# 17 Lei da Miopia Geracional – 17/18 Robert Greene

 



Nasceu numa geração que define quem é, mais do que pode imaginar. A sua geração procura afastar-se da anterior e definir uma nova voz para o mundo. Entretanto, contacta com determinados gostos, valores e modos de pensar que, enquanto indivíduo, interioriza. A medida que envelhece, estes valores e ideias geracionais tendem a fechá-lo em relação a outros pontos de vista, limitando a sua mente. A sua missão é compreender o mais profundamente possível esta influência poderosa sobre a pessoa que é e como encara o mundo. Ao conhecer profundamente o espírito da sua geração e a época em que vive, ficará mais apto a explorar o zeitgeist. Antecipará e definirá as tendências por que a sua geração anseia. Libertará a mente das limitações mentais que lhe foram impostas pelo tempo que lhe coube viver e tornar-se-á mais o indivíduo que imagina ser, com todo o poder que essa liberdade lhe irá conferir.

 

 

 

 

Interpretação história Luís XVI: Vamos espreitar por instantes o mundo pré-revolucionário francês através dos olhos do rei Luís XVI. Grande parte do que ele via parecia ser a mesma realidade que reis anteriores haviam enfrentado. O rei ainda era considerado o governante absoluto de França, nomeado por ordem divina para conduzir a nação. As várias classes e estados em França permaneciam bastante estáveis; as distinções entre a nobreza, o clero e o resto do povo francês ainda eram amplamente respeitadas. Os plebeus gozavam de uma prosperidade relativa que o próprio Luís herdara da avó.

Sim, havia problemas financeiros, mas o grande Luís XIV em pessoa enfrentara essas crises, e estas haviam passado. Versalhes ainda era a joia reluzente da Europa, o centro de tudo o que era civilizado. A amada esposa de Luís, Maria Antonieta, dava as festas mais espetaculares, que faziam a inveja de todos os aristocratas europeus. O próprio Luís não dava grande importância a tais divertimentos, mas tinha as suas caçadas e os outros passatempos pedestres, que o obcecavam.

A vida no palácio era bastante amena e relativamente tranquila. O mais importante para Luís, a glória e a majestade de França, como se manifestava nas suas cerimónias e símbolos visuais, ainda tinha o mesmo peso de antes. Quem não ficaria impressionado com os esplendores de Versalhes em si ou com os rituais da Igreja Católica? Luís XVI era o governante de uma grande nação, e não havia motivos para acreditar que a monarquia não continuaria por tantos mais séculos quantos os que já havia durado.

No entanto, sob a superfície, havia alguns sinais perturbadores de descontentamento. Ainda durante o reinado de Luís XV, escritores como Voltaire e Diderot começaram a ridicularizar a Igreja e a monarquia por todas as suas crenças retrógradas e supersticiosas. Refletiam um novo espírito científico que se espalhava por toda a Europa, e era difícil conciliar este aspeto com muitas das práticas da Igreja e da nobreza. As suas ideias ficaram conhecidas como Iluminismo e começaram a ganhar influência entre a classe média, em expansão, que se sentira excluída do poder e não estava tão mergulhada em todo o simbolismo da monarquia.

Por detrás da fachada aparentemente tranquila da nobreza, havia algumas fendas. Muitos aristocratas acabaram por detestar o poder absoluto do rei, que encaravam como fraco e não merecedor do seu respeito. Ansiavam por mais poder para si.

As sociedades secretas floresciam por todo o lado, promovendo uma forma totalmente nova de socializar, muito afastada do ambiente sufocante da corte. A mais destacada era a dos mações, com as suas lojas e rituais secretos próprios. O próprio Danton era membro. As lojas dos mações eram focos de descontentamento com a monarquia, sendo os seus membros extremamente permeáveis às ideias do Iluminismo. Ansiavam por uma nova ordem em França. Em Paris, o teatro tornara-se subitamente o lugar mais popular a frequentar e onde ser visto, muito mais do que a igreja. Mas agora representavam-se peças que faziam troça da monarquia da forma mais descarada.

E todos os símbolos e cerimónias majestáticos da monarquia que permaneciam relativamente imutáveis começavam a parecer bastante vazios, máscaras sem nada por detrás. Os cortesãos já não compreendiam realmente o que estavam a fazer ou porquê, quando participavam nos seus rituais elaborados na companhia do rei. Os quadros, estátuas e fontes ornamentados com figuras mitológicas eram tão belos como sempre, mas eram simplesmente encarados como peças de arte superficiais, não como indicadores de uma ligação profunda com o passado glorioso de França.

Todos estes sinais eram subtis e díspares. Era difícil ligá-los a todos a uma tendência específica, quanto mais a uma revolução. Passariam por novidades, novos entreténs de uma nação entediada, sem significado subjacente. Mas então a crise piorou, no fim da década de oitenta do século XVIII, e subitamente estes exemplos de desencanto desconexos começaram a combinar-se numa força inegável. O preço do pão subira, bem como o custo de vida, para todos os súbditos franceses. A medida que o descontentamento se espalhava, a nobreza e a burguesia captavam a fragilidade do rei e exigiam mais poder.

Agora o rei não podia ignorar o que se estava a passar, e nos Estados Gerais a perda de respeito e o descontentamento era demasiado visível para ele no comportamento do Terceiro Estado. No entanto, Luís só conseguia observar estes acontecimentos pela ótica da monarquia divina que herdara e à qual se agarrara tão desesperadamente. Os súbditos franceses que desrespeitavam e desobedeciam ao seu governo absoluto tinham de ser indivíduos ímpios e apenas uma minoria barulhenta. Desobedecer à sua palavra era o equivalente a sacrilégio. Se essas pessoas não pudessem ser persuadidas pelos símbolos do passado glorioso, teria de usar a força para que o passado e as tradições prevalecessem. Mas quando algo perdeu o seu encanto e já não exerce fascínio não há força que o possa devolver à vida. E, enquanto era transportado naquela carruagem, em outubro de 1789, que o afastaria para sempre de Versalhes e do passado, via apenas pessoas que não eram os seus súbditos, mas estranhos. Tinha de incluir Danton nesse grupo. Na sua execução, dirigiu-se à multidão como se ainda fosse o rei, perdoando-lhe os pecados. Em vez disso, a multidão viu apenas um ser humano, despojado de toda a glória anterior, não melhor do que eles próprios.

Quando Georges-Jacques Danton olhou para o mesmo mundo que o rei, viu algo bastante diferente. Ao contrário do rei, não era tímido ou inseguro, mas o oposto. Não sentia uma necessidade interior de confiar no passado que o estimulasse. Fora educado por padres liberais que lhe haviam instilado as ideias do Iluminismo. E, aos quinze anos de idade, na coroação, tivera uma visão fugaz do futuro, intuindo por um momento quão vazia a monarquia e os seus símbolos se haviam tornado e que o rei era apenas um homem comum.

Nos anos oitenta do século XVIII, começou a detetar sinais díspares de mudança — de dentro do Conselho do Rei e do desrespeito crescente entre a classe dos advogados, até aos clubes e à vida das ruas, onde se podia sentir um novo espírito. Captava o sofrimento das classes mais baixas e compadecia-se do seu sentido de exclusão. E este novo espírito não era simplesmente político, mas também cultural. A juventude da geração de Danton fartara-se de todo o formalismo vazio da cultura francesa. Ansiava por algo mais livre e espontâneo. Queria expressar as suas emoções de forma aberta e natural. Desejava libertar-se de toda a indumentária e penteados elaborados e usar roupas mais desimpedidas, com menos ostentação. Procurava uma socialização mais aberta, o convívio aberto de todas as classes, como acontecia nos clubes de Paris.

Poderíamos chamar a este movimento cultural a primeira explosão verdadeira do romantismo, valorizando as emoções e as sensações acima do intelecto e do formalismo.

Danton ilustrava e compreendia em simultâneo este espírito romântico. Foi um homem que sempre usou o coração e cujos discursos pareciam uma efusão espontâneas de ideias e de emoções. O ato de desenterrar a mulher equivaleu a algo típico da literatura romântica, uma expressão de emoção inimaginável cerca de dez anos antes. Esta vertente de Danton foi o que permitiu ao público identificar-se tanto com ele e sentir-se tão atraído pela sua pessoa.

De uma forma que o tornava bastante único, Danton era capaz, antes de qualquer outra pessoa, de ligar os sentidos por detrás de todos estes sinais e de divisar uma revolução maciça em preparação. Na qualidade de nadador inveterado, comparava tudo isto a uma maré num rio. Nada na vida humana é estático. Há sempre descontentamento sob a superfície e sede de mudança. Por vezes trata-se de algo bastante subtil, e o rio parece plácido, mas continua em movimento. Outras vezes, é como um afluxo, uma enchente que ninguém, nem mesmo um rei com poderes absolutos, pode conter.

Onde é que esta maré levaria os franceses? Era essa a questão fundamental. Para Danton, tornou-se rapidamente claro que a maré se encaminhava para a formação de uma república. A monarquia era agora apenas uma fachada. A sua exibição de majestade já não agitava as massas. Estas viam agora que as ações do rei pretendiam simplesmente manter o poder; viam a aristocracia como um bando de ladrões, que trabalhava pouco e consumia toda a riqueza de França. Com tais níveis de desencanto, não poderia haver volta atrás, não haveria meias-tintas, nenhuma monarquia constitucional.

Como parte da sua invulgar perspicácia e sensibilidade ao espírito do tempo, antes de quaisquer outros líderes revolucionários, Danton compreendeu que o Terror que desencadeara fora um erro e que estava na altura de lhe pôr fim. Apenas neste aspeto, não teve o melhor sentido de oportunidade, visto que agiu em função desta intuição pelo menos vários meses antes do público, permitindo aos seus inimigos e rivais livrarem-se dele.

Compreender: Poderá ver o rei Luís XVI como um exemplo extremo de alguém não sintonizado com a sua época, algo que não parece especialmente relevante para a sua vida, mas que, na verdade, está muito mais próximo do que pensa. Tal como ele, provavelmente estará a olhar para o presente através das lentes do passado quando observa o mundo que o rodeia, este parece-se bastante com o que era há um dia, há uma semana, há um mês ou mesmo há um ano. As pessoas agem mais ou menos da mesma forma. As instituições que detêm o poder permanecem e não vão a lado nenhum. O modo de pensar das pessoas na verdade não mudou. as convenções que regem o comportamento no nosso campo ainda são seguidas religiosamente. Sim, pode haver alguns estilos e tendências novos na cultura, mas não são fatores determinantes ou sinais de uma mudança profunda. Tranquilizado por esta aparência, parece-lhe que a vida simplesmente continua como sempre.

No entanto, sob a superfície, a maré encontra-se em movimento; nada na cultura humana permanece fixo. Os que são mais novos do que os leitores já não têm o mesmo respeito por certos valores ou instituições. A dinâmica do poder - entre classes, regiões, indústrias encontra-se num estado de fluxo. As pessoas começam a socializar e a interagir de formas novas. Desenvolvem-se novos símbolos e mitos, e outros, velhos, esbatem-se. Tudo isto pode parecer bastante desligado até surgir alguma crise ou choque e as pessoas terem de enfrentar o que parecia invisível ou distante, sob a forma de uma revolução ou de um desejo de mudança.

Quando isto acontece, algumas pessoas irão sentir-se, como o rei, profundamente desconfortáveis e agarrar-se-ão ainda mais ao passado. Unir-se-ão para tentar impedir que a maré avance, uma tarefa inútil. Os líderes sentir-se-ão ameaçados e aferrar-se-ão mais intensamente às suas ideias convencionais. Outros serão arrastados sem realmente compreenderem onde tudo irá parar ou por que motivo as coisas estão a mudar.

Deverá procurar o poder que Danton possuía de compreender tudo e agir em consonância. Este poder é uma função da visão, de olhar para os acontecimentos sob um prisma diferente, através de um enquadramento novo. Ignore as interpretações preconcebidas que os outros inevitavelmente lançarão quando enfrentam mudanças. Abandone os hábitos mentais e as formas passadas de olhar para as coisas que possam toldar-lhe a visão. Pare com a tendência para moralizar, para julgar o que está a acontecer. Veja as coisas simplesmente como são. Procure as correntes subjacentes de descontentamento e em desarmonia com o status quo, que se encontram sempre sob a superfície. Veja as semelhanças e as ligações entre todos estes sinais. Lentamente, a corrente, a própria maré, destaca-se, indicando um caminho, uma direção oculta para muitas outras pessoas.

Não pense nisto como um exercício intelectual. Os intelectuais são muitas vezes os últimos a discernir realmente o espírito dos tempos, por estarem tão enraizados em teorias e enquadramentos convencionais. Em primeiro lugar e acima de tudo, terá de ser capaz de sentir a mudança no estado de espírito convencional, de sentir que as pessoas divergem do passado. Quando sentir o espírito, pode começar a analisar o que está por detrás dele. Porque estão as pessoas insatisfeitas e por que anseiam realmente? Porque gravitam em torno destes novos estilos? Observe os ídolos do passado que perderam encanto, que parecem ridículos, que são alvo de troça, especialmente entre os jovens. São como a carruagem de Luís. Quando detectar esse desencanto, pode ter a certeza de que algo forte está a fermentar.

Quando tiver uma noção adequada do que realmente está a acontecer, deverá ser ousado na forma como responde, dando voz ao que outras pessoas estão a sentir, mas não compreendem. Tenha o cuidado de não se adiantar demasiado e de ser mal interpretado. Se se mantiver sempre alerta, libertando-se das suas anteriores interpretações, pode aproveitar as oportunidades no momento que os outros nem conseguirão sequer detectar. Pense em si como um inimigo do status quo, cujos defensores o deverão, em contrapartida, encarar como perigoso. Encare esta missão como absolutamente necessária para a revitalização do espírito e da cultura humanos, em geral, e domine-a.

 

A nossa época é um tempo de nascimento, um período de transição. O espírito do homem quebrou-se com a velha ordem das coisas [...] e com a velha forma de pensar, e cabe à mente deixá-los a todos afundarem-se nas profundezas do passado e definirem a sua própria transformação [...] A frivolidade e o tédio que perturbam a ordem estabelecida, o vago pressentimento de algo desconhecido, são estes os arautos da mudança que se aproxima.

—G. W. F. Hegel

 

Explicações para a natureza humana

 

Na Cultura humana, podemos identificar um fenómeno mudanças na moda e nos estilos - que à primeira vista pode parecer trivial, mas que na verdade é muito Profundo, revelando uma parte intensa e fascinante da natureza humana. Pense nas formas de vestir, por exemplo. Nas lojas ou nos desfiles de moda, podemos por vezes detectar algumas tendências e mudanças de alguns meses antes, mas geralmente são subtis. Regresse aos estilos de há dez anos. Quando comparados com o presente, as diferenças tornam-se bastante evidentes, recue vinte anos e torna-se ainda mais claro. Com tal distanciamento no tempo, podemos até detectar um estilo específico de há vinte anos que agora provavelmente parece um pouco cómico e ultrapassado.

Estas mudanças no estilo da moda que são tão identificáveis com o passar das décadas podem ser caracterizadas como modos de criar algo mais solto e mais romântico do que o estilo anterior, mais abertamente sexual e consciente do corpo ou mais clássico e elegante ou mais garrido e com mais arrebiques. Poderíamos nomear muitas outras categorias de mudanças de estilo, mas, no fim, estas são limitadas e parecem surgir por vagas ou padrões detectáveis ao longo de várias décadas ou séculos. Por exemplo, o interesse por roupa leve e mais clássica surgirá de forma recorrente de tanto em tanto tempo, não precisamente com os mesmos intervalos, mas com um certo nível de regularidade.

Este fenómeno suscita algumas questões interessantes: Estes desvios relacionam-se.com algo para lá do desejo do que é novo e diferente? Refletem mudanças profundas na psicologia e no estado de espírito das pessoas? E como acontecem estas mudanças, para que as consigamos detectar depois de ter passado tempo suficiente? Surgem a partir de uma dinâmica de cima para baixo, na qual determinados indivíduos e criadores de tendências iniciam uma mudança, que depois é recuperada pelas e massas e difundida de forma viral? Ou estarão esses mesmos criadores de tendências a responder a sinais de mudança de dentro da sociedade como um todo, da força social descrita no capítulo 14, dando-lhe uma dinâmica ascendente?

Podemos fazer estas perguntas sobre estilos na música ou em qualquer outra forma cultural. Mas também podemos interrogar-nos sobre essas mudanças nas formas de pensar e de teorizar ou no modo como os enredos, nos livros, são construídos. Há cinquenta anos, muitas histórias ficcionais tinham origem na psicanálise e na sociologia, com os escritores a verem com frequência o meio como a principal influência sobre o comportamento humano. O estilo era solto, literário, e dado a grande especulação.

Agora, os temas tendem a girar em torno da genética e do cérebro humano, tendo tudo de ser fundamentado em estudos e estatísticas. O mero surgimento de números numa página pode conferir um ar de credibilidade a uma narrativa. A especulação suscita perplexidade. As frases são mais curtas, concebidas para comunicar informação. Mas esta mudança na forma de teorizar não é algo novo. Podemos detectar um vaivém semelhante do que é literário e especulativo para o que é mais sóbrio e orientado pelos números - que começa no século XVIII e vem até ao presente.

O mais fascinante nestes desvios de estilo reside no limitado leque de mudanças, na sua recorrência e na velocidade crescente que agora vemos nas mesmas, como se estivéssemos a testemunhar uma aceleração da energia imparável e nervosa do género humano. Se analisarmos este fenómeno atentamente, podemos ver de forma bastante clara que estas mudanças aparentemente superficiais refletem de facto alterações mais profundas no estado de espírito e valores das pessoas, as quais têm sentido ascendente. Algo tão simples como um desejo de maneiras de vestir mais soltas, como aconteceu na década de oitenta do século XVIII, reflete um desvio psicológico geral. Nada é inocente neste campo. O interesse por cores mais fortes ou por um som mais intenso, na música, diz mais sobre o que se agita nas mentes coletivas das pessoas desse tempo.

E, ao analisar este fenómeno de forma ainda mais atenta, podemos fazer igualmente a descoberta que se segue: o que motiva estas mudanças é a sucessão permanente de novas gerações de jovens, que tentam criar algo mais relevante para a sua experiência do mundo, algo que reflita mais os seus valores e espírito e que vá num sentido diferente do da geração anterior. (De modo geral, podemos descrever uma geração como compreendendo cerca de vinte e dois anos, com aqueles que nascem no início e no fim desse período a identificarem-se muitas vezes mais com a geração anterior ou posterior.)

Este padrão de mudança de uma geração para a seguinte faz, em si, parte de um padrão mais lato da história, que remonta há milhares de anos, em que reações e desvios de valores ocorrem de forma bastante regular, sugerindo algo sobre a natureza humana que nos transcende como indivíduos, que nos programou para repetir estes padrões por algum motivo.

Muitas pessoas intuem a verdade sobre as gerações que tendem a apresentar um certo tipo de personalidade e que a geração mais nova dá início a muitas mudanças. Algumas pessoas estão em negação relativamente ao fenómeno porque gostam de imaginar que, como indivíduos, moldamos o que pensamos e aquilo em que acreditamos ou que outras forças, como classe, género e raça, desempenham um papel mais importante. Claro que o estudo das gerações pode ser vago; é um tema subtil e fugaz. E outros fatores também são importantes. Mas olhar profundamente para o fenómeno revela de facto que é mais determinante do que imaginamos e que em muitos sentidos é o grande gerador de muito do que acontece na história.

Compreender este fenómeno geracional pode apresentar vários outros benefícios. Podemos ver que forças moldaram a mentalidade dos nossos pais e depois as nossas, por seu turno, ao tentarmos avançar numa direção diferente. Podemos compreender melhor as mudanças subjacentes que decorrem em todas as áreas da sociedade e começar á conjeturar para onde o mundo se dirige, a antecipar tendências futuras e a compreender o papel que podemos desempenhar ao moldar os acontecimentos. Isto pode não só conferir-nos grande poder social como exercer um efeito terapêutico e calmante sobre nós, na medida em que veremos os acontecimentos mundiais com algum distanciamento e equanimidade, acima das mudanças caóticas do momento.

Chamaremos a este conhecimento consciência geracional. Para a alcançar, temos primeiro de compreender o profundo efeito atual que a nossa geração tem sobre o modo como vemos o mundo e, em segundo, os padrões geracionais mais latos que moldam a história e reconhecer onde o nosso período temporal encaixa, no esquema geral.

 

O fenómeno geracional

 

Nos primeiros anos de vida, somos como esponjas, absorvendo profundamente a energia, o estilo e as ideias dos nossos pais e professores. Aprendemos a linguagem, certos valores essenciais, formas de pensar e como funcionar com as pessoas. Estes inculcam-nos lentamente a cultura do nosso tempo. As nossas mentes são extremamente abertas a este momento e, por isso, as nossas experiências são mais intensas e ligadas a emoções fortes. A medida que envelhecemos, tomamos consciência dos nossos pares, os que têm mais ou menos a mesma idade, passando pelo mesmo processo de assimilação deste estranho mundo novo em que somos lançados à nascença.

Embora deparemos com a mesma realidade que todas as outras pessoas que se encontram vivas na mesma altura, fazemo-lo de uma perspectiva particular a de sermos crianças, fisicamente mais pequenas, mais impotentes e dependentes dos adultos. Deste ponto de vista, o mundo dos adultos pode parecer bastante estranho, na medida em que não compreendemos tão bem o que os motiva ou as suas preocupações e problemas de gente crescida. O que os nossos pais podem ter considerado grave nós podemos achar cómico ou estranho. Podemos ter as mesmas formas de entretenimento que eles, mas encaramo-las da perspectiva da criança, com pouca experiência de vida. Ainda não temos a capacidade de afetar este mundo, mas começamos a interpretá-lo à nossa maneira e partilhamo-lo com os nossos pares.

Então, quando chegamos aos dez anos de idade ou talvez mais cedo, tomamos consciência de que fazemos parte de uma geração de jovens (concentrando-nos mais nos que andam pela nossa idade) com quem nos podemos identificar. Ligamo-nos em torno de uma forma particular de ver as coisas e num sentido de humor semelhante que desenvolvemos; também tendemos a formar ideais comuns sobre o sucesso e o que significa estar bem integrado, entre outros valores. Nestes anos, passamos inevitavelmente por um período de rebelião, esforçando-nos por descobrir a nossa identidade, separada da dos nossos pais. Isto torna-nos profundamente cientes das aparências dos estilos e das modas. Queremos mostrar que pertencemos à nossa tribo geracional, com o seu aspeto e maneirismos próprios.

Muitas um acontecimento ou tendência decisivos ocorrem durante estes da juventude - pode ser uma guerra determinante, um escândalo político, crise financeira ou um florescimento económico. Também pode ser a invenção de uma nova forma de tecnologia, com um impacto profundo nas relações sociais. Porque somos muito novos e impressionáveis, esses acontecimentos tem uma influência decisiva na personalidade geracional que se está a formar, tornando-nos cautelosos (se se tratar de uma guerra ou de uma quebra económica) ou sedentos de aventura (se for algo que desencadeie prosperidade e estabilidade). Naturalmente, encaramos esses acontecimentos decisivos de forma muito diferente da dos nossos pais e somos afetados mais profundamente por eles.

À medida que nos tornamos mais conscientes do que se passa no mundo, muitas acabamos por considerar as ideias e valores dos nossos pais como não se encaixando muito bem na nossa experiência de realidade. O que nos disseram ou ensinaram não parece tão relevante, e ansiamos por ideias que se relacionem mais com a nossa experiência de jovens.

Nesta primeira fase da vida, moldamos uma perspectiva geracional. Trata-se de uma espécie de mentalidade coletiva, visto que assimilamos a cultura predominante ao mesmo tempo que os nossos pares, do ponto de vista da infância e da juventude. E, visto que somos demasiado novos para compreender ou analisar esta perspetiva, desconhecemos de modo geral a sua formação e o modo como influencia o que vemos e como interpretamos os acontecimentos.

Então, quando chegamos à casa dos vinte e dos trinta, entramos numa nova fase da vida e experimentamos uma mudança. Estamos agora em posição de assumir algum poder, a alterar efetivamente este mundo de acordo com os seus próprios valores e ideais. A medida que evoluímos profissionalmente, começamos a influenciar a cultura e os seus políticos. Colidimos inevitavelmente com a geração mais velha, que deteve o poder durante algum tempo, quando insiste na sua forma de agir e de avaliar os acontecimentos. Muitos deles consideram-nos com frequência como imaturos, pouco sofisticados, brandos, indisciplinados, mimados, pouco esclarecidos e certamente não preparados para assumir o poder.

Em alguns períodos, a cultura jovem que se cria é tão forte que acaba por dominar a cultura em geral - nos anos vinte e sessenta do século xx, por exemplo. Noutros períodos, a geração mais velha que ocupa posições de liderança é muito mais dominante, e a influência dos adultos emergentes na casa dos vinte é menos detectável. Em qualquer circunstância, em maior ou menor grau, verifica-se um choque entre estas duas gerações e as suas perspectivas.

Então, quando entramos nos quarenta e na meia-idade e assumimos muitas das posições de liderança na sociedade, começamos a reparar numa geração mais nova que luta pelo poder e por uma posição. Os seus elementos julgam-nos e consideram o nosso estilo e as nossas ideias bastante irrelevantes. Começamos a julgá-los também, descrevendo-os como imaturos, pouco sofisticados, brandos etc. Podemos começar a alimentar a ideia de que o mundo está rapidamente a precipitar-se num desastre, com os valores que considerávamos tão importantes a já não importarem neste cenário ditado pelos mais novos.

Quando avaliamos as coisas desta maneira, não temos consciência de que estamos a reagir de acordo com um padrão que existiu durante, pelo menos, os últimos três mil anos. (Existe uma inscrição numa tabuinha de barro da Babilónia que data de cerca de 1000 a.C. e que diz: “Hoje a juventude é podre, perversa, ímpia e preguiçosa. Nunca será o que a juventude era e nunca conseguirá preservar a nossa cultura.” Encontramos queixas semelhantes em todas as culturas e em todos os períodos temporais.) Pensamos que estamos a julgar a geração mais nova de uma forma objetiva, mas estamos apenas a cair numa ilusão de perspectiva. Também é verdade que provavelmente sentimos uma inveja secreta da sua juventude e lamentamos a perda da nossa.

Quando se trata das mudanças geradas pelas tensões entre duas gerações, pode mos dizer que a maior parte das mesmas vem dos jovens. Estes são mais inquietos, procuram a sua própria identidade e estão mais sintonizados com o grupo e com o modo como encaixam nele. Quando uma geração chega aos trinta ou quarenta anos de idade, terá moldado o mundo com as suas mudanças e dar-lhe-á um aspeto e um toque diferente dos conferidos pelos seus pais.

Quando olhamos para qualquer geração, vemos naturalmente variantes dentro da mesma. Encontramos indivíduos mais agressivos do que outros - tendem a ser líderes, aqueles que captam os estilos e as tendências desse período e que os expressam em primeira mão. Têm menos medo de cortar com o passado e de desafiar a geração mais velha. Danton ilustra este tipo. Também encontramos um grupo muito maior de seguidores que não são tão agressivos, que acham mais empolgante continuar com as tendências, ajudar a moldá-las e a promovê-las. E, finalmente, encontramos igualmente os rebeldes, os indivíduos que desafiam a sua própria geração e que se definem indo contra a corrente. Podem incluir os beatniks dos anos cinquenta do século xx ou os jovens dos anos sessenta que gravitavam em defesa de uma política conservadora.

Podemos dizer destes indivíduos rebeldes que são tão marcados pela sua geração como qualquer outra pessoa, mas em sentido contrário, E, de facto, muito do mesmo espírito de geração pode ser detectado sob esta versão reversa — por exemplo, os jovens dos anos oitenta do século XVIII que se reuniam em torno da aristocracia e em defesa da monarquia muitas vezes sentiam um amor muito romantizado pela velha ordem; os jovens conservadores dos anos sessenta do século xx eram tao moralistas, fanáticos e idealistas nos seus valores de oposição quanto a maioria. A mentalidade geracional domina inevitavelmente toda a gente interiormente, seja como for que tentem reagir, a nível pessoal, contra ela. Não podemos abandonar o momento histórico em que nascemos.

Ao considerar esta mentalidade, devemos tentar pensar em termos de personalidade coletiva ou daquilo a que chamaremos espírito. A nossa geração herdou dos nossos pais e do passado certos valores determinantes e formas de encarar o mundo que permanecem inquestionados. Mas, em qualquer momento, as pessoas de uma nova geração procuram algo mais vivo e relevante, algo que expresse o que é diferente, o que está a mudar no presente. Esta noção do que está em movimento e a evoluir no presente, em oposição ao que é herdado do passado, é o próprio espírito coletivo, a sua natureza inquieta e inquiridora. Não é algo que possamos facilmente expressar por palavras. É mais um estado de espírito, um tom emocional, uma forma de as pessoas se relacionarem umas com as outras.

É por isso que muitas vezes nos podemos associar melhor ao espírito da geração, com o seu estilo musical dominante, uma tendência artística para um certo tipo de imagens ou um estado de espírito captado na literatura ou em filmes dessa geração. Por exemplo, nada traduz melhor o espírito selvagem e o ritmo frenético dos anos vinte do século xx do que o jazz do período e o som ruidoso do saxofone, que era a grande moda na época.

Este espírito tenderá a alterar-se à medida que a nossa geração passa por várias fases da vida. A forma como nos relacionamos coletivamente com o mundo não será a mesma aos cinquenta e aos vinte. As circunstâncias, os acontecimentos históricos e o processo de envelhecimento irão modificar este espírito. Mas, como com qualquer indivíduo, existe algo na personalidade geracional que permanece intacto e que transcende os anos que passam.

A famosa geração perdida dos anos vinte do século xx, com as raparigas típicas e as suas sessões intensas de jazz, teve certas obsessões e traços destacados durante esta década — festas loucas, álcool, sexo, dinheiro e sucesso, bem como uma atitude realista e cínica perante a vida. Ao envelhecer, os seus membros tenderam a desistir da busca de alguns prazeres e manias, mas, em anos mais tardios, mantiveram-se bastante duros, cínicos, materialistas e desabridos na expressão das suas opiniões. Os baby boomers dos anos sessenta do século xx exibiam um idealismo intenso e uma propensão para julgar e moralizar, tenderam a conservar essas qualidades, mas os seus ideais e aquilo que moralizam deveria ter sido alterado.

Se a sua geração tem um espírito particular poderíamos dizer o mesmo para o período temporal que estamos a atravessar, que normalmente compreende quatro gerações vivas ao mesmo tempo. A combinação destas gerações, a tensão entre elas e o choque que por vezes ocorre criam aquilo a que iremos chamar o espírito geral da época ou o que é conhecido habitualmente por zeitgeist. Por exemplo, no que diz respeito aos anos sessenta do século xx, não podemos separar o espírito da poderosa cultura da juventude desse período do antagonismo e a consternação que suscitou entre os mais velhos. A dinâmica e o espírito dessa época surgiram a partir da interação dramática de duas perspectivas em confronto.

Para considerar este aspeto no âmbito da sua própria experiência, olhe para os períodos do passado em que esteve vivo e consciente, no mínimo há cerca de vinte anos, se tiver idade suficiente para isso. Com algum distanciamento, pode refletir sobre quão diferentes esses tempos eram, o que pairava no ar e como as pessoas interagiam, o nível de tensão. O espírito desse período não reside apenas nos estilos e roupas, que são diferentes dos do presente, mas também em algo social e coletivo, num caráter geral ou no sentimento presente no ar. Até as diferenças na moda e na arquitetura, as cores que se tornaram populares ou o aspeto dos carros transmitem um espírito que anima estas mudanças e escolhas.

Esse espírito pode ser caracterizado como selvagem e aberto, com pessoas sedentas de todo o tipo de interação social; também pode ser bastante rígido e cauteloso, com pessoas que tendem a conformar-se e a ser hipercorretas; pode ser cínico ou esperançoso, insípido ou criativo. Deverá ser capaz de avaliar o espírito do momento presente, com um distanciamento semelhante, e ver onde a sua geração se encaixa, no esquema geral da história, dando-lhe uma ideia do curso dos acontecimentos.

Padrões geracionais

 

Desde que existem registos documentados, certos escritores e pensadores intuíram um padrão na história humana. Foi talvez o grande estudioso islâmico do século XIV Ibn Khaldun a formular esta ideia pela primeira vez na teoria que formulou de que a história parece avançar em quatro atos, que correspondem a quatro gerações.

A primeira geração é a dos revolucionários que fizeram um corte radical com o passado, estabelecendo novos valores, mas também criando algum caos nessa tentativa. Muitas vezes existem nesta geração alguns líderes ou profetas que influenciam a direção da revolução e que deixam uma marca na mesma. Depois surge uma segunda geração que anseia por alguma ordem. Ainda sentem o calor da revolução em si, tendo vivido através da mesma em muito tenra idade, mas desejam estabilizar o mundo, estabelecer algumas convenções e dogmas.

Os da terceira geração - tendo pouca ligação direta com os fundadores da revolução sentem-se menos apaixonados em relação ao assunto. São pragmáticos. Querem resolver problemas e tornar a vida o mais confortável possível. Não estão tão interessados em ideias, mais em construir coisas. No processo, tendem em esgotar o espírito da revolução original. As preocupações materiais predominam, e as pessoas podem tornar-se bastante individualistas.

Mais tarde surge a quarta geração, que sente que a sociedade perdeu a vitalidade, mas não têm a certeza do que a deverá substituir. Começam a questionar os valores que herdaram, tornando-se alguns deles bastante cínicos. Já ninguém sabe em que acreditar. Surge uma crise deste tipo. Depois vem a geração revolucionária, que, unida em torno de uma crença, destrói finalmente a velha ordem, e o ciclo continua. Esta revolução pode ser extrema e violenta ou ser menos intensa, com a emergência simples de valores novos e diferentes.

Embora este padrão tenha decerto variantes e não resulte de ciência comprovada, tendemos a ver muito desta sequência geral na história. O que mais se destaca é a emergência da quarta geração e a crise de valores que a acompanha. Este período é muitas vezes o mais difícil de atravessar - os seres humanos sentem uma necessidade profunda de acreditar em algo e, quando começam a duvidar da velha ordem e a questioná-la, experimentando uma sensação de vazio de valores, podem enlouquecer um pouco. Tendemos a agarrar-nos aos mais recentes sistemas de crenças apregoados pelos charlatães e demagogos que prosperam nestes períodos. Procuramos bodes expiatórios para todos os problemas que agora surgem e para a insatisfação crescente. Sem uma crença unificada que nos ancore e acalme, tornamo-nos tribais, confiando num pequeno grupo que tenha afinidades connosco e que nos dê a sensação de pertença.

Muitas vezes, num período de crise, verificar-se-á a formação de um subgrupo entre os que se sentem especialmente ansiosos e revoltados com a perturbação da Ordem. São com frequência pessoas que se sentiram de alguma forma privilegiadas no passado, e o caos e mudança futuros ameaçam o que tomaram como garantido. Querem agarrar-se ao passado, regressar a uma época dourada de que se conseguem lembrar vagamente e evitar uma eventual revolução. Estão condenadas, porque este ciclo não pode ser interrompido, e o passado não pode ser devolvido magicamente à vida. Mas, à medida que este período de crise se esbate e começa a fundir-se no período revolucionário, detectamos com frequência níveis crescentes de excitação, visto que os jovens e especialmente os que estão sedentos de algo novo conseguem sentir as mudanças em curso que prepararam à sua maneira.

Parecem estar a viver num período de crise, com uma geração que a está a experimentar na fase mais importante da sua vida. Embora não consigamos ver quão perto poderemos estar do fim deste período, estes momentos nunca duram muito porque o espírito humano não os irá tolerar. Há um sistema de crenças unificador em génese, e estão a criar-se valores novos que ainda não conseguimos descortinar.

No centro deste padrão encontra-se um ritmo de vaivém constante que provém de gerações emergentes em reação contra os desequilíbrios e erros da geração anterior. Se recuarmos quatro gerações no nosso próprio tempo, podemos percebê-lo claramente. Começamos com a geração silenciosa. Como crianças que passaram pela Grande Depressão e como indivíduos que chegam à idade adulta durante a Segunda Guerra Mundial e no período do pós-guerra, tornam-se bastante cautelosos e conservadores, valorizando a estabilidade, o conforto material e encaixando solidamente no grupo. A geração seguinte, os baby boomers, acharam o conformismo dos pais bastante sufocante. Emergindo nos anos sessenta do século xx e não se sentindo atormentada pelas realidades financeiras dos pais, esta geração valorizava a expressão pessoal, vivendo aventuras e revelando-se idealista.

Foi seguida da Geração X, que foi marcada pelo caos dos anos sessenta e pelos escândalos sociais e políticos que se seguiram. Tornando-se adultos nos anos oitenta e noventa, eram pragmáticos e conflituosos, valorizando o individualismo e a autoconfiança. Esta geração reagiu contra as hipocrisias e a falta de sentido prático presentes no idealismo dos pais. Seguiu-se a geração do milénio. Traumatizada pelo terrorismo e pela crise financeira, reagiu contra o individualismo da última geração, ansiando por segurança e trabalho de equipa, com um desagrado notório em relação ao conflito e ao confronto.

Podemos retirar duas lições importantes deste quadro. Em primeiro lugar, os nossos valores muitas vezes dependem do padrão em que nos enquadramos e do modo como a nossa geração reage contra os desequilíbrios específicos da geração anterior. Não seríamos simplesmente as pessoas que somos, com a mesma atitude e ideais, se tivéssemos nascido durante os anos vinte ou cinquenta do século xx em vez de em períodos posteriores. Não temos consciência desta influência crítica porque está demasiado próxima de nós para a podermos observar. Claro que o nosso espírito individual também tem uma função a desempenhar neste drama, e na medida em que podemos cultivar a nossa singularidade, iremos ganhar poder e a capacidade de dirigir o zeitgeist. Mas é determinante reconhecemos primeiro o papel dominante que a geração representa na nossa formação e de que modo esta geração se enquadra num determinado padrão.

Em segundo, reparamos que as gerações só parecem capazes de reagir e de avançar numa direção oposta à da geração anterior. Talvez seja porque se forma uma perspectiva geracional na juventude, onde somos mais inseguros e propensos a pensar a preto e branco. Um meio-termo, uma forma equilibrada de escolher o que poderia ser bom ou mau nos valores e tendências da geração anterior, parece contrário à nossa natureza coletiva.

Por outro lado, este padrão oscilante tem um efeito salutar. Se uma geração simplesmente avançasse com as tendências da anterior, provavelmente já nos teríamos destruído há muito tempo. Imagine uma sucessão de gerações, na loucura dos anos vinte ou sessenta, a continuarem com esse espírito e a prolongarem-no; ou uma geração que sucedesse aos anos cinquenta mantendo-se igualmente conservadora e conformista. Sufocar-nos-íamos com demasiada autoexpressão ou estagnação. O padrão pode conduzir a desequilíbrios, mas também garante que nos revitalizemos.

Por vezes, as mudanças que são geradas num período revolucionário são bastante triviais e não duram para lá desse ciclo. Mas é frequente, a partir de uma crise forte, uma revolução criar algo que dure séculos e represente progresso em relação a valores que são mais racionais e empáticos. Ao considerar este padrão histórico, devemos reconhecer que parece corresponder a um espírito humano geral que transcende qualquer período em particular e que nos permite continuar a evoluir. Se, por algum motivo, o ciclo se interrompesse, estaríamos condenados.

A sua missão é tripla. Em primeiro lugar e mais importante de tudo, deverá alterar a sua atitude face à sua própria geração. Gostamos de imaginar que somos autónomos e que os nossos valores e ideias vêm de dentro, não de fora, mas não é o caso. O objetivo é compreender o melhor possível quão profundamente o espírito da sua geração e a época em que vive influenciaram a forma como encara o mundo.

Geralmente somos hipersensíveis quando se trata da nossa própria geração. A perspectiva formou-se durante a infância, quando éramos mais vulneráveis, e a nossa ligação emocional com os nossos pares formou-se desde logo. Muitas vezes ouvimos uma geração mais velha ou mais nova criticar-nos e pomo-nos naturalmente na defensiva. No que diz respeito aos defeitos ou desequilíbrios da própria geração, a tendência é vê-las como virtudes. Por exemplo, se crescemos numa geração que era mais temerosa e prudente, podemos evitar grandes responsabilidades, como ter uma casa ou um carro, e interpretaremos este aspeto como um desejo de liberdade ou de ajudar o ambiente, não procurando enfrentar os medos que realmente subjazem a essa atitude.

Não podemos compreender a nossa geração do mesmo modo que compreendemos um facto científico, como as características de um organismo. Existe algo vivo dentro de nós, e o entendimento do mesmo é marcado pelas nossas emoções e preconceitos. O que deve fazer é tentar lidar com o problema sem fazer juízos de valor ou moralizar e tornar-se tão objetivo quanto

humanamente possível. A personalidade da sua geração não é nem positiva nem negativa; é simplesmente uma excrescência do processo orgânico que foi descrito.

Considere-se uma espécie de arqueólogo a escavar o seu próprio passado e o da sua geração, procurando artefatos, observações que possa juntar de forma a obter uma imagem do espírito subjacente. Quando analisar as suas memórias, tente fazê-lo com algum distanciamento, mesmo quando se lembra das emoções que sentiu na altura. Capte-se no processo inevitável de julgar a sua geração ou a seguinte pela positiva ou pela negativa e liberte-se deles. Pode desenvolver essa capacidade com a prática. Ao criar uma atitude desse tipo, desempenhará um papel determinante no seu desenvolvimento. Com algum distanciamento e consciência, pode tornar-se muito mais do que um seguidor ou do que um rebelde geracional; pode moldar a sua relação com a zeitgeist e tornar-se um extraordinário definidor de tendências.

A sua segunda tarefa consiste em criar uma espécie de perfil da personalidade da sua geração, para que possa compreender o seu espírito no presente e explorá-lo. Tenha em mente que existem sempre matizes e exceções. Aquilo que procura são os traços comuns que assinalam o espírito geral.

Pode começar por observar acontecimentos decisivos que ocorreram nos anos antes de entrar no mundo do trabalho e que tenham desempenhado um papel determinante na formação desta personalidade. Se este período compreender aproximadamente vinte e dois anos, muitas vezes há mais de um único acontecimento decisivo para esse período. Por exemplo, para as pessoas que atingiram a maioridade durante os anos trinta do século xx, houve a Depressão e depois o advento da Segunda Guerra Mundial. Para os baby boomers norte-americanos, a Guerra do Vietname e, mais tarde, o caso Watergate e os escândalos políticos do início dos anos setenta.

A Geração X estava na infância durante a revolução sexual e na adolescência na altura em que as crianças ficavam sozinhas em casa porque os pais estavam a trabalhar. Para a Geração Milénio, houve o 11 de setembro e depois o crash financeiro de 2008. Dependendo do seu enquadramento, ambos o irão influenciar, mas uma mais do que a outra, visto que ocorre mais perto dos anos de formação entre os dez e os dezoito, quando está a ganhar consciência do mundo mais lato e a desenvolver valores essenciais.

Por vezes, como aconteceu nos anos cinquenta do século xx, pode haver períodos de estabilidade relativa, a raiar a estagnação. Isto também terá um efeito poderoso, tendo em conta a inquietude da mente humana, especialmente entre os jovens, que acabarão por ansiar por aventura e por agitar as coisas. Tenha também em conta nesta equação quaisquer avanços tecnológicos ou invenções importantes que alterem o modo como as pessoas interagem.

Procure projetar as ramificações destes acontecimentos decisivos. Preste especial atenção ao efeito que podem ter exercido no padrão de socialização que irá caracterizar a sua geração. Se o acontecimento tiver sido uma crise importante de algum tipo, isso tenderá a fazer que os elementos da sua geração se unam em busca de conforto e de segurança, valorizando a equipa e sentimentos de amor e tornando-se alérgicos ao confronto. Um período de estabilidade e sem ocorrências irá fazê-lo procurar os outros em busca de aventura, de experiências coletivas, por vezes raiando a imprudência. De modo geral, tenderá a notar o estilo socializador dos seus pares, muito evidente na casa dos vinte. Procure a origem deste fenómeno.

Estes acontecimentos mais latos terão um efeito na forma como encara o sucesso e o dinheiro e se valoriza o estatuto e a saúde ou valores menos materiais, como a criatividade e a expressão pessoal. O modo como os elementos da sua geração encaram o fracasso num projeto ou na carreira será bastante revelador — é um sinal de vergonha ou considerado parte do processo empresarial e inclusivamente uma experiência positiva? Pode avaliá-lo igualmente pelos anos em que entrou no mundo do trabalho — sentiu logo a pressão de começar a fazer dinheiro ou tratou-se de uma altura que reservou para explorar o mundo, viver aventuras e depois assentar, por volta dos trinta?

Ao definir este perfil, analise o estilo de parentalidade das pessoas que o criaram permissivo, demasiado controlador, negligente ou compassivo? O famoso estilo permissivo das pessoas que educaram crianças nos anos noventa do século XIX ajudou a desenvolver a atitude selvagem e despreocupada da geração perdida dos anos vinte do século xx. Os pais que foram profundamente afetados pelos anos sessenta do século xx muitas vezes acabaram por ser bastante egocêntricos e um pouco negligentes em relação aos filhos, que não podiam evitar sentir-se um pouco alienados e mesmo revoltados pelo facto. Pais que sejam superprotetores moldarão uma geração que receia sair da sua zona de conforto. Estes estilos de Parentalidade surgem por vagas. As crianças que foram superprotegidas normalmente não se tornam pais controladores. Os seus próprios pais podem ter sido uma exceção ao estilo predominante, mas irá verificar uma marca de personalidade nos seus pares que se tornará muito evidente, durante a adolescência e o início da casa dos vinte.

Preste muita atenção aos heróis e ícones de uma geração, aqueles que exibem as qualidades que outros secretamente também desejavam possuir. São muitas vezes os indivíduos que se tornam famosos na cultura jovem - os rebeldes, os empresários de sucesso, os gurus, os ativistas. Indicam novos valores emergentes. Do mesmo modo, observe as tendências e modas que passaram subitamente pela sua geração, por exemplo, a popularidade imediata da moeda virtual. Não leve estas tendências à letra, mas procure o espírito subjacente, a atração inconsciente por certos valores ou ideais que revelam. Nada é demasiado trivial para esta análise. Como um indivíduo, qualquer geração tenderá a ter um lado inconsciente e sombrio na sua personalidade. Pode encontrar um bom sinal deste aspeto no estilo de humor particular que cada geração tende a desenvolver. No humor, as pessoas libertam frustrações e expressam inibições. Esse humor pode tender para o irracional ou para algo mais tenso e até agressivo. Uma geração pode parecer bastante pudica e correta, mas ter um humor obsceno e irreverente. E o lado sombrio a espreitar.

No âmbito deste estudo, observe a relação entre géneros na sua geração. Nos anos vinte e trinta do século xx, os homens e as mulheres estavam a tentar atenuar as suas diferenças, socializar em grupos mistos, o máximo possível. Os ícones masculinos eram muitas vezes bastante femininos, como Rudolph Valentino; e os ícones femininos tinham um toque masculino ou andrógino pronunciado, como Marlene Dietrich e Josephine Baker. Compare-o com os anos cinquenta do século xx e com o fosso súbito e bastante forte entre os géneros, revelando um desconforto inconsciente com as tendências que procuravam aproximar os géneros que todos sentimos e um corte com as mesmas.

Ao observar este lado sombrio da sua geração, tenha em mente que a sua tendência para um extremo - materialismo, espiritualidade, aventura, segurança - esconde uma atração subjacente pelo contrário. Uma geração como a que chegou à maioridade nos anos sessenta do século xx parecia desinteressada das coisas materiais. Os seus principais valores eram espirituais e interiores, sendo os seus elementos espontâneos e considerados autênticos, tudo em reação a pais materialistas. Mas, por detrás deste espírito, podemos detectar uma atração secreta pelo lado material da vida, no desejo de ter sempre o melhor de algo - as melhores aparelhagens, drogas de qualidade, a roupa mais na moda. Esta atração foi revelada em toda a sua verdade durante os anos yuppie, entre finais da década de setenta e início da de oitenta do século xx.

Com todo este conhecimento acumulado, pode começar a formar um perfil geral da sua geração, que seja tão complexo e orgânico como o fenómeno em si.

A sua terceira tarefa será, então, alargar este conhecimento a algo mais lato, procurando primeiro reconstituir o que pode ser considerado a zeitgeist. Neste sentido, procurará especialmente a relação entre as duas gerações dominantes, os adultos (jovens com idades compreendidas entre os vinte e dois e os quarenta e anos) e os que se encontram na meia-idade (quarenta e cinco a sessenta e seis). Independentemente de quão próximos os pais e os filhos destas gerações possam parecer, existe sempre uma tensão subjacente, juntamente com algum ressentimento e inveja. Existem diferenças naturais entre os seus valores e a forma como olham para o mundo. Analise esta tensão e determine que geração tende a dominar e de que forma esta dinâmica de poder poderá estar a mudar no presente. Verifique também em que parte do padrão histórico mais lato a sua geração se poderá enquadrar.

Esta consciência geral terá várias vantagens importantes. Por exemplo, a sua perspetiva geracional tende a criar um tipo especial de miopia. Cada geração tende para algum desequilíbrio, na medida em que reage à anterior. Perspectiva e valia tudo de acordo com certos princípios que privilegia em detrimento de outros, o que fecha a mente a outras possibilidades. Podemos ser simultaneamente realistas e pragmáticos, valorizar o trabalho de equipa e o nosso espírito individual, etc. Há muito a ganhar quando se olha para o mundo pela perspectiva dos nossos pais ou dos nossos filhos e até adotando alguns dos seus valores. Sentir que a nossa geração é superior é simplesmente uma ilusão. A consciência libertá-lo-á destes bloqueios e ilusões mentais, tornando-lhe o espírito mais fluido e criativo. Será capaz de moldar os seus próprios valores e ideias e não ser tanto um produto dos tempos.

Com a sua consciência do zeitgeist geral, também compreenderá o contexto histórico. Ficará com uma noção da direção que o mundo está a seguir. Pode antecipar o que está ao virar da esquina. Com tal conhecimento, pode usar o seu próprio espírito e ajudar a moldar este futuro que se está a gerar no presente.

Sentir-se profundamente ligado à cadeia não interrompida da história, compreendendo o seu papel neste grande drama histórico, irá infundir-lhe uma calma que tornará tudo na sua vida mais suportável. Deixará de reagir excessivamente às agressões diárias, nunca mais se permitirá enlouquecer com a última moda. Terá consciência do padrão que tenderá a fazer oscilar as coisas num sentido diferente dentro de um determinado período. Se se sentir em desarmonia com a sua época, saberá que os dias maus irão acabar e que pode representar o seu papel na concretização da nova vaga.

Tenha em mente que é mais importante do que nunca possuir este conhecimento, por dois motivos. Em primeiro lugar, apesar dos sentimentos anti globais que grassam pelo mundo, a tecnologia e as redes sociais unificaram-se de formas inalteráveis. Isto significa que as pessoas de uma geração muitas vezes têm mais em comum com as da mesma geração noutras culturas do que com gerações mais velhas no seu próprio país, este estado de coisas sem precedentes significa que o zeitgeist é mais diretamente globalizado do que nunca, tornando o conhecimento do mesmo igualmente essencial e poderoso.

Em segundo lugar, por causa destas mudanças drásticas iniciadas por inovações tecnológicas, o ritmo acelerou, criando uma dinâmica autorrealizada. Os jovens sentem-se quase dependentes deste ritmo e anseiam por mais mudanças, ainda que estas sejam de natureza trivial. Com este ritmo em aceleração, há mais crises, o que se limita a tornar o processo mais rápido. Este ritmo tenderá a deixá-lo tonto e a fazê-lo perder a perspetiva. Poderá imaginar um desvio banal como inovador e assim ignorar a mudança verdadeiramente inovadora que se encontra em curso. Não será capaz de a acompanhar, quanto mais de antecipar o que poderá seguir-se. Apenas a sua consciência geracional, uma perspectiva histórica tranquila, lhe permitirá dominar esses tempos.

 

Estratégias para explorar o espírito da época

 

Para tirar o maior partido do zeitgeist, deve começar com uma premissa simples: é o produto dos tempos, como qualquer outra pessoa; a geração em que nasceu moldou os seus pensamentos e valores, quer tenha consciência disso ou não. E, portanto, se sentir alguma frustração bem dentro de si com a forma como as coisas estão no mundo ou com a geração mais velha ou se sentir que falta algo na cultura, quase pode ter a certeza de que as outras pessoas da sua geração se sentem da mesma maneira. E, se for a pessoa que age em consonância com este sentimento, o seu trabalho ecoará pela sua geração e ajudará a moldar o zeitgeist. Com este aspeto em mente, terá de pôr em prática algumas ou todas as estratégias que se seguem.

Lute contra o passado. Poderá sentir uma necessidade profunda de criar algo e mais relevante para a sua geração, mas o passado exercerá quase sempre uma grande influência sobre si, sob a forma de valores dos seus pais que interiorizou em tenra idade. Inevitavelmente, sentir-se-á um pouco receoso e indeciso. Por esse motivo, poderá hesitar em reprimir aquilo que faz ou expressa, e o seu desafio ao modo de fazer as coisas no passado tenderá a ser bastante tépido.

Em vez disso, deve forçar-se a agir no sentido contrário, use o passado e os seus valores ou ideias como algo a contrariar com grande intensidade, usando toda a raiva que possa sentir para o ajudar. Torne o seu corte com o passado tão claro quanto possível. Expresse o que for tabu; destrua as convenções a que a geração mais velha adere. Tudo isto irá entusiasmar e captar a atenção de pessoas da sua geração, muitas das quais irão desejar segui-lo.

Foi por ser tão ousado e desafiador face à geração anterior que o conde de Essex personificou o espírito novo e confiante da Inglaterra pós-armada e se tornou o menino querido da sua geração (consulte o capítulo 15 para mais informações sobre este assunto). Danton ganhou poder em virtude do alcance com que desafia a monarquia e fomentava a república. Nos anos vinte do século xx, a dançarina afro-americana Josephine Baker veio ilustrar o novo espírito de espontaneidade entre a geração perdida, tornando as suas atuações o mais livres e chocantes possível. Ao cortar tão profundamente com as imagens passadas de primeiras-damas anteriores e com os seus modos normalmente recatados, Jacqueline Kennedy tornou-se o ícone do novo espírito do início da década de sessenta do século xx. Se for mais longe neste sentido, provocará o choque apresentando algo novo e desencadeará desejo entre outros que estão apenas à espera de se revelar.

Adapte o passado ao espírito presente. Quando identificar a essência do zeitgeist, será muitas vezes uma estratégia prudente encontrar algum momento ou período da história semelhante. As frustrações e rebeliões da sua geração foram decerto sentidas a certo ponto por alguma geração anterior e expressas de forma dramática. Os líderes dessas gerações passadas ecoam pela história e assumem uma espécie de matiz mítico, à medida que o tempo passa. Ao associar-se a essas figuras ou épocas, pode conferir um peso adicional a qualquer movimento ou inovação que esteja a promover. Use em alguns dos símbolos e estilos carregados emocionalmente desse período histórico e adapte-os, dando a impressão de que aquilo que está a tentar no presente é uma versão mais perfeita e progressiva do que aconteceu no passado.

Ao fazê-lo, pense em grande, em termos míticos. Danton associou-se a Cícero, cujos discursos e ações a favor da República romana e contra a tirania encontravam eco natural entre o povo francês e davam à missão de Danton o peso adicional do passado mais remoto. O realizador de cinema Akira Kurosawa devolve à vida o mundo do guerreiro samurai, tão celebrado na cultura japonesa, mas recriado de forma a poder realizar comentários judicativos sobre questões e perspectivas do Japão do pós-guerra. Quando estava a concorrer para presidente, John F. Kennedy queria proclamar um novo espírito americano que ultrapassava a insipidez dos anos cinquenta do século xx. Designou os programas que iria iniciar por a Nova Fronteira, associando as suas ideias ao espírito pioneiro tão reverencialmente enraizado na psique norte-americana. Esta imagística tornou-se uma componente poderosa do seu poder de persuasão.

Ressuscite o espírito da infância. Ao recuperar o espírito dos seus primeiros anos de vida - o seu humor, os seus acontecimentos históricos determinantes, os estilos e produtos da altura, o clima vivido, tal como o afetou - alcançará um público vasto, composto por todos os que viveram esses anos de forma Semelhante. Foi um período da vida com grande intensidade emocional e, ao recriá-lo de alguma forma, mas refletido através dos olhos de um adulto, o seu trabalho causará impacto nos seus pares. Só deverá usar esta estratégia se sentir uma ligação especialmente forte com a sua infância. Caso contrário, a sua tentativa de recriar o seu espírito parecerá insossa e forçada.

Tenha em mente que não procura uma recriação literal do passado, mas captar o seu espírito. Para ter verdadeiro impacto, deverá criar uma ligação com uma questão ou problema do presente e não cair simplesmente num pouco de nostalgia Irracional. Se estiver a inventar alguma coisa, tente atualizar e incorporar os estilos desse período da infância de uma forma subtil, explorando a atracão inconsciente que sentimos por essa fase inicial da vida.

Crie a nova configuração social. E natural para os seres humanos ansiarem por mais interação social com aqueles com quem sentem afinidade. Obterá sempre muito poder ao criar uma forma de interagir que apele à sua geração. Organize um grupo em torno de ideias ou valores novos que andem no ar ou da nova tecnologia que lhe permita juntar pessoas que pensem da mesma maneira de uma forma nova. Elimine os intermediários que costumavam definir barreiras que impediam associações mais livres de pessoas. Nesta forma de agrupamento, é sempre prudente introduzir alguns rituais que liguem os seus elementos e alguns símbolos que os identifiquem.

Vemos muitos exemplos disto no passado os salões do século XVII em França, onde homens e mulheres podiam falar de forma livre e aberta; as lojas dos mações no século XVIII, na Europa, com os seus rituais secretos e ar de subversão; os bares clandestinos e clubes de jazz dos anos vinte do século xx, onde o espírito era «vale tudo»; ou, mais recentemente, plataformas e grupos online ou flash mobs. Ao usar esta estratégia, pense nos elementos repressivos do passado dos quais as pessoas anseiam por se libertar. Pode ser um período de correção ou de puritanismo embrutecedores, de conformismo feroz ou a sobrevalorização do individualismo e de todo o egoísmo que grassa. O grupo que fundou permitirá o florescimento de um novo espírito e oferecerá ainda a excitação de destruir os tabus passados sobre o que é correto.

Subverta o espírito. Poderá descobrir que se encontra desajustado de uma parte do espírito da sua geração ou da época em que vive. Talvez se identifique com alguma tradição do passado que tenha sido substituída ou os seus valores difiram de alguma forma devido ao seu temperamento individual. Seja qual for o motivo, nunca é sensato repreender, moralizar ou condenar o espírito do seu tempo. Não fará mais do que marginalizar-se. Se o espírito da época for como uma vaga ou corrente, é preferível arranjar maneira de o redirecionar suavemente, em vez de ir contra o seu fluxo. Terá mais poder e impacto trabalhando com o zeitgeist e subvertendo-o.

Por exemplo, crie alguma coisa um livro, um filme, um produto que tenha o aspeto e o toque do seu tempo, mesmo que a um nível exagerado. No entanto, através do conteúdo do que produz, insira ideias e um espírito que sejam um pouco diferentes, que apontem para o valor do passado, que prefere, ou que pinte outra forma possível de interagir com os acontecimentos e de os interpretar, ajudando a soltar a estrutura geracional rígida através da qual as pessoas veem o mundo.

Depois da Segunda Guerra Mundial, grandes criadores de moda europeus sentiam um grande desprezo pelo mercado norte-americano que então dominava o mundo. Não gostavam da cultura popular emergente e da sua vulgaridade. A criadora de moda Coco Chanel sempre enfatizou a elegância nas suas criações e partilhava decerto alguma desta antipatia. Mas foi no sentido contrário de outros criadores da altura: aceitou o novo poder das mulheres norte-americanas e satisfez o seu desejo de roupas que fossem menos complicadas e mais atléticas. Ganhando a sua confiança e usando a sua linguagem, Chanel tinha agora a capacidade de alterar os gostos norte-americanos, investindo mais da sua verdadeira sensibilidade e conferindo alguma elegância aos modelos mais depurados de que as mulheres norte-americanas gostavam. Desta forma, ajudou a redirecionar o zeitgeist na moda, antecipando as mudanças do início dos anos sessenta do século xx. E o poder que decorre de trabalhar com o espírito em vez de contra o mesmo.

Continue a adaptar-se. Foi durante a juventude que a sua geração desenvolveu um espírito específico, um período de intensidade emocional que muitas vezes recordamos com carinho. O problema que enfrenta é que, à medida que envelhece, tende a permanecer fechado nos valores, ideias e estilos que marcaram este período. Torna-se uma espécie de caricatura do passado para os que são mais novos. Permite que o seu pensamento pare de evoluir. O presente deixa-o para trás, o que o leva apenas a agarrar-se mais firmemente ao passado como a sua única âncora. E, enquanto envelhece e cada vez mais jovens ocupam o espaço da ribalta, o seu público reduz-se.

Não é que deva abandonar o espírito que o marcou, uma tarefa seja como for impossível. Tentar imitar os estilos da geração mais nova fá-lo-á apenas parecer ridículo e falso. Procure antes modernizar o seu espírito, adotar possivelmente alguns dos valores e ideias da geração mais nova que o atraem, ganhando um público novo e mais alargado ao cruzar a sua experiência e perspectiva com as mudanças em curso e tornando-se um híbrido invulgar e atrativo.

Para o realizador de cinema Alfred Hitchcock, a década que moldou a sua pessoa e o seu trabalho foi a dos anos vinte do século xx, quando entrou na indústria e se tornou realizador. O que mais importava nos filmes mudos era aperfeiçoar a linguagem visual de modo a contar uma história. Hitchcock dominava a arte de usar os ângulos da câmara e o movimento para levar o público a sentir-se como se estivesse no meio do enredo.

Nunca abandonou a sua obsessão pela linguagem visual ao longo das seis décadas em que trabalhou como realizador, mas adaptou constantemente o seu estilo — aos espetáculos a cores tão na moda nos anos cinquenta e aos thrillers e filmes de horror populares nos anos sessenta e setenta. Ao contrário de outros realizadores de cinema que iam envelhecendo, que saíam completamente de moda ou que simplesmente tentavam imitar o estilo presente, Hitchcock criou um híbrido do passado e do presente. O facto conferiu aos seus filmes uma imensa profundidade, visto que integrara todas as adaptações desde o início da sua carreira. Os seus filmes apelariam às massas, mas eram únicos devido a estas camadas de inovação encastradas no filme. Tal profundidade terá sempre um efeito perturbador em qualquer público, visto que o trabalho parecerá ir para lá do próprio tempo.

 

O ser humano para lá do tempo e da morte

 

Os seres humanos são especialistas em transformar tudo aquilo em que tocam. Transformámos completamente o ambiente do planeta Terra de modo a adaptá-lo aos nossos propósitos. Evoluímos de uma espécie fisicamente fraca para o animal social predominante e mais poderoso, alargando e reprogramando de forma eficiente os nossos cérebros nesse processo. Somos irrequietos e extremamente inventivos. Mas uma área parece desafiar as nossas capacidades transformadoras — o próprio tempo. Nascemos e entrámos na corrente da vida, e cada dia nos aproxima mais da morte. O tempo é linear, avançando sempre, e não há nada que possamos fazer para impedir o seu progresso.

Passamos pelas várias fases da vida, que nos marcam de acordo com padrões que escapam ao nosso controlo. Os nossos corpos e mentes abrandam e perdem a elasticidade da juventude. Assistimos, impotentes, enquanto cada vez mais jovens preenchem o palco da vida, pondo-nos de lado. Nascemos num período da história e numa geração que não foram escolha nossa e que parecem determinar muito de quem somos e do que nos acontece. Em relação ao tempo, a nossa natureza ativa é neutralizada, e, embora não o registemos conscientemente, a nossa impotência' neste campo, esta é a fonte de grande ansiedade e surtos de depressão.

No entanto, se observarmos mais atentamente a nossa experiência pessoal do tempo, podemos reparar em algo singular a passagem das horas ou dos dias pode mudar dependendo do nosso espírito e circunstâncias. Uma criança e um adulto vivem o tempo de forma muito diferente - para a primeira, este avança bastante devagar, e demasiado depressa para o último. Quando estamos aborrecidos, o tempo parece vazio e arrasta-se; quando estamos entusiasmados e a divertir-nos, desejamos que abrande. Quando estamos calmos e meditativos, o tempo pode passar lentamente, mas parece preenchido e satisfatório.

O que isto significa, de modo geral, é que o tempo é uma criação humana, uma forma de medirmos a sua passagem tendo em vista os nossos objetivos, e a nossa experiência desta criação artificial é bastante subjetiva e mutável. Temos a capacidade de o abrandar ou acelerar conscientemente. A nossa relação com o tempo é mais maleável do que pensamos. Embora não possamos deter o processo de envelhecimento ou desafiar a realidade derradeira que é a morte, podemos alterar a experiência dos mesmos, transformando o que é doloroso e depressivo em algo muito diferente. Podemos permitir que o tempo pareça mais cíclico do que linear; podemos sair da corrente e experimentar formas de intemporalidade. Não temos de permanecer fechados na nossa geração e na sua perspetiva.

Embora isto possa parecer uma ilusão, é possível apontar várias figuras históricas - Leonardo da Vinci e Johann Wolfgang von Goethe, para referir apenas duas - que conscientemente transcenderam a sua época e descreveram a sua experiência do tempo. Trata-se de um ideal, de um ideal que a natureza permite e que vale bem a pena tentar realizar de alguma forma.

Eis como poderíamos aplicar esta abordagem ativa a quatro aspetos elementares do tempo.

As fases da vida: A medida que atravessamos as várias fases da vida -juventude, idade adulta inicial, meia-idade e velhice - repare-se em algumas mudanças comuns em nós. Na juventude, vivemos a vida mais intensamente. Somos mais emotivos e vulneráveis. A maior parte das pessoas tende a concentrar-se no exterior, preocupando-se com o que as pessoas possam pensar de nós e com o modo como nos encaixamos, somos mais gregários, propensos a exibir um comportamento mais disparatado e sobranceiro.

A medida que envelhecemos, a intensidade diminui, as nossas mentes tendem a endurecer em torno de certas ideias e crenças convencionais. Começamos lentamente a ficar menos preocupados com o que as pessoas pensam de nós e, portanto, mais voltados para dentro. O que por vezes ganhamos nestas fases mais tardias é algum distanciamento da vida, algum autocontrolo e talvez a sabedoria que decorre de experiências acumuladas.

No entanto, temos o poder de abandonar ou mitigar as qualidades negativas que muitas vezes acompanham certas etapas da existência, definindo de certa forma o próprio processo de envelhecimento. Por exemplo, quando somos novos, podemos fazer questão de reduzir a influência do grupo sobre nós e de não nos fixarmos tanto no que os outros estão a pensar e a fazer. Podemos voltar-nos mais para dentro, mais em harmonia com a nossa singularidade (consulte o capítulo 13 para mais informação sobre este assunto). Podemos desenvolver conscientemente esse distanciamento interior que surge naturalmente com os anos, pensar mais profundamente sobre as nossas experiências, aprender lições com as mesmas e desenvolver uma sabedoria prematura.

Ao envelhecer, podemos tentar manter as qualidades positivas da juventude que muitas vezes se esbatem com os anos. Por exemplo, podemos recuperar alguma da curiosidade natural que tínhamos em criança ao abandonar alguma da presunção e da atitude arrogante que muitas vezes se apodera de nós quando nos tornamos mais velhos. Continuamos a olhar para o mundo através de uma perspetiva fresca, questionando os seus valores e preconceitos, tornando as nossas mentes mais fluidas e criativas no processo. Como parte do mesmo, podemos aprender uma nova competência ou estudar uma nova área que nos devolva à alegria que em tempos sentimos ao aprender algo desconhecido. Também podemos meditar sobre as experiências mais intensas da juventude, devolvendo-nos a esses momentos através da imaginação e religando-nos mais profundamente ao que éramos. Conseguiremos sentir essa intensidade da juventude regressar a certo ponto às nossas experiências presentes.

Parte do motivo pelo qual nos tornamos menos gregários com os anos é o facto de nos tornarmos judicativos e intolerantes face às excentricidades das pessoas, o que não melhora a nossa experiência de vida. Podemos alterá-lo bem como tentar compreender a natureza humana mais profundamente e aceitar as pessoas tal como são.

O envelhecimento tem uma componente psicológica e pode ser uma profecia autorrealizada dizemos para nós próprios que estamos a abrandar e que não conseguimos fazer ou tentar tanto quanto no passado. Ao agirmos em função destes pensamentos, intensificamos o processo de envelhecimento, o que nos deixa deprimidos e atreitos a abrandar ainda mais. Podemos ver ícones no passado, como Benjamin Franklin, que iam no sentido contrário, desafiando constantemente a sua mente e corpo à medida que envelheciam e que, para todos os efeitos, conservavam a mais deliciosa disposição infantil e jovial, quando já muito passavam dos setenta e oitenta.

Gerações presentes: O seu objetivo deverá ser menos um produto do seu tempo e ganhar a capacidade de transformar a forma como se relaciona com a sua geração. Uma solução para o fazer reside em associações ativas com pessoas de

diferentes gerações. Se for mais novo, tentará interagir mais com as gerações mais velhas. Pode cultivar algumas delas, que parecem ter um espírito com que se pode identificar, como mentores e modelos. Com outras poderá relacionar-se como faria com os seus pares - não se sentindo superior ou inferior, mas prestando atenção aos seus valores, ideias e perspetivas e ajudando a esconder os seus.

Se for mais velho, inverterá este processo interagindo ativamente com as pessoas de uma geração mais nova, não como um pai ou figura de autoridade, mas como seu igual. Permitir-se-á assimilar o seu espírito, a sua forma diferente de pensar e o seu entusiasmo. Aborde-os com a ideia de que têm algo a ensinar-lhe. Ao interagir a um nível mais autêntico com estas gerações diferentes, estará a criar um laço único - o das pessoas que estão vivas no mesmo momento da história. Isto irá apenas aumentar o seu domínio do zeitgeist.

Gerações passadas: Quando pensamos na história, tendemos a fazer do passado uma espécie de caricatura morta e sem alma. Talvez nos sintamos cheios de nós e superiores a épocas passadas e por isso concentramo-nos nos aspetos da história que indicam ideias e valores retrógrados (não nos apercebendo de que as gerações futuras nos farão o mesmo), vendo o que queremos ver. Ou então projetamos no passado as ideias e valores do presente, não muito relacionadas com o modo como as pessoas do passado viviam o mundo. Esgotamos a sua própria perspetiva geracional, algo que vemos de forma óbvia em versões filmadas da história, em que as pessoas falam e agem tal como nós, só que disfarçadas. Ou ignoramos simplesmente a história, imaginando que não tem relevância para a nossa experiência presente.

Temos de nos libertar destas noções e hábitos absurdos. Não somos tão superiores como os indivíduos do passado, como gostamos de imaginar (consultar capítulos anteriores sobre irracionalidade, falta de visão, inveja, grandiosidade, conformismo e agressão). Há momentos culturais na história que são superiores aos nossos quando se trata de democracia participante, de pensamento criativo ou de animação cultural. Há períodos do passado em que as pessoas tinham um domínio mais profundo da psicologia humana e um realismo estimulante que nos fazia parecer bastante defraudados, em comparação. Embora a natureza humana permaneça constante, as pessoas do passado enfrentavam circunstâncias diferentes, com níveis diferentes de tecnologia, e tinham valores e crenças bastante diferentes dos nossos, mas não necessariamente inferiores. Tinham os valores que refletiam a as suas diferentes circunstâncias, e também nós os teríamos partilhado.

No entanto, mais importante de tudo, devemos compreender que o passado não está de todo morto. Não surgimos na vida como páginas em branco, divorciados de milhões de anos de evolução. Tudo o que pensamos e vivemos, os nossos pensamentos e crenças mais íntimos, são moldados pelas batalhas de gerações aquilo que criamos e com que contribuímos para a sociedade, pode exercer ainda mais poder e tornar-se parte de uma estratégia consciente de comunicar com as pessoas do futuro e de as influenciar. Pensar desta forma pode realmente alterar o que dizemos ou o que fazemos.

Leonardo da Vinci seguiu certamente esta estratégia. Tentou constantemente antecipar como poderia ser o futuro, viver nele através da sua imaginação. Podemos ver provas disto nos seus desenhos de invenções que talvez existam no presente, algumas das quais, como as máquinas voadoras, tentou realmente criar. Também pensou profundamente nos valores que as pessoas poderiam ter no futuro e que ainda não existiam no tempo em que viveu. Por exemplo, sentia uma afinidade profunda com os animais e via-os como seres possuidores de uma alma, uma crença de que praticamente nunca se ouvira falar na altura. Isso levou-o a tornar-se vegetariano e a andar a soltar pássaros engaiolados pelo mercado. Via toda a natureza como uma só, incluindo os seres humanos, e imaginou um futuro em que essa crença seria partilhada.

A grande feminista, filósofa e romancista Mary Wollstonecraft (1759—1797) acreditava que os seres humanos podem realmente criar o futuro através da forma como imaginam o presente. Para ela, na sua breve vida, grande parte desta ideia decorreu do facto de imaginar um futuro em que os direitos das mulheres e, mais importante, as suas capacidades de raciocínio teriam o mesmo peso que os dos homens. Pensar nestes termos teve de facto uma profunda influência no futuro.

Talvez um dos exemplos mais perturbadores deste fenómeno seja o de Johann Wolfgang von Goethe (1749—1832), cientista, romancista e filósofo. Aspirava a um tipo de conhecimento universal, semelhante ao de Leonardo, em que tentou dominar todas as formas de inteligência humana, mergulhar em todos os períodos da história e dessa forma ser capaz não só de ver o futuro, mas de estar em comunhão com os seus habitantes. Conseguiu antecipar a teoria da evolução décadas antes de Darwin. Anteviu muitas das principais tendências políticas dos séculos xix e xx, incluindo a eventual unificação da Europa depois da Segunda Guerra Mundial. Imaginou muitos dos avanços da tecnologia e os efeitos que estes poderiam ter no nosso espírito. Foi alguém que tentou ativamente viver fora do seu tempo, e as suas capacidades proféticas eram lendárias entre os seus amigos.

Finalmente, por vezes podemos sentir que nascemos no período errado da história, em desarmonia com o tempo. E, no entanto, estamos fechados neste momento e temos de viver nele. Se for o caso, esta estratégia da imortalidade pode trazer-nos algum alívio. Estamos conscientes dos ciclos da história, do modo como o Pêndulo irá balançar e de que os tempos irão mudar, talvez depois de termos morrido, desta forma, podemos olhar para o futuro e sentir alguma ligação com aqueles que vivem muito para lá deste terrível momento. Podemos apelar a eles, torná-los parte do nosso público. Um dia lerão sobre nós ou as nossas palavras, e a ligação irá nos dois sentidos, assinalando esta capacidade humana suprema de ultrapassar o tempo e a finalidade da própria morte.

Os defeitos de um homem decorrem da sua época; as suas virtudes e excelência pertencem a ele próprio.

—Johann Wolfgang von Goethe


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