar. Alguém menos encantador e inteligente, mas de caráter forte revelar-se-á mais fiável e produtivo a longo prazo. As pessoas verdadeiramente fortes são tão raras como o ouro. Se as encontrar, deverá agir como se tivesse encontrado um tesouro.
Tipos
tóxicos
Embora a personalidade de cada
pessoa seja única, como uma impressão digital, podemos ver ao longo da história
alguns tipos que continuam a surgir e que podem ser de trato especialmente
pernicioso. Ao contrário das personalidades mais obviamente malévolas ou
manipuladoras que consegue detetar à distância, estes indivíduos são mais
complexos. Atraem-no muitas vezes com uma fragilidade aparente, apresentada
como algo positivo. Só com o tempo captará a natureza tóxica que se esconde por
detrás da sua fachada, muitas vezes quando já é demasiado tarde. A sua melhor
defesa é munir-se do conhecimento destes tipos, para identificar os sinais com
antecedência e não se chegar a envolver ou então libertar-se deles o mais
depressa possível.
O Hiperperfecionista: Sentir-se-á
atraído para o seu círculo pelo facto de trabalharem arduamente, pela sua
imensa dedicação em alcançar a excelência naquilo que produzem. Trabalham ainda
mais horas do que o mais fiel funcionário. Sim, podem explodir e gritar com os
seus subordinados por não terem realizado bem o seu trabalho, mas isso acontece
apenas porque querem manter os mais elevados níveis de qualidade, e isso
deveria ser positivo, mas, se tiver a infelicidade de aceitar trabalhar com uma
pessoa deste tipo ou mesmo para ela, lentamente descobrirá a realidade. Não
conseguem delegar tarefas, têm de controlar tudo. Este comportamento tem menos
a ver com padrões elevados e dedicação ao grupo do que com poder e controlo.
Estas pessoas sofrem muitas vezes
de problemas de dependência com origem antecedentes familiares, como acontecia
com Howard Hughes. Qualquer sensação de poderem ter de depender de alguém para
algo, abre velhas feridas e ansiedades. Não conseguem confiar em ninguém.
Quando viram as costas, imaginam que toda a gente os vai esfaquear. A sua
necessidade compulsiva de microgerir leva os seus colaboradores a sentirem-se
ressentidos e a resistirem secretamente, precisamente aquilo que mais receiam.
Não reparam que o grupo que lideram não está muito bem organizado, visto que
tudo tem de passar por eles. Isto leva ao caos e a conflitos políticos
internos, enquanto os cortesãos se digladiam para se aproximarem do rei, que
controla tudo. Os hiperfecionistas muitas vezes têm problemas de saúde, visto
que se matam a trabalhar. Gostam de culpar os outros por tudo o que corre mal —
ninguém está a trabalhar com suficiente afinco. Revelam padrões de sucesso
inicial seguidos de esgotamento e de fracassos espetaculares. É preferível
reconhecer estes indivíduos antes de se envolver com eles a qualquer nível. Não
se satisfazem com nada do que faça e corroem-no lentamente com as suas
ansiedades, de forma abusiva, desejando controlar.
O Rebelde Inflexível: À primeira vista, este tipo de pessoas pode parecer
bastante empolgante. Abominam a autoridade e gostam dos desfavorecidos. Quase
todos somos secretamente atraídos por tal atitude; apela ao adolescente que
existe dentro de nós, ao desejo de desprezar o professor. Estes indivíduos não
reconhecem regras ou precedentes. Seguir convenções é para os fracos e para os
que não têm imaginação. Têm com frequência um sentido de humor mordaz, que
podem canalizar para os outros, mas que faz parte da sua autenticidade, da sua
necessidade de destruir toda a gente, ou pelo menos é isso que o visado que
pensa. No entanto, se se associar a estas pessoas de uma forma mais próxima,
verá que se trata de algo que não conseguem controlar; é uma compulsão que as
leva a sentirem-se superiores, não uma característica moral superior.
Na sua infância, um progenitor ou
uma figura parental provavelmente desiludiu-os. Acabaram por desconfiar de
todos os que estavam no poder e por os odiar. Em suma, não conseguem aceitar
qualquer crítica por parte de outrem porque tresanda a autoridade. Nem sequer é
possível dizer-lhes o que fazer. Tudo deverá decorrer de acordo com as
condições que impõem. Se alguma vez uma destas pessoas se aborrecer consigo,
acabará pintado como o opressor e tornar-se-á o alvo do seu humor perverso. Ao
receber atenção com esta postura rebelde, estes indivíduos tornam-se
rapidamente dependentes dela. Afinal, tudo tem a ver com poder — ninguém ficará
acima deles, e quem se atrever pagará o preço. Analise a sua história passada —
tendem a afastar-se de toda a gente em muito maus termos, situação que piora
com os seus insultos. Não se deixe seduzir pela sua atitude rebelde. Estes
tipos estão eternamente fechados na adolescência, e tentar trabalhar com eles
será tão produtivo como argumentar com um adolescente antissocial.
O Personalizador:
Estas pessoas parecem muito sensíveis e atenciosas, uma qualidade rara e
agradável. Podem parecer um pouco tristes, mas, afinal, as pessoas sensíveis
podem conhecer dificuldades na vida. Somos muitas vezes atraídos por este seu
ar e queremos ajudar. Também podem parecer bastante inteligentes, ponderadas e
bons elementos com quem trabalhar. Aquilo que mais tarde acabará por perceber é
que a sua sensibilidade, na verdade, tem um só sentido — para dentro. Tendem a
levar a peito tudo o que as pessoas dizem ou fazem. É normal ficarem a matutar
nas coisas durante dias, muito depois de toda a gente já se ter esquecido de um
comentário inócuo que elas encararam como pessoal. Em criança, tinham a sensação
permanente de nunca receber o suficiente dos pais amor, atenção, bens
materiais. Depois de crescerem, tudo tende a lembrá-las do que não receberam.
Passam a vida torturadas com este pensamento e a desejar que os outros lhes
deem coisas sem as terem pedido. Estão sempre vigilantes — o outro estará a
dar-lhes atenção, a respeitá-las, a dar-lhes aquilo por que pagaram? Sendo um
pouco irritáveis e suscetíveis, afastam inevitavelmente as pessoas, o que as
deixa ainda mais sensíveis. A dada altura, começam a parecer eternamente
dececionadas. Detetará na sua vida um padrão de muitos desentendimentos com os
outros, mas considerar-se-ão sempre como o lado injustiçado. Não insulte
inadvertidamente uma pessoa que se enquadre neste tipo. Têm uma excelente
memória e podem passar anos a vingar-se. Se conseguir reconhecer estes
indivíduos com antecedência, é preferível evitá-lo, visto que inevitavelmente o
farão sentir-se culpado de alguma coisa.
O Íman Dramático:
Irão atraí-lo com a sua presença empolgante. Têm uma energia invulgar e
histórias para contar. As suas feições são animadas, e podem ser bastante
espirituosos. E divertido estar com eles, até que o drama rebenta. Na infância,
aprenderam que a única maneira de obter amor e atenção duradouros era envolver
os pais nas suas confusões e problemas, algo que tinha de ser suficientemente
lato para enredar os pais emocionalmente, ao longo do tempo. Tornou-se um
hábito, a sua forma de se sentirem vivos e desejados. A maior parte das pessoas
evita qualquer tipo de confronto, mas estas pessoas parecem viver para isso. A
medida que as conhece melhor, ouvirá mais histórias de conflitos e discussões
nas suas vidas, mas conseguem sempre assumir o papel de vítimas.
Deverá perceber que a sua maior
necessidade é agarrá-lo, seja lá como for. Irão envolvê-lo nos seus dramas ao
ponto de se sentir culpado por se querer libertar. E preferível detetar estas
pessoas o mais depressa possível, antes de se deixar enredar e de ser
arrastado. Estude o seu passado procurando sinais deste padrão e fuja se
desconfiar de que está a lidar com alguém deste tipo.
O Grande Falador: Qualquer um se deixa impressionar
pelas suas ideias, pelos projetos em que estão a matutar. Precisam de ajuda,
precisam de apoiantes interlocutor mostra-se compreensivo. Mas recue por um
instante e analise registo de realizações anteriores ou de algo tangível.
Poderá estar a lidar tipo que não é claramente perigoso, mas que se pode
revelar exasperante e perda do seu precioso tempo. Essencialmente, estas
pessoas são ambivalentes. p um lado, têm secretamente medo do esforço e da
responsabilidade decorrentes do facto de as suas ideias se traduzirem em ações.
Por outro lado, anseiam por atenção e poder. Os dois lados digladiam-se, mas a
parte ansiosa inevitavelmente ganha e no último instante acabam por se afastar.
Arranjam uma maneira qualquer de desistir, depois de se ter comprometido com
elas. Elas próprias nunca concluem nada. Por fim, tendem a culpar os outros por
não concretizarem as suas visões sociedade, forças antagónicas pouco claras ou
azar. Ou então tentam arranjar um lorpa que cumpra todo o trabalho de sapa de
fazer florescer essa sua ideia vaga, mas que assuma a responsabilidade, se tudo
correr mal.
E comum estas pessoas terem tido
progenitores incoerentes, que se viravam contra elas à menor má ação.
Consequentemente, o seu objetivo na vida é evitar situações em que possam ficar
sujeitos a críticas e juízos de valor. Lidam com isto aprendendo a falar bem e
impressionando as pessoas com histórias, mas fugindo quando chamadas a prestar
contas, sempre com uma desculpa. Procure exaustivamente sinais destes traços no
seu passado e, se lhe parecerem encaixar-se neste tipo, divirta-se com as suas
histórias, mas não vá mais longe.
O Sexualizador:
Parecem carregados de energia sexual, de uma forma refrescantemente
irreprimida. Têm tendência para misturar trabalho com prazer, de modo a esbater
as fronteiras habituais de quando é adequado usar esta energia, e poderá pensar
que se trata de algo saudável e natural. Mas, na verdade, é compulsivo e tem
uma origem obscura. Nos seus primeiros anos de vida, estas pessoas
provavelmente sofreram abusos sexuais de alguma espécie. Pode ter-se tratado de
algo diretamente físico ou de um episódio mais psicológico, que o progenitor
tenha expressado através de olhares e de toques subtis, mas impróprios.
Cria-se um padrão profundo, vindo
do interior, que não pode ser controlado — estes indivíduos tendem a ver todas
as relações como potencialmente sexuais O sexo torna-se uma forma de
autovalidaçào, e, quando são novos, podem levar uma vida empolgante e
promíscua, tendendo encontrar pessoas que caiam nas suas boas graças. Mas à
medida que envelhecem, períodos longos sem este reconhecimento podem conduzir a
depressão e suicídio, por isso entram em desespero
Se ocupam posições de liderança,
usam o seu poder para obter o que desejam, tudo a pretexto de parecerem
naturais e descontraídos. A medida que envelhecem, é algo que se torna mais
patético e assustador. Não os podemos ajudar ou salvar da sua compulsão, apenas
evitar deixarmo-nos enredar por eles a qualquer nível.
O/A Príncipe/Princesa Mimado/a: Irão atraí-lo com o seu ar
majestático. São calmos e parecem ligeiramente imbuídos de um sentimento de
superioridade. E agradável conhecer pessoas que parecem confiantes e destinadas
a usar uma coroa. Lentamente, poderá dar consigo a fazer-lhes favores, a
trabalhar mais horas sem ser remunerado por isso e sem compreender realmente
como ou porquê. De alguma forma, expressam a necessidade de que os outros tomem
conta deles e são especialistas em fazer que estes os apapariquem. Na infância,
os pais satisfaziam-lhes os menores caprichos e protegiam-nos de qualquer tipo
de intrusão mais desagradável do mundo exterior. Também há crianças que incitam
este comportamento nos pais mostrando-se especialmente impotentes. Seja qual
for a causa, em adultos, o seu maior desejo é reproduzir este mimo obtido em
tenra idade. A infância permanece como o seu paraíso perdido. Irá verificar
muitas vezes que, quando não conseguem o que querem, apresentam um
comportamento de bebé ou chegam a fazer birras.
É, de facto, este o padrão para
todos os seus relacionamentos íntimos, e, a menos que sinta uma necessidade
profunda de mimar outras pessoas, considerará este tipo de relacionamento
desesperante, sempre definido nas suas condições. Não estão equipados para
lidar com os aspetos duros da vida adulta, logo, ou manipulam alguém de forma a
interpretar o papel daquele que mima ou recorrem à bebida e às drogas para
obter alívio. Se se sentir culpado por não os ajudar, isso significa que já o
agarraram e que deveria, em vez disso, tomar conta de si.
O Bajulador:
Nunca conheceu alguém tão simpático e atencioso. Parece mentira quão
obsequiosos e encantadores estes indivíduos podem ser. Então, começa lentamente
a ficar com algumas dúvidas, mas nada que consiga identificar claramente.
Talvez não apareçam, como prometeram, ou não sejam assim tão bons
profissionais. Trata-se de algo subtil. No entanto, quanto mais avança no
relacionamento, mais parece que estes bajuladores o estão a sabotar ou a falar
nas suas costas. Trata-se de cortesãos consumados e desenvolveram a sua
simpatia, não devido a um afeto genuíno pelos seus pares, mas como mecanismo de
defesa. Talvez tenham tido progenitores duros e castigadores que perscrutavam
todas as suas ações. Sorrisos e uma fachada deferente passaram a constituir a
sua forma de defletir qualquer tipo de hostilidade, transformando-se no seu
padrão existencial. Provavelmente também recorreram à mentira com os pais e de
modo geral são mentirosos bem treinados e experientes.
Como quando eram crianças, por
detrás dos sorrisos e da bajulação encontra-se um grande ressentimento face ao
papel que têm de interpretar. Anseiam secretamente por lesar ou roubar a pessoa
a quem prestam serviço ou perante qual se humilham. Deverá manter-se muito
atento com pessoas que manifestam este encanto e esta delicadeza de forma tão
ativa, para lá do ponto em que parecem naturais. Podem acabar por se tornar
passivo-agressivas, atingindo-o especialmente, se baixar a guarda.
O Salvador:
Nem quer acreditar na sua sorte! Conheceu alguém que o vai salvar de todas as
suas dificuldades e problemas. De alguma forma, estas pessoas reconheceram a
sua necessidade de ajuda e ali estão, com livros para ler, estratégias a
aplicar, os alimentos certos para consumir. De início, é tudo bastante sedutor,
mas as suas dúvidas começam no momento em que deseja afirmar a sua
independência e fazer as coisas à sua maneira.
Na infância, estes tipos muitas
vezes tiveram de assumir o papel de cuidadores da própria mãe, pai ou irmãos. A
mãe, por exemplo, fez das suas próprias necessidades a principal preocupação da
família. Estas crianças compensam a falta de atenção e cuidados com a sensação
de poder que retiram de uma relação invertida. É algo que passa a definir um
padrão: a sua maior satisfação é salvarem os outros, serem o cuidador e o
salvador. Têm faro para quem possa precisar de salvação. No entanto, é possível
detetar o aspeto compulsivo deste comportamento na sua necessidade de o
controlarem. Se estiverem dispostos a deixá-lo desenvencilhar-se sozinho depois
de alguma ajuda inicial, são verdadeiramente nobres. Caso contrário, tudo tem
na verdade a ver com o poder que conseguem exercer. Em qualquer evento, é
sempre melhor cultivar a autoconfiança e dizer aos salvadores que se salvem a
si mesmos.
O Moralizador Fácil: Transmitem uma sensação de indignação face à menor
injustiça e são bastante eloquentes. Com tal convicção, encontram seguidores,
entre os quais o leitor. Mas por vezes irá detetar fendas na sua máscara de
retidão. Não tratam os funcionários assim tão bem; são condescendentes com o
cônjuge; podem ter uma vida ou um vício secreto, de que capta vislumbres. Na
infância muitas vezes faziam-nos sentir culpados dos seus impulsos e desejos
intensos de prazer. Eram castigados e tentavam reprimir estes impulsos. Por
esse motivo desenvolvem alguma aversão face a si mesmos e são rápidos a
projetar características negativas nos outros e a olhar com inveja para pessoas
que são menos reprimidas. Não gostam de que as outras pessoas se divirtam. Em
vez de expressarem a sua inveja, preferem julgar e condenar. Detetará, na
versão adulta, uma ausência total de matizes. As pessoas são boas ou más, não
há meio-termo. Na verdade, estes indivíduos encontram-se em guerra com a
natureza humana, incapazes de aceitar os seus traços mais imperfeitos. A sua
moralidade é tão fácil e compulsiva beber ou jogar e não exige sacrifícios da
sua parte, apenas uma série de palavras nobres. Florescem numa cultura de
correção política.
Na verdade, são secretamente
atraídos por aquilo que condenam, motivo pelo qual terão inevitavelmente um
lado secreto. A dada altura, irá decerto ser o alvo da sua inquirição, se se
aproximar demasiado deles. Identifique rapidamente a sua falta de empatia e mantenha
a distância.
A
personalidade superior
Esta lei é simples e inexorável:
tem uma personalidade definida. Foi formada a partir de elementos que antecedem
a nossa consciência. De dentro de si, esta personalidade obriga-o a repetir
certas ações, estratégias e decisões. O cérebro é estruturado para o facilitar:
quando pensa e pratica uma ação específica, forma-se um caminho neuronal que o
leva a fazê-la repetidamente. E, em relação a esta lei, pode ir numa de duas
direções, com cada uma delas a determinar mais ou menos o curso da sua vida.
A primeira direção é a ignorância e
a negação. O indivíduo não repara nos padrões da sua vida; não aceita a ideia
de que os seus primeiros anos deixaram uma marca profunda e duradoura que o
obriga a comportar-se de determinadas maneiras. Imagina que a sua personalidade
é completamente plástica e que se pode recriar ao seu bel-prazer. Pode seguir o
mesmo caminho que qualquer outra pessoa rumo ao poder e à fama, mesmo que estas
surjam a partir de circunstâncias muito diferentes. A ideia de uma
personalidade definida pode parecer uma prisão, e muitas pessoas desejam
secretamente sair de si, através de drogas, de álcool ou de jogos de vídeo. O
resultado desta negação é simples: o comportamento compulsivo e os padrões
tornam-se ainda mais definidos. Não pode afastar-se da sua natureza ou desejar
que esta seja de outra maneira. E demasiado forte.
Foi precisamente este o problema de
Howard Hughes. Imaginou-se um grande homem de negócios, a construir um império
capaz de ultrapassar o do pai. Mas, pela sua natureza, não era um bom gestor de
pessoas. O seu verdadeiro ponto forte era mais técnico -— tinha uma grande
perceção dos aspetos da conceção e da engenharia da produção de aviões. Se o
soubesse e tivesse aceitado, poderia ter desenvolvido uma carreira brilhante
como visionário à frente da sua própria empresa de aeronáutica e deixado as
operações quotidianas para alguém mais capaz. Mas viveu com uma imagem de si
que não se adequava à sua personalidade. Isto levou a um padrão de fracasso e a
uma vida muito infeliz.
O Outro sentido é mais difícil de
tomar, mas é o único caminho que conduz ao verdadeiro poder e à formação de uma
personalidade superior. Funciona da seguinte forma: o indivíduo analisa-se o
mais minuciosamente possível. as camadas mais profundas da sua personalidade,
apurando se é introvertido extrovertido, se tende a ser dominado por elevados
níveis de ansiedade e sensibilidade, pela hostilidade e pela raiva ou se por
uma profunda necessidade de se envolver com pessoas. Observa as suas tendências
primordiais — os temas e atividades por que normalmente se sente atraído.
Analisa a qualidade das ligações que estabeleceu com os pais, observando os
atuais relacionamentos como o melhor sinal deste aspeto. Analisa com uma
sinceridade irrepreensível os seus próprios erros e os padrões que o limitam
permanentemente. Conhece as suas limitações as situações em que não se encontra
ao seu melhor nível. Também toma consciência dos pontos fortes naturais da sua
personalidade que sobreviveram à adolescência.
Então, com esta consciência, deixa
de ser refém da sua personalidade, obrigado a repetir interminavelmente as
mesmas estratégias e erros. Quando se vê cair num dos seus padrões habituais,
pode parar a tempo e recuar. Poderá não ser capaz de eliminar completamente
esses padrões, mas, com treino, conseguira mitigar os seus efeitos. Conhecendo
as próprias limitações, não tentará controlar coisas para as quais não tem
capacidade ou inclinação. Em vez disso, escolherá rumos profissionais que se
adequem à sua pessoa e que combinem com o seu temperamento. De modo geral,
aceita plenamente o seu caráter. O seu desejo não é tornar-se outra pessoa, mas
ser mais genuinamente quem é, apercebendo-se do seu verdadeiro potencial.
Considera a sua personalidade como o barro com que trabalha, transformando
lentamente todas as suas fragilidades em pontos fortes. Não foge dos seus
defeitos, considera-os antes uma verdadeira fonte de poder.
Pense na carreira da atriz Joan
Crawford (1908—1977). Os seus primeiros anos poderiam tê-la marcado como alguém
que muito dificilmente vingaria na vida. Nunca chegou a conhecer o pai, que
abandonou a família pouco depois do seu nascimento. Cresceu rodeada de pobreza.
A mãe tinha uma aversão profunda por Joan e batia-lhe constantemente. Em
criança, soube que o padrasto, que adorava, na verdade não era seu pai, e pouco
depois também ele abandonou a família. A sua infância foi uma interminável
série de castigos, traições e abandonos, que a marcaram para o resto da vida.
Quando começou a sua carreira como atriz de cinema, em muito tenra idade,
analisou-se a si e aos seus defeitos com uma objetividade impiedosa: era
hipersensível e frágil; tinha muita dor e tristeza de que se conseguia libertar
ou que era incapaz de disfarçar; queria desesperadamente ser amada; precisava
constantemente de uma figura paterna.
Inseguranças como estas podiam
facilmente ser a morte de alguém num lugar tão impiedoso como Hollywood. Em vez
disso, através de uma imensa introspeção e trabalho, Joan conseguiu transformar
essas mesmas fragilidades em pilares da sua carreira altamente bem-sucedida.
Decidiu, por exemplo, transportar todos os Seus sentimentos de tristeza e
traição para os vários papéis que interpretou, permitindo que mulheres de todo
mundo se identificassem com ela; era diferente de muitas das outras atrizes,
falsamente alegres e superficiais, direcionou a sua necessidade desesperada de
ser amada para a própria câmara, e o público sentia-o. Os realizadores
cinematográficos tornaram-se figuras paternais que ela adorava e tratava com
extremo respeito. E canalizou a sua qualidade mais destacada, a sua
hipersensibilidade, para fora, em vez de para dentro. Desenvolveu antenas
profundamente sintonizadas com o gosto e com o desagrado dos realizadores com
quem trabalhou. Sem olhar para eles ou ouvir uma palavra que dissessem,
conseguia percecionar o seu descontentamento face à sua interpretação, fazer as
perguntas certas e assimilar rapidamente as suas críticas. Era o sonho de
qualquer realizador. Aliava tudo isto à sua imensa força de vontade,
desenvolvendo uma carreira que se prolongou durante mais de quarenta anos, algo
inédito para uma atriz em Hollywood.
E esta alquimia que deverá usar na
sua pessoa. Se for um hiperperfecionista que gosta de controlar tudo, pode
redirecionar esta energia para um trabalho produtivo, em vez de a usar nas
pessoas. A sua atenção aos pormenores e padrões elevados é algo positivo, se o
canalizar devidamente. Se for um bajulador, desenvolveu competências de
cortesão e uma verdadeira capacidade de sedução. Se conseguir identificar a
fonte deste traço, poderá controlar o aspeto compulsivo e defensivo do mesmo e
usá-lo como competência social genuína que lhe pode trazer muito poder. Se for
altamente sensível e propenso a levar as coisas a peito, pode trabalhar no
sentido de redirecionar este aspeto para uma empatia e transformar este defeito
numa mais-valia para usar em objetivos sociais positivos. Se possui um
temperamento rebelde, sentirá uma aversão natural por convenções e pelas
maneiras habituais de fazer as coisas. Canalize-o para um tipo de trabalho
Inovador, em vez de insultar e alienar compulsivamente as pessoas. Cada ponto
fraco tem um ponto forte correspondente.
Finalmente, também deverá apurar ou
cultivar os traços que acompanham uma personalidade forte - resistência sob
pressão, atenção aos pormenores, capacidade de concluir coisas, trabalho em
equipa, tolerância face às diferenças entre as pessoas. A única maneira de o
fazer é trabalhar os seus hábitos, que contribuem lentamente para a formação da
sua personalidade. Por exemplo, treinar-se para não reagir de forma imediata
colocando-se repetidamente em situações stressantes Ou adversas de modo a
habituar-se a elas. Em tarefas rotineiras e aborrecidas, procure cultivar mais
paciência e atenção ao pormenor. Aceite deliberadamente tarefas ligeiramente
acima das suas capacidades ou nível. Para as realizar, terá de se esforçar
mais, o que o ajudará a desenvolver mais disciplina e melhores hábitos de
trabalho. Treine-se a pensar constantemente no que é melhor para a equipa.
Procure igualmente outras pessoas que apresentem uma personalidade forte e
associe-se a elas o mais possível. Desta forma, pode assimilar a sua energia e
os seus hábitos. E, para desenvolver alguma flexibilidade de caráter, sempre um
sinal de força, tente exceder-se de vez em quando, experimentando uma nova
estratégia ou maneira de pensar ou fazendo o contrário do que normalmente
faria.
Com todo este trabalho, deixará de
ser escravo da personalidade criada pelos seus primeiros anos de vida e do
comportamento compulsivo a que esta conduz. Mais ainda, poderá agora moldar
ativamente a sua própria personalidade e o destino que a acompanha.