# 17 Lei da Miopia Geracional – 17/18 Robert Greene
Nasceu numa geração
que define quem é, mais do que pode imaginar. A sua geração procura afastar-se
da anterior e definir uma nova voz para o mundo. Entretanto, contacta com
determinados gostos, valores e modos de pensar que, enquanto indivíduo,
interioriza. A medida que envelhece, estes valores e ideias geracionais tendem
a fechá-lo em relação a outros pontos de vista, limitando a sua mente. A sua
missão é compreender o mais profundamente possível esta influência poderosa
sobre a pessoa que é e como encara o mundo. Ao conhecer profundamente o
espírito da sua geração e a época em que vive, ficará mais apto a explorar o
zeitgeist. Antecipará e definirá as tendências por que a sua geração anseia.
Libertará a mente das limitações mentais que lhe foram impostas pelo tempo que
lhe coube viver e tornar-se-á mais o indivíduo que imagina ser, com todo o
poder que essa liberdade lhe irá conferir.
Interpretação
história Luís XVI: Vamos
espreitar por instantes o mundo pré-revolucionário francês através dos olhos do
rei Luís XVI. Grande parte do que ele via parecia ser a mesma realidade que
reis anteriores haviam enfrentado. O rei ainda era considerado o governante
absoluto de França, nomeado por ordem divina para conduzir a nação. As várias
classes e estados em França permaneciam bastante estáveis; as distinções entre
a nobreza, o clero e o resto do povo francês ainda eram amplamente respeitadas.
Os plebeus gozavam de uma prosperidade relativa que o próprio Luís herdara da
avó.
Sim, havia
problemas financeiros, mas o grande Luís XIV em pessoa enfrentara essas crises,
e estas haviam passado. Versalhes ainda era a joia reluzente da Europa, o
centro de tudo o que era civilizado. A amada esposa de Luís, Maria Antonieta,
dava as festas mais espetaculares, que faziam a inveja de todos os aristocratas
europeus. O próprio Luís não dava grande importância a tais divertimentos, mas
tinha as suas caçadas e os outros passatempos pedestres, que o obcecavam.
A vida no palácio
era bastante amena e relativamente tranquila. O mais importante para Luís, a
glória e a majestade de França, como se manifestava nas suas cerimónias e
símbolos visuais, ainda tinha o mesmo peso de antes. Quem não ficaria
impressionado com os esplendores de Versalhes em si ou com os rituais da Igreja
Católica? Luís XVI era o governante de uma grande nação, e não havia motivos
para acreditar que a monarquia não continuaria por tantos mais séculos quantos
os que já havia durado.
No entanto, sob a
superfície, havia alguns sinais perturbadores de descontentamento. Ainda
durante o reinado de Luís XV, escritores como Voltaire e Diderot começaram a
ridicularizar a Igreja e a monarquia por todas as suas crenças retrógradas e
supersticiosas. Refletiam um novo espírito científico que se espalhava por toda
a Europa, e era difícil conciliar este aspeto com muitas das práticas da Igreja
e da nobreza. As suas ideias ficaram conhecidas como Iluminismo e começaram a
ganhar influência entre a classe média, em expansão, que se sentira excluída do
poder e não estava tão mergulhada em todo o simbolismo da monarquia.
Por detrás da fachada
aparentemente tranquila da nobreza, havia algumas fendas. Muitos aristocratas
acabaram por detestar o poder absoluto do rei, que encaravam como fraco e não
merecedor do seu respeito. Ansiavam por mais poder para si.
As sociedades
secretas floresciam por todo o lado, promovendo uma forma totalmente nova de
socializar, muito afastada do ambiente sufocante da corte. A mais destacada era
a dos mações, com as suas lojas e rituais secretos próprios. O próprio Danton
era membro. As lojas dos mações eram focos de descontentamento com a monarquia,
sendo os seus membros extremamente permeáveis às ideias do Iluminismo. Ansiavam
por uma nova ordem em França. Em Paris, o teatro tornara-se subitamente o lugar
mais popular a frequentar e onde ser visto, muito mais do que a igreja. Mas
agora representavam-se peças que faziam troça da monarquia da forma mais
descarada.
E todos os símbolos
e cerimónias majestáticos da monarquia que permaneciam relativamente imutáveis
começavam a parecer bastante vazios, máscaras sem nada por detrás. Os cortesãos
já não compreendiam realmente o que estavam a fazer ou porquê, quando
participavam nos seus rituais elaborados na companhia do rei. Os quadros,
estátuas e fontes ornamentados com figuras mitológicas eram tão belos como
sempre, mas eram simplesmente encarados como peças de arte superficiais, não
como indicadores de uma ligação profunda com o passado glorioso de França.
Todos estes sinais
eram subtis e díspares. Era difícil ligá-los a todos a uma tendência
específica, quanto mais a uma revolução. Passariam por novidades, novos entreténs
de uma nação entediada, sem significado subjacente. Mas então a crise piorou,
no fim da década de oitenta do século XVIII, e subitamente estes exemplos de
desencanto desconexos começaram a combinar-se numa força inegável. O preço do
pão subira, bem como o custo de vida, para todos os súbditos franceses. A
medida que o descontentamento se espalhava, a nobreza e a burguesia captavam a
fragilidade do rei e exigiam mais poder.
Agora o rei não
podia ignorar o que se estava a passar, e nos Estados Gerais a perda de
respeito e o descontentamento era demasiado visível para ele no comportamento
do Terceiro Estado. No entanto, Luís só conseguia observar estes acontecimentos
pela ótica da monarquia divina que herdara e à qual se agarrara tão
desesperadamente. Os súbditos franceses que desrespeitavam e desobedeciam ao
seu governo absoluto tinham de ser indivíduos ímpios e apenas uma minoria
barulhenta. Desobedecer à sua palavra era o equivalente a sacrilégio. Se essas
pessoas não pudessem ser persuadidas pelos símbolos do passado glorioso, teria
de usar a força para que o passado e as tradições prevalecessem. Mas quando
algo perdeu o seu encanto e já não exerce fascínio não há força que o possa
devolver à vida. E, enquanto era transportado naquela carruagem, em outubro de
1789, que o afastaria para sempre de Versalhes e do passado, via apenas pessoas
que não eram os seus súbditos, mas estranhos. Tinha de incluir Danton nesse
grupo. Na sua execução, dirigiu-se à multidão como se ainda fosse o rei,
perdoando-lhe os pecados. Em vez disso, a multidão viu apenas um ser humano,
despojado de toda a glória anterior, não melhor do que eles próprios.
Quando
Georges-Jacques Danton olhou para o mesmo mundo que o rei, viu algo bastante
diferente. Ao contrário do rei, não era tímido ou inseguro, mas o oposto. Não
sentia uma necessidade interior de confiar no passado que o estimulasse. Fora
educado por padres liberais que lhe haviam instilado as ideias do Iluminismo.
E, aos quinze anos de idade, na coroação, tivera uma visão fugaz do futuro,
intuindo por um momento quão vazia a monarquia e os seus símbolos se haviam
tornado e que o rei era apenas um homem comum.
Nos anos oitenta do
século XVIII, começou a detetar sinais díspares de mudança — de dentro do
Conselho do Rei e do desrespeito crescente entre a classe dos advogados, até
aos clubes e à vida das ruas, onde se podia sentir um novo espírito. Captava o
sofrimento das classes mais baixas e compadecia-se do seu sentido de exclusão.
E este novo espírito não era simplesmente político, mas também cultural. A
juventude da geração de Danton fartara-se de todo o formalismo vazio da cultura
francesa. Ansiava por algo mais livre e espontâneo. Queria expressar as suas
emoções de forma aberta e natural. Desejava libertar-se de toda a indumentária
e penteados elaborados e usar roupas mais desimpedidas, com menos ostentação.
Procurava uma socialização mais aberta, o convívio aberto de todas as classes,
como acontecia nos clubes de Paris.
Poderíamos chamar a
este movimento cultural a primeira explosão verdadeira do romantismo,
valorizando as emoções e as sensações acima do intelecto e do formalismo.
Danton ilustrava e
compreendia em simultâneo este espírito romântico. Foi um homem que sempre usou
o coração e cujos discursos pareciam uma efusão espontâneas de ideias e de
emoções. O ato de desenterrar a mulher equivaleu a algo típico da literatura
romântica, uma expressão de emoção inimaginável cerca de dez anos antes. Esta
vertente de Danton foi o que permitiu ao público identificar-se tanto com ele e
sentir-se tão atraído pela sua pessoa.
De uma forma que o
tornava bastante único, Danton era capaz, antes de qualquer outra pessoa, de
ligar os sentidos por detrás de todos estes sinais e de divisar uma revolução
maciça em preparação. Na qualidade de nadador inveterado, comparava tudo isto a
uma maré num rio. Nada na vida humana é estático. Há sempre descontentamento
sob a superfície e sede de mudança. Por vezes trata-se de algo bastante subtil,
e o rio parece plácido, mas continua em movimento. Outras vezes, é como um
afluxo, uma enchente que ninguém, nem mesmo um rei com poderes absolutos, pode
conter.
Onde é que esta
maré levaria os franceses? Era essa a questão fundamental. Para Danton,
tornou-se rapidamente claro que a maré se encaminhava para a formação de uma
república. A monarquia era agora apenas uma fachada. A sua exibição de
majestade já não agitava as massas. Estas viam agora que as ações do rei
pretendiam simplesmente manter o poder; viam a aristocracia como um bando de
ladrões, que trabalhava pouco e consumia toda a riqueza de França. Com tais
níveis de desencanto, não poderia haver volta atrás, não haveria meias-tintas,
nenhuma monarquia constitucional.
Como parte da sua
invulgar perspicácia e sensibilidade ao espírito do tempo, antes de quaisquer
outros líderes revolucionários, Danton compreendeu que o Terror que
desencadeara fora um erro e que estava na altura de lhe pôr fim. Apenas neste
aspeto, não teve o melhor sentido de oportunidade, visto que agiu em função
desta intuição pelo menos vários meses antes do público, permitindo aos seus
inimigos e rivais livrarem-se dele.
Compreender:
Poderá ver o rei Luís
XVI como um exemplo extremo de alguém não sintonizado com a sua época, algo que
não parece especialmente relevante para a sua vida, mas que, na verdade, está
muito mais próximo do que pensa. Tal como ele, provavelmente estará a olhar
para o presente através das lentes do passado quando observa o mundo que o
rodeia, este parece-se bastante com o que era há um dia, há uma semana, há um
mês ou mesmo há um ano. As pessoas agem mais ou menos da mesma forma. As
instituições que detêm o poder permanecem e não vão a lado nenhum. O modo de
pensar das pessoas na verdade não mudou. as convenções que regem o
comportamento no nosso campo ainda são seguidas religiosamente. Sim, pode haver
alguns estilos e tendências novos na cultura, mas não são fatores determinantes
ou sinais de uma mudança profunda. Tranquilizado por esta aparência, parece-lhe
que a vida simplesmente continua como sempre.
No entanto, sob a
superfície, a maré encontra-se em movimento; nada na cultura humana permanece
fixo. Os que são mais novos do que os leitores já não têm o mesmo respeito por
certos valores ou instituições. A dinâmica do poder - entre classes, regiões,
indústrias encontra-se num estado de fluxo. As pessoas começam a socializar e a
interagir de formas novas. Desenvolvem-se novos símbolos e mitos, e outros,
velhos, esbatem-se. Tudo isto pode parecer bastante desligado até surgir alguma
crise ou choque e as pessoas terem de enfrentar o que parecia invisível ou
distante, sob a forma de uma revolução ou de um desejo de mudança.
Quando isto
acontece, algumas pessoas irão sentir-se, como o rei, profundamente
desconfortáveis e agarrar-se-ão ainda mais ao passado. Unir-se-ão para tentar
impedir que a maré avance, uma tarefa inútil. Os líderes sentir-se-ão ameaçados
e aferrar-se-ão mais intensamente às suas ideias convencionais. Outros serão
arrastados sem realmente compreenderem onde tudo irá parar ou por que motivo as
coisas estão a mudar.
Deverá procurar o
poder que Danton possuía de compreender tudo e agir em consonância. Este poder
é uma função da visão, de olhar para os acontecimentos sob um prisma diferente,
através de um enquadramento novo. Ignore as interpretações preconcebidas que os
outros inevitavelmente lançarão quando enfrentam mudanças. Abandone os hábitos
mentais e as formas passadas de olhar para as coisas que possam toldar-lhe a
visão. Pare com a tendência para moralizar, para julgar o que está a acontecer.
Veja as coisas simplesmente como são. Procure as correntes subjacentes de
descontentamento e em desarmonia com o status quo, que se encontram sempre sob
a superfície. Veja as semelhanças e as ligações entre todos estes sinais.
Lentamente, a corrente, a própria maré, destaca-se, indicando um caminho, uma
direção oculta para muitas outras pessoas.
Não pense nisto
como um exercício intelectual. Os intelectuais são muitas vezes os últimos a
discernir realmente o espírito dos tempos, por estarem tão enraizados em
teorias e enquadramentos convencionais. Em primeiro lugar e acima de tudo, terá
de ser capaz de sentir a mudança no estado de espírito convencional, de sentir
que as pessoas divergem do passado. Quando sentir o espírito, pode começar a
analisar o que está por detrás dele. Porque estão as pessoas insatisfeitas e
por que anseiam realmente? Porque gravitam em torno destes novos estilos?
Observe os ídolos do passado que perderam encanto, que parecem ridículos, que
são alvo de troça, especialmente entre os jovens. São como a carruagem de Luís.
Quando detectar esse desencanto, pode ter a certeza de que algo forte está a
fermentar.
Quando tiver uma
noção adequada do que realmente está a acontecer, deverá ser ousado na forma
como responde, dando voz ao que outras pessoas estão a sentir, mas não
compreendem. Tenha o cuidado de não se adiantar demasiado e de ser mal interpretado.
Se se mantiver sempre alerta, libertando-se das suas anteriores interpretações,
pode aproveitar as oportunidades no momento que os outros nem conseguirão
sequer detectar. Pense em si como um inimigo do status quo, cujos defensores o
deverão, em contrapartida, encarar como perigoso. Encare esta missão como
absolutamente necessária para a revitalização do espírito e da cultura humanos,
em geral, e domine-a.
A nossa época é um
tempo de nascimento, um período de transição. O espírito do homem quebrou-se
com a velha ordem das coisas [...] e com a velha forma de pensar, e cabe à
mente deixá-los a todos afundarem-se nas profundezas do passado e definirem a
sua própria transformação [...] A frivolidade e o tédio que perturbam a ordem
estabelecida, o vago pressentimento de algo desconhecido, são estes os arautos
da mudança que se aproxima.
—G. W. F. Hegel
Explicações para a
natureza humana
Na Cultura humana,
podemos identificar um fenómeno mudanças na moda e nos estilos - que à primeira
vista pode parecer trivial, mas que na verdade é muito Profundo, revelando uma
parte intensa e fascinante da natureza humana. Pense nas formas de vestir, por
exemplo. Nas lojas ou nos desfiles de moda, podemos por vezes detectar algumas
tendências e mudanças de alguns meses antes, mas geralmente são subtis.
Regresse aos estilos de há dez anos. Quando comparados com o presente, as
diferenças tornam-se bastante evidentes, recue vinte anos e torna-se ainda mais
claro. Com tal distanciamento no tempo, podemos até detectar um estilo específico
de há vinte anos que agora provavelmente parece um pouco cómico e ultrapassado.
Estas mudanças no
estilo da moda que são tão identificáveis com o passar das décadas podem ser
caracterizadas como modos de criar algo mais solto e mais romântico do que o
estilo anterior, mais abertamente sexual e consciente do corpo ou mais clássico
e elegante ou mais garrido e com mais arrebiques. Poderíamos nomear muitas
outras categorias de mudanças de estilo, mas, no fim, estas são limitadas e
parecem surgir por vagas ou padrões detectáveis ao longo de várias décadas ou
séculos. Por exemplo, o interesse por roupa leve e mais clássica surgirá de
forma recorrente de tanto em tanto tempo, não precisamente com os mesmos
intervalos, mas com um certo nível de regularidade.
Este fenómeno
suscita algumas questões interessantes: Estes desvios relacionam-se.com algo
para lá do desejo do que é novo e diferente? Refletem mudanças profundas na
psicologia e no estado de espírito das pessoas? E como acontecem estas
mudanças, para que as consigamos detectar depois de ter passado tempo
suficiente? Surgem a partir de uma dinâmica de cima para baixo, na qual
determinados indivíduos e criadores de tendências iniciam uma mudança, que
depois é recuperada pelas e massas e difundida de forma viral? Ou estarão esses
mesmos criadores de tendências a responder a sinais de mudança de dentro da
sociedade como um todo, da força social descrita no capítulo 14, dando-lhe uma
dinâmica ascendente?
Podemos fazer estas
perguntas sobre estilos na música ou em qualquer outra forma cultural. Mas
também podemos interrogar-nos sobre essas mudanças nas formas de pensar e de
teorizar ou no modo como os enredos, nos livros, são construídos. Há cinquenta
anos, muitas histórias ficcionais tinham origem na psicanálise e na sociologia,
com os escritores a verem com frequência o meio como a principal influência
sobre o comportamento humano. O estilo era solto, literário, e dado a grande
especulação.
Agora, os temas
tendem a girar em torno da genética e do cérebro humano, tendo tudo de ser
fundamentado em estudos e estatísticas. O mero surgimento de números numa
página pode conferir um ar de credibilidade a uma narrativa. A especulação
suscita perplexidade. As frases são mais curtas, concebidas para comunicar informação.
Mas esta mudança na forma de teorizar não é algo novo. Podemos detectar um
vaivém semelhante do que é literário e especulativo para o que é mais sóbrio e
orientado pelos números - que começa no século XVIII e vem até ao presente.
O mais fascinante
nestes desvios de estilo reside no limitado leque de mudanças, na sua
recorrência e na velocidade crescente que agora vemos nas mesmas, como se
estivéssemos a testemunhar uma aceleração da energia imparável e nervosa do género
humano. Se analisarmos este fenómeno atentamente, podemos ver de forma bastante
clara que estas mudanças aparentemente superficiais refletem de facto
alterações mais profundas no estado de espírito e valores das pessoas, as quais
têm sentido ascendente. Algo tão simples como um desejo de maneiras de vestir
mais soltas, como aconteceu na década de oitenta do século XVIII, reflete um
desvio psicológico geral. Nada é inocente neste campo. O interesse por cores
mais fortes ou por um som mais intenso, na música, diz mais sobre o que se
agita nas mentes coletivas das pessoas desse tempo.
E, ao analisar este
fenómeno de forma ainda mais atenta, podemos fazer igualmente a descoberta que
se segue: o que motiva estas mudanças é a sucessão permanente de novas gerações
de jovens, que tentam criar algo mais relevante para a sua experiência do
mundo, algo que reflita mais os seus valores e espírito e que vá num sentido
diferente do da geração anterior. (De modo geral, podemos descrever uma geração
como compreendendo cerca de vinte e dois anos, com aqueles que nascem no início
e no fim desse período a identificarem-se muitas vezes mais com a geração
anterior ou posterior.)
Este padrão de
mudança de uma geração para a seguinte faz, em si, parte de um padrão mais lato
da história, que remonta há milhares de anos, em que reações e desvios de
valores ocorrem de forma bastante regular, sugerindo algo sobre a natureza
humana que nos transcende como indivíduos, que nos programou para repetir estes
padrões por algum motivo.
Muitas pessoas
intuem a verdade sobre as gerações que tendem a apresentar um certo tipo de
personalidade e que a geração mais nova dá início a muitas mudanças. Algumas
pessoas estão em negação relativamente ao fenómeno porque gostam de imaginar
que, como indivíduos, moldamos o que pensamos e aquilo em que acreditamos ou
que outras forças, como classe, género e raça, desempenham um papel mais
importante. Claro que o estudo das gerações pode ser vago; é um tema subtil e
fugaz. E outros fatores também são importantes. Mas olhar profundamente para o
fenómeno revela de facto que é mais determinante do que imaginamos e que em
muitos sentidos é o grande gerador de muito do que acontece na história.
Compreender este
fenómeno geracional pode apresentar vários outros benefícios. Podemos ver que
forças moldaram a mentalidade dos nossos pais e depois as nossas, por seu
turno, ao tentarmos avançar numa direção diferente. Podemos compreender melhor
as mudanças subjacentes que decorrem em todas as áreas da sociedade e começar á
conjeturar para onde o mundo se dirige, a antecipar tendências futuras e a
compreender o papel que podemos desempenhar ao moldar os acontecimentos. Isto
pode não só conferir-nos grande poder social como exercer um efeito terapêutico
e calmante sobre nós, na medida em que veremos os acontecimentos mundiais com
algum distanciamento e equanimidade, acima das mudanças caóticas do momento.
Chamaremos a este
conhecimento consciência geracional. Para a alcançar, temos primeiro de
compreender o profundo efeito atual que a nossa geração tem sobre o modo como
vemos o mundo e, em segundo, os padrões geracionais mais latos que moldam a
história e reconhecer onde o nosso período temporal encaixa, no esquema geral.
O fenómeno geracional
Nos primeiros anos
de vida, somos como esponjas, absorvendo profundamente a energia, o estilo e as
ideias dos nossos pais e professores. Aprendemos a linguagem, certos valores
essenciais, formas de pensar e como funcionar com as pessoas. Estes
inculcam-nos lentamente a cultura do nosso tempo. As nossas mentes são
extremamente abertas a este momento e, por isso, as nossas experiências são
mais intensas e ligadas a emoções fortes. A medida que envelhecemos, tomamos
consciência dos nossos pares, os que têm mais ou menos a mesma idade, passando
pelo mesmo processo de assimilação deste estranho mundo novo em que somos
lançados à nascença.
Embora deparemos
com a mesma realidade que todas as outras pessoas que se encontram vivas na
mesma altura, fazemo-lo de uma perspectiva particular a de sermos crianças,
fisicamente mais pequenas, mais impotentes e dependentes dos adultos. Deste
ponto de vista, o mundo dos adultos pode parecer bastante estranho, na medida
em que não compreendemos tão bem o que os motiva ou as suas preocupações e
problemas de gente crescida. O que os nossos pais podem ter considerado grave
nós podemos achar cómico ou estranho. Podemos ter as mesmas formas de
entretenimento que eles, mas encaramo-las da perspectiva da criança, com pouca
experiência de vida. Ainda não temos a capacidade de afetar este mundo, mas
começamos a interpretá-lo à nossa maneira e partilhamo-lo com os nossos pares.
Então, quando
chegamos aos dez anos de idade ou talvez mais cedo, tomamos consciência de que
fazemos parte de uma geração de jovens (concentrando-nos mais nos que andam pela
nossa idade) com quem nos podemos identificar. Ligamo-nos em torno de uma forma
particular de ver as coisas e num sentido de humor semelhante que
desenvolvemos; também tendemos a formar ideais comuns sobre o sucesso e o que
significa estar bem integrado, entre outros valores. Nestes anos, passamos
inevitavelmente por um período de rebelião, esforçando-nos por descobrir a
nossa identidade, separada da dos nossos pais. Isto torna-nos profundamente cientes
das aparências dos estilos e das modas. Queremos mostrar que pertencemos à
nossa tribo geracional, com o seu aspeto e maneirismos próprios.
Muitas um
acontecimento ou tendência decisivos ocorrem durante estes da juventude - pode
ser uma guerra determinante, um escândalo político, crise financeira ou um florescimento
económico. Também pode ser a invenção de uma nova forma de tecnologia, com um
impacto profundo nas relações sociais. Porque somos muito novos e
impressionáveis, esses acontecimentos tem uma influência decisiva na
personalidade geracional que se está a formar, tornando-nos cautelosos (se se
tratar de uma guerra ou de uma quebra económica) ou sedentos de aventura (se
for algo que desencadeie prosperidade e estabilidade). Naturalmente, encaramos
esses acontecimentos decisivos de forma muito diferente da dos nossos pais e
somos afetados mais profundamente por eles.
À medida que nos
tornamos mais conscientes do que se passa no mundo, muitas acabamos por
considerar as ideias e valores dos nossos pais como não se encaixando muito bem
na nossa experiência de realidade. O que nos disseram ou ensinaram não parece
tão relevante, e ansiamos por ideias que se relacionem mais com a nossa
experiência de jovens.
Nesta primeira fase
da vida, moldamos uma perspectiva geracional. Trata-se de uma espécie de
mentalidade coletiva, visto que assimilamos a cultura predominante ao mesmo
tempo que os nossos pares, do ponto de vista da infância e da juventude. E,
visto que somos demasiado novos para compreender ou analisar esta perspetiva,
desconhecemos de modo geral a sua formação e o modo como influencia o que vemos
e como interpretamos os acontecimentos.
Então, quando
chegamos à casa dos vinte e dos trinta, entramos numa nova fase da vida e
experimentamos uma mudança. Estamos agora em posição de assumir algum poder, a
alterar efetivamente este mundo de acordo com os seus próprios valores e
ideais. A medida que evoluímos profissionalmente, começamos a influenciar a
cultura e os seus políticos. Colidimos inevitavelmente com a geração mais
velha, que deteve o poder durante algum tempo, quando insiste na sua forma de
agir e de avaliar os acontecimentos. Muitos deles consideram-nos com frequência
como imaturos, pouco sofisticados, brandos, indisciplinados, mimados, pouco
esclarecidos e certamente não preparados para assumir o poder.
Em alguns períodos,
a cultura jovem que se cria é tão forte que acaba por dominar a cultura em
geral - nos anos vinte e sessenta do século xx, por exemplo. Noutros períodos,
a geração mais velha que ocupa posições de liderança é muito mais dominante, e
a influência dos adultos emergentes na casa dos vinte é menos detectável. Em
qualquer circunstância, em maior ou menor grau, verifica-se um choque entre
estas duas gerações e as suas perspectivas.
Então, quando
entramos nos quarenta e na meia-idade e assumimos muitas das posições de
liderança na sociedade, começamos a reparar numa geração mais nova que luta
pelo poder e por uma posição. Os seus elementos julgam-nos e consideram o nosso
estilo e as nossas ideias bastante irrelevantes. Começamos a julgá-los também,
descrevendo-os como imaturos, pouco sofisticados, brandos etc. Podemos começar
a alimentar a ideia de que o mundo está rapidamente a precipitar-se num
desastre, com os valores que considerávamos tão importantes a já não importarem
neste cenário ditado pelos mais novos.
Quando avaliamos as
coisas desta maneira, não temos consciência de que estamos a reagir de acordo
com um padrão que existiu durante, pelo menos, os últimos três mil anos.
(Existe uma inscrição numa tabuinha de barro da Babilónia que data de cerca de
1000 a.C. e que diz: “Hoje a juventude é podre, perversa, ímpia e preguiçosa.
Nunca será o que a juventude era e nunca conseguirá preservar a nossa cultura.”
Encontramos queixas semelhantes em todas as culturas e em todos os períodos temporais.)
Pensamos que estamos a julgar a geração mais nova de uma forma objetiva, mas
estamos apenas a cair numa ilusão de perspectiva. Também é verdade que
provavelmente sentimos uma inveja secreta da sua juventude e lamentamos a perda
da nossa.
Quando se trata das
mudanças geradas pelas tensões entre duas gerações, pode mos dizer que a maior
parte das mesmas vem dos jovens. Estes são mais inquietos, procuram a sua
própria identidade e estão mais sintonizados com o grupo e com o modo como
encaixam nele. Quando uma geração chega aos trinta ou quarenta anos de idade,
terá moldado o mundo com as suas mudanças e dar-lhe-á um aspeto e um toque
diferente dos conferidos pelos seus pais.
Quando olhamos para
qualquer geração, vemos naturalmente variantes dentro da mesma. Encontramos
indivíduos mais agressivos do que outros - tendem a ser líderes, aqueles que
captam os estilos e as tendências desse período e que os expressam em primeira
mão. Têm menos medo de cortar com o passado e de desafiar a geração mais velha.
Danton ilustra este tipo. Também encontramos um grupo muito maior de seguidores
que não são tão agressivos, que acham mais empolgante continuar com as
tendências, ajudar a moldá-las e a promovê-las. E, finalmente, encontramos
igualmente os rebeldes, os indivíduos que desafiam a sua própria geração e que
se definem indo contra a corrente. Podem incluir os beatniks dos anos cinquenta
do século xx ou os jovens dos anos sessenta que gravitavam em defesa de uma
política conservadora.
Podemos dizer
destes indivíduos rebeldes que são tão marcados pela sua geração como qualquer
outra pessoa, mas em sentido contrário, E, de facto, muito do mesmo espírito de
geração pode ser detectado sob esta versão reversa — por exemplo, os jovens dos
anos oitenta do século XVIII que se reuniam em torno da aristocracia e em
defesa da monarquia muitas vezes sentiam um amor muito romantizado pela
velha ordem; os jovens conservadores dos anos sessenta do século xx eram tao
moralistas, fanáticos e idealistas nos seus valores de oposição quanto a
maioria. A mentalidade geracional domina inevitavelmente toda a gente
interiormente, seja como for que tentem reagir, a nível pessoal, contra ela.
Não podemos abandonar o momento histórico em que nascemos.
Ao considerar esta
mentalidade, devemos tentar pensar em termos de personalidade coletiva ou
daquilo a que chamaremos espírito. A nossa geração herdou dos nossos pais e do
passado certos valores determinantes e formas de encarar o mundo que permanecem
inquestionados. Mas, em qualquer momento, as pessoas de uma nova geração
procuram algo mais vivo e relevante, algo que expresse o que é diferente, o que
está a mudar no presente. Esta noção do que está em movimento e a evoluir no
presente, em oposição ao que é herdado do passado, é o próprio espírito
coletivo, a sua natureza inquieta e inquiridora. Não é algo que possamos
facilmente expressar por palavras. É mais um estado de espírito, um tom
emocional, uma forma de as pessoas se relacionarem umas com as outras.
É por isso que
muitas vezes nos podemos associar melhor ao espírito da geração, com o seu
estilo musical dominante, uma tendência artística para um certo tipo de imagens
ou um estado de espírito captado na literatura ou em filmes dessa geração. Por
exemplo, nada traduz melhor o espírito selvagem e o ritmo frenético dos anos
vinte do século xx do que o jazz do período e o som ruidoso do saxofone, que
era a grande moda na época.
Este espírito
tenderá a alterar-se à medida que a nossa geração passa por várias fases da
vida. A forma como nos relacionamos coletivamente com o mundo não será a mesma
aos cinquenta e aos vinte. As circunstâncias, os acontecimentos históricos e o
processo de envelhecimento irão modificar este espírito. Mas, como com qualquer
indivíduo, existe algo na personalidade geracional que permanece intacto e que
transcende os anos que passam.
A famosa geração
perdida dos anos vinte do século xx, com as raparigas típicas e as suas sessões
intensas de jazz, teve certas obsessões e traços destacados durante esta década
— festas loucas, álcool, sexo, dinheiro e sucesso, bem como uma atitude
realista e cínica perante a vida. Ao envelhecer, os seus membros tenderam a
desistir da busca de alguns prazeres e manias, mas, em anos mais tardios,
mantiveram-se bastante duros, cínicos, materialistas e desabridos na expressão
das suas opiniões. Os baby boomers dos anos sessenta do século xx exibiam um
idealismo intenso e uma propensão para julgar e moralizar, tenderam a conservar
essas qualidades, mas os seus ideais e aquilo que moralizam deveria ter sido
alterado.
Se a sua geração
tem um espírito particular poderíamos dizer o mesmo para o período temporal que
estamos a atravessar, que normalmente compreende quatro gerações vivas ao mesmo
tempo. A combinação destas gerações, a tensão entre elas e o choque que por
vezes ocorre criam aquilo a que iremos chamar o espírito geral da época ou o
que é conhecido habitualmente por zeitgeist. Por exemplo, no que diz respeito
aos anos sessenta do século xx, não podemos separar o espírito da poderosa
cultura da juventude desse período do antagonismo e a consternação que suscitou
entre os mais velhos. A dinâmica e o espírito dessa época surgiram a partir da
interação dramática de duas perspectivas em confronto.
Para considerar
este aspeto no âmbito da sua própria experiência, olhe para os períodos do
passado em que esteve vivo e consciente, no mínimo há cerca de vinte anos, se tiver
idade suficiente para isso. Com algum distanciamento, pode refletir sobre quão
diferentes esses tempos eram, o que pairava no ar e como as pessoas interagiam,
o nível de tensão. O espírito desse período não reside apenas nos estilos e
roupas, que são diferentes dos do presente, mas também em algo social e
coletivo, num caráter geral ou no sentimento presente no ar. Até as diferenças
na moda e na arquitetura, as cores que se tornaram populares ou o aspeto dos
carros transmitem um espírito que anima estas mudanças e escolhas.
Esse espírito pode
ser caracterizado como selvagem e aberto, com pessoas sedentas de todo o tipo
de interação social; também pode ser bastante rígido e cauteloso, com pessoas
que tendem a conformar-se e a ser hipercorretas; pode ser cínico ou
esperançoso, insípido ou criativo. Deverá ser capaz de avaliar o espírito do
momento presente, com um distanciamento semelhante, e ver onde a sua geração se
encaixa, no esquema geral da história, dando-lhe uma ideia do curso dos
acontecimentos.
Padrões geracionais
Desde que existem
registos documentados, certos escritores e pensadores intuíram um padrão na
história humana. Foi talvez o grande estudioso islâmico do século XIV Ibn
Khaldun a formular esta ideia pela primeira vez na teoria que formulou de que a
história parece avançar em quatro atos, que correspondem a quatro gerações.
A primeira geração é a dos revolucionários que fizeram
um corte radical com o passado, estabelecendo novos valores, mas também criando
algum caos nessa tentativa. Muitas vezes existem nesta geração alguns líderes
ou profetas que influenciam a direção da revolução e que deixam uma marca na
mesma. Depois surge uma segunda geração que
anseia por alguma ordem. Ainda sentem o calor da revolução em si, tendo vivido
através da mesma em muito tenra idade, mas desejam estabilizar o mundo,
estabelecer algumas convenções e dogmas.
Os da terceira geração - tendo pouca ligação direta com
os fundadores da revolução sentem-se menos apaixonados em relação ao assunto.
São pragmáticos. Querem resolver problemas e tornar a vida o mais confortável
possível. Não estão tão interessados em ideias, mais em construir coisas. No
processo, tendem em esgotar o espírito da revolução original. As preocupações
materiais predominam, e as pessoas podem tornar-se bastante individualistas.
Mais tarde surge a quarta geração, que sente que a sociedade perdeu a
vitalidade, mas não têm a certeza do que a deverá substituir. Começam a
questionar os valores que herdaram, tornando-se alguns deles bastante cínicos.
Já ninguém sabe em que acreditar. Surge uma crise deste tipo. Depois vem a
geração revolucionária, que, unida em torno de uma crença, destrói finalmente a
velha ordem, e o ciclo continua. Esta revolução pode ser extrema e violenta ou
ser menos intensa, com a emergência simples de valores novos e diferentes.
Embora este padrão
tenha decerto variantes e não resulte de ciência comprovada, tendemos a ver
muito desta sequência geral na história. O que mais se destaca é a emergência
da quarta geração e a crise de valores que a acompanha. Este período é muitas
vezes o mais difícil de atravessar - os seres humanos sentem uma necessidade
profunda de acreditar em algo e, quando começam a duvidar da velha ordem e a
questioná-la, experimentando uma sensação de vazio de valores, podem
enlouquecer um pouco. Tendemos a agarrar-nos aos mais recentes sistemas de
crenças apregoados pelos charlatães e demagogos que prosperam nestes períodos.
Procuramos bodes expiatórios para todos os problemas que agora surgem e para a
insatisfação crescente. Sem uma crença unificada que nos ancore e acalme,
tornamo-nos tribais, confiando num pequeno grupo que tenha afinidades connosco
e que nos dê a sensação de pertença.
Muitas vezes, num
período de crise, verificar-se-á a formação de um subgrupo entre os que se
sentem especialmente ansiosos e revoltados com a perturbação da Ordem. São com
frequência pessoas que se sentiram de alguma forma privilegiadas no passado, e
o caos e mudança futuros ameaçam o que tomaram como garantido. Querem
agarrar-se ao passado, regressar a uma época dourada de que se conseguem
lembrar vagamente e evitar uma eventual revolução. Estão condenadas, porque
este ciclo não pode ser interrompido, e o passado não pode ser devolvido
magicamente à vida. Mas, à medida que este período de crise se esbate e começa
a fundir-se no período revolucionário, detectamos com frequência níveis
crescentes de excitação, visto que os jovens e especialmente os que estão sedentos
de algo novo conseguem sentir as mudanças em curso que prepararam à sua
maneira.
Parecem estar a
viver num período de crise, com uma geração que a está a experimentar na fase
mais importante da sua vida. Embora não consigamos ver quão perto poderemos
estar do fim deste período, estes momentos nunca duram muito porque o espírito
humano não os irá tolerar. Há um sistema de crenças unificador em génese, e
estão a criar-se valores novos que ainda não conseguimos descortinar.
No centro deste
padrão encontra-se um ritmo de vaivém constante que provém de gerações
emergentes em reação contra os desequilíbrios e erros da geração anterior. Se
recuarmos quatro gerações no nosso próprio tempo, podemos percebê-lo
claramente. Começamos com a geração silenciosa. Como crianças que passaram pela
Grande Depressão e como indivíduos que chegam à idade adulta durante a Segunda
Guerra Mundial e no período do pós-guerra, tornam-se bastante cautelosos e
conservadores, valorizando a estabilidade, o conforto material e encaixando
solidamente no grupo. A geração seguinte, os baby boomers, acharam o
conformismo dos pais bastante sufocante. Emergindo nos anos sessenta do século
xx e não se sentindo atormentada pelas realidades financeiras dos pais, esta
geração valorizava a expressão pessoal, vivendo aventuras e revelando-se
idealista.
Foi seguida da
Geração X, que foi marcada pelo caos dos anos sessenta e pelos escândalos
sociais e políticos que se seguiram. Tornando-se adultos nos anos oitenta e
noventa, eram pragmáticos e conflituosos, valorizando o individualismo e a
autoconfiança. Esta geração reagiu contra as hipocrisias e a falta de sentido
prático presentes no idealismo dos pais. Seguiu-se a geração do milénio.
Traumatizada pelo terrorismo e pela crise financeira, reagiu contra o
individualismo da última geração, ansiando por segurança e trabalho de equipa,
com um desagrado notório em relação ao conflito e ao confronto.
Podemos retirar
duas lições importantes deste quadro. Em primeiro lugar,
os nossos valores muitas vezes dependem do padrão em que nos enquadramos e do
modo como a nossa geração reage contra os desequilíbrios específicos da geração
anterior. Não seríamos simplesmente as pessoas que somos, com a mesma atitude e
ideais, se tivéssemos nascido durante os anos vinte ou cinquenta do século xx
em vez de em períodos posteriores. Não temos consciência desta influência
crítica porque está demasiado próxima de nós para a podermos observar. Claro
que o nosso espírito individual também tem uma função a desempenhar neste drama,
e na medida em que podemos cultivar a nossa singularidade, iremos ganhar poder
e a capacidade de dirigir o zeitgeist. Mas é determinante reconhecemos
primeiro o papel dominante que a geração representa na nossa formação e de que
modo esta geração se enquadra num determinado padrão.
Em segundo, reparamos que as gerações só parecem capazes
de reagir e de avançar numa direção oposta à da geração anterior. Talvez seja
porque se forma uma perspectiva geracional na juventude, onde somos mais
inseguros e propensos a pensar a preto e branco. Um meio-termo, uma forma
equilibrada de escolher o que poderia ser bom ou mau nos valores e tendências
da geração anterior, parece contrário à nossa natureza coletiva.
Por outro lado,
este padrão oscilante tem um efeito salutar. Se uma geração simplesmente
avançasse com as tendências da anterior, provavelmente já nos teríamos
destruído há muito tempo. Imagine uma sucessão de gerações, na loucura dos anos
vinte ou sessenta, a continuarem com esse espírito e a prolongarem-no; ou uma
geração que sucedesse aos anos cinquenta mantendo-se igualmente conservadora e
conformista. Sufocar-nos-íamos com demasiada autoexpressão ou estagnação. O
padrão pode conduzir a desequilíbrios, mas também garante que nos
revitalizemos.
Por vezes, as mudanças
que são geradas num período revolucionário são bastante triviais e não duram
para lá desse ciclo. Mas é frequente, a partir de uma crise forte, uma
revolução criar algo que dure séculos e represente progresso em relação a
valores que são mais racionais e empáticos. Ao considerar este padrão
histórico, devemos reconhecer que parece corresponder a um espírito humano
geral que transcende qualquer período em particular e que nos permite continuar
a evoluir. Se, por algum motivo, o ciclo se interrompesse, estaríamos
condenados.
A sua
missão é tripla. Em primeiro lugar e
mais importante de tudo, deverá alterar a sua atitude face à sua própria
geração. Gostamos de imaginar que somos autónomos e que os nossos valores e
ideias vêm de dentro, não de fora, mas não é o caso. O objetivo é compreender o
melhor possível quão profundamente o espírito da sua geração e a época em que
vive influenciaram a forma como encara o mundo.
Geralmente somos
hipersensíveis quando se trata da nossa própria geração. A perspectiva formou-se
durante a infância, quando éramos mais vulneráveis, e a nossa ligação emocional
com os nossos pares formou-se desde logo. Muitas vezes ouvimos uma geração mais
velha ou mais nova criticar-nos e pomo-nos naturalmente na defensiva. No que
diz respeito aos defeitos ou desequilíbrios da própria geração, a tendência é
vê-las como virtudes. Por exemplo, se crescemos numa geração que era mais
temerosa e prudente, podemos evitar grandes responsabilidades, como ter uma
casa ou um carro, e interpretaremos este aspeto como um desejo de liberdade ou
de ajudar o ambiente, não procurando enfrentar os medos que realmente subjazem
a essa atitude.
Não podemos
compreender a nossa geração do mesmo modo que compreendemos um facto
científico, como as características de um organismo. Existe algo vivo dentro de
nós, e o entendimento do mesmo é marcado pelas nossas emoções e preconceitos. O
que deve fazer é tentar lidar com o problema sem fazer juízos de valor ou
moralizar e tornar-se tão objetivo quanto
humanamente
possível. A personalidade da sua geração não é nem positiva nem negativa; é
simplesmente uma excrescência do processo orgânico que foi descrito.
Considere-se uma
espécie de arqueólogo a escavar o seu próprio passado e o da sua geração,
procurando artefatos, observações que possa juntar de forma a obter uma imagem
do espírito subjacente. Quando analisar as suas memórias, tente fazê-lo com
algum distanciamento, mesmo quando se lembra das emoções que sentiu na altura.
Capte-se no processo inevitável de julgar a sua geração ou a seguinte pela
positiva ou pela negativa e liberte-se deles. Pode desenvolver essa capacidade
com a prática. Ao criar uma atitude desse tipo, desempenhará um papel
determinante no seu desenvolvimento. Com algum distanciamento e consciência,
pode tornar-se muito mais do que um seguidor ou do que um rebelde geracional;
pode moldar a sua relação com a zeitgeist e tornar-se um extraordinário
definidor de tendências.
A sua segunda tarefa consiste em criar uma espécie de perfil
da personalidade da sua geração, para que possa compreender o seu espírito no
presente e explorá-lo. Tenha em mente que existem sempre matizes e exceções.
Aquilo que procura são os traços comuns que assinalam o espírito geral.
Pode começar por
observar acontecimentos decisivos que ocorreram nos anos antes de entrar no
mundo do trabalho e que tenham desempenhado um papel determinante na formação
desta personalidade. Se este período compreender aproximadamente vinte e dois
anos, muitas vezes há mais de um único acontecimento decisivo para esse
período. Por exemplo, para as pessoas que atingiram a maioridade durante os
anos trinta do século xx, houve a Depressão e depois o advento da Segunda
Guerra Mundial. Para os baby boomers norte-americanos, a Guerra do Vietname e,
mais tarde, o caso Watergate e os escândalos políticos do início dos anos
setenta.
A Geração X estava
na infância durante a revolução sexual e na adolescência na altura em que as
crianças ficavam sozinhas em casa porque os pais estavam a trabalhar. Para a
Geração Milénio, houve o 11 de setembro e depois o crash financeiro de 2008.
Dependendo do seu enquadramento, ambos o irão influenciar, mas uma mais do que
a outra, visto que ocorre mais perto dos anos de formação entre os dez e os
dezoito, quando está a ganhar consciência do mundo mais lato e a desenvolver
valores essenciais.
Por vezes, como
aconteceu nos anos cinquenta do século xx, pode haver períodos de estabilidade
relativa, a raiar a estagnação. Isto também terá um efeito poderoso, tendo em
conta a inquietude da mente humana, especialmente entre os jovens, que acabarão
por ansiar por aventura e por agitar as coisas. Tenha também em conta nesta
equação quaisquer avanços tecnológicos ou invenções importantes que alterem o
modo como as pessoas interagem.
Procure projetar as
ramificações destes acontecimentos decisivos. Preste especial atenção ao efeito
que podem ter exercido no padrão de socialização que irá caracterizar a sua
geração. Se o acontecimento tiver sido uma crise importante de algum tipo, isso
tenderá a fazer que os elementos da sua geração se unam em busca de conforto e
de segurança, valorizando a equipa e sentimentos de amor e tornando-se
alérgicos ao confronto. Um período de estabilidade e sem ocorrências irá
fazê-lo procurar os outros em busca de aventura, de experiências coletivas, por
vezes raiando a imprudência. De modo geral, tenderá a notar o estilo
socializador dos seus pares, muito evidente na casa dos vinte. Procure a origem
deste fenómeno.
Estes
acontecimentos mais latos terão um efeito na forma como encara o sucesso e o
dinheiro e se valoriza o estatuto e a saúde ou valores menos materiais, como a
criatividade e a expressão pessoal. O modo como os elementos da sua geração
encaram o fracasso num projeto ou na carreira será bastante revelador — é um
sinal de vergonha ou considerado parte do processo empresarial e inclusivamente
uma experiência positiva? Pode avaliá-lo igualmente pelos anos em que entrou no
mundo do trabalho — sentiu logo a pressão de começar a fazer dinheiro ou tratou-se
de uma altura que reservou para explorar o mundo, viver aventuras e depois
assentar, por volta dos trinta?
Ao definir este
perfil, analise o estilo de parentalidade das pessoas que o criaram permissivo,
demasiado controlador, negligente ou compassivo? O famoso estilo permissivo das
pessoas que educaram crianças nos anos noventa do século XIX ajudou a
desenvolver a atitude selvagem e despreocupada da geração perdida dos anos
vinte do século xx. Os pais que foram profundamente afetados pelos anos sessenta
do século xx muitas vezes acabaram por ser bastante egocêntricos e um pouco
negligentes em relação aos filhos, que não podiam evitar sentir-se um pouco
alienados e mesmo revoltados pelo facto. Pais que sejam superprotetores
moldarão uma geração que receia sair da sua zona de conforto. Estes estilos de
Parentalidade surgem por vagas. As crianças que foram superprotegidas
normalmente não se tornam pais controladores. Os seus próprios pais podem ter
sido uma exceção ao estilo predominante, mas irá verificar uma marca de
personalidade nos seus pares que se tornará muito evidente, durante a
adolescência e o início da casa dos vinte.
Preste muita
atenção aos heróis e ícones de uma geração, aqueles que exibem as qualidades
que outros secretamente também desejavam possuir. São muitas vezes os
indivíduos que se tornam famosos na cultura jovem - os rebeldes, os empresários
de sucesso, os gurus, os ativistas. Indicam novos valores emergentes. Do mesmo
modo, observe as tendências e modas que passaram subitamente pela sua geração,
por exemplo, a popularidade imediata da moeda virtual. Não leve estas
tendências à letra, mas procure o espírito subjacente, a atração inconsciente
por certos valores ou ideais que revelam. Nada é demasiado trivial para esta
análise. Como um indivíduo, qualquer geração tenderá a ter um lado inconsciente
e sombrio na sua personalidade. Pode encontrar um bom sinal deste aspeto no
estilo de humor particular que cada geração tende a desenvolver. No humor, as
pessoas libertam frustrações e expressam inibições. Esse humor pode tender para
o irracional ou para algo mais tenso e até agressivo. Uma geração pode parecer
bastante pudica e correta, mas ter um humor obsceno e irreverente. E o lado
sombrio a espreitar.
No âmbito deste
estudo, observe a relação entre géneros na sua geração. Nos anos vinte e trinta
do século xx, os homens e as mulheres estavam a tentar atenuar as suas
diferenças, socializar em grupos mistos, o máximo possível. Os ícones
masculinos eram muitas vezes bastante femininos, como Rudolph Valentino; e os
ícones femininos tinham um toque masculino ou andrógino pronunciado, como
Marlene Dietrich e Josephine Baker. Compare-o com os anos cinquenta do século
xx e com o fosso súbito e bastante forte entre os géneros, revelando um
desconforto inconsciente com as tendências que procuravam aproximar os géneros
que todos sentimos e um corte com as mesmas.
Ao observar este
lado sombrio da sua geração, tenha em mente que a sua tendência para um extremo
- materialismo, espiritualidade, aventura, segurança - esconde uma atração
subjacente pelo contrário. Uma geração como a que chegou à maioridade nos anos
sessenta do século xx parecia desinteressada das coisas materiais. Os seus
principais valores eram espirituais e interiores, sendo os seus elementos
espontâneos e considerados autênticos, tudo em reação a pais materialistas.
Mas, por detrás deste espírito, podemos detectar uma atração secreta pelo lado
material da vida, no desejo de ter sempre o melhor de algo - as melhores
aparelhagens, drogas de qualidade, a roupa mais na moda. Esta atração foi
revelada em toda a sua verdade durante os anos yuppie, entre finais da década
de setenta e início da de oitenta do século xx.
Com todo este
conhecimento acumulado, pode começar a formar um perfil geral da sua geração,
que seja tão complexo e orgânico como o fenómeno em si.
A sua terceira tarefa será, então, alargar este conhecimento
a algo mais lato, procurando primeiro reconstituir o que pode ser considerado a
zeitgeist. Neste sentido, procurará especialmente a relação entre as
duas gerações dominantes, os adultos (jovens com idades compreendidas entre os
vinte e dois e os quarenta e anos) e os que se encontram na meia-idade
(quarenta e cinco a sessenta e seis). Independentemente de quão próximos os
pais e os filhos destas gerações possam parecer, existe sempre uma tensão
subjacente, juntamente com algum ressentimento e inveja. Existem diferenças
naturais entre os seus valores e a forma como olham para o mundo. Analise esta
tensão e determine que geração tende a dominar e de que forma esta dinâmica de
poder poderá estar a mudar no presente. Verifique também em que parte do padrão
histórico mais lato a sua geração se poderá enquadrar.
Esta consciência
geral terá várias vantagens importantes. Por exemplo, a sua perspetiva
geracional tende a criar um tipo especial de miopia. Cada geração tende para
algum desequilíbrio, na medida em que reage à anterior. Perspectiva e valia tudo
de acordo com certos princípios que privilegia em detrimento de outros, o que
fecha a mente a outras possibilidades. Podemos ser simultaneamente realistas e
pragmáticos, valorizar o trabalho de equipa e o nosso espírito individual, etc.
Há muito a ganhar quando se olha para o mundo pela perspectiva dos nossos pais
ou dos nossos filhos e até adotando alguns dos seus valores. Sentir que a nossa
geração é superior é simplesmente uma ilusão. A consciência libertá-lo-á destes
bloqueios e ilusões mentais, tornando-lhe o espírito mais fluido e criativo.
Será capaz de moldar os seus próprios valores e ideias e não ser tanto um
produto dos tempos.
Com a sua
consciência do zeitgeist geral, também compreenderá o contexto
histórico. Ficará com uma noção da direção que o mundo está a seguir. Pode
antecipar o que está ao virar da esquina. Com tal conhecimento, pode usar o seu
próprio espírito e ajudar a moldar este futuro que se está a gerar no presente.
Sentir-se
profundamente ligado à cadeia não interrompida da história, compreendendo o seu
papel neste grande drama histórico, irá infundir-lhe uma calma que tornará tudo
na sua vida mais suportável. Deixará de reagir excessivamente às agressões
diárias, nunca mais se permitirá enlouquecer com a última moda. Terá
consciência do padrão que tenderá a fazer oscilar as coisas num sentido
diferente dentro de um determinado período. Se se sentir em desarmonia com a
sua época, saberá que os dias maus irão acabar e que pode representar o seu
papel na concretização da nova vaga.
Tenha em mente que
é mais importante do que nunca possuir este conhecimento, por dois motivos. Em primeiro lugar, apesar dos sentimentos anti globais
que grassam pelo mundo, a tecnologia e as redes sociais unificaram-se de formas
inalteráveis. Isto significa que as pessoas de uma geração muitas vezes têm
mais em comum com as da mesma geração noutras culturas do que com gerações mais
velhas no seu próprio país, este estado de coisas sem precedentes significa que
o zeitgeist é mais diretamente globalizado do que nunca, tornando o
conhecimento do mesmo igualmente essencial e poderoso.
Em segundo lugar, por causa destas mudanças drásticas
iniciadas por inovações tecnológicas, o ritmo acelerou, criando uma dinâmica
autorrealizada. Os jovens sentem-se quase dependentes deste ritmo e anseiam por
mais mudanças, ainda que estas sejam de natureza trivial. Com este ritmo em
aceleração, há mais crises, o que se limita a tornar o processo mais rápido.
Este ritmo tenderá a deixá-lo tonto e a fazê-lo perder a perspetiva. Poderá
imaginar um desvio banal como inovador e assim ignorar a mudança
verdadeiramente inovadora que se encontra em curso. Não será capaz de a
acompanhar, quanto mais de antecipar o que poderá seguir-se. Apenas a sua consciência
geracional, uma perspectiva histórica tranquila, lhe permitirá dominar esses
tempos.
Estratégias para explorar
o espírito da época
Para tirar o maior
partido do zeitgeist, deve começar com uma premissa simples: é o produto
dos tempos, como qualquer outra pessoa; a geração em que nasceu moldou os seus
pensamentos e valores, quer tenha consciência disso ou não. E, portanto, se
sentir alguma frustração bem dentro de si com a forma como as coisas estão no
mundo ou com a geração mais velha ou se sentir que falta algo na cultura, quase
pode ter a certeza de que as outras pessoas da sua geração se sentem da mesma
maneira. E, se for a pessoa que age em consonância com este sentimento, o seu
trabalho ecoará pela sua geração e ajudará a moldar o zeitgeist. Com este
aspeto em mente, terá de pôr em prática algumas ou todas as estratégias que se
seguem.
Lute contra o
passado. Poderá sentir uma necessidade profunda de criar algo e mais relevante
para a sua geração, mas o passado exercerá quase sempre uma grande influência
sobre si, sob a forma de valores dos seus pais que interiorizou em tenra idade.
Inevitavelmente, sentir-se-á um pouco receoso e indeciso. Por esse motivo,
poderá hesitar em reprimir aquilo que faz ou expressa, e o seu desafio ao modo
de fazer as coisas no passado tenderá a ser bastante tépido.
Em vez disso, deve
forçar-se a agir no sentido contrário, use o passado e os seus valores ou
ideias como algo a contrariar com grande intensidade, usando toda a raiva que
possa sentir para o ajudar. Torne o seu corte com o passado tão claro quanto
possível. Expresse o que for tabu; destrua as convenções a que a geração mais
velha adere. Tudo isto irá entusiasmar e captar a atenção de pessoas da sua
geração, muitas das quais irão desejar segui-lo.
Foi por ser tão
ousado e desafiador face à geração anterior que o conde de Essex personificou o
espírito novo e confiante da Inglaterra pós-armada e se tornou o menino querido
da sua geração (consulte o capítulo 15 para mais informações sobre este
assunto). Danton ganhou poder em virtude do alcance com que desafia a monarquia
e fomentava a república. Nos anos vinte do século xx, a dançarina
afro-americana Josephine Baker veio ilustrar o novo espírito de espontaneidade
entre a geração perdida, tornando as suas atuações o mais livres e chocantes
possível. Ao cortar tão profundamente com as imagens passadas de
primeiras-damas anteriores e com os seus modos normalmente recatados,
Jacqueline Kennedy tornou-se o ícone do novo espírito do início da década de
sessenta do século xx. Se for mais longe neste sentido, provocará o choque
apresentando algo novo e desencadeará desejo entre outros que estão apenas à
espera de se revelar.
Adapte
o passado ao espírito presente. Quando
identificar a essência do zeitgeist, será muitas vezes uma estratégia prudente
encontrar algum momento ou período da história semelhante. As frustrações e
rebeliões da sua geração foram decerto sentidas a certo ponto por alguma
geração anterior e expressas de forma dramática. Os líderes dessas gerações
passadas ecoam pela história e assumem uma espécie de matiz mítico, à medida
que o tempo passa. Ao associar-se a essas figuras ou épocas, pode conferir um
peso adicional a qualquer movimento ou inovação que esteja a promover. Use em
alguns dos símbolos e estilos carregados emocionalmente desse período histórico
e adapte-os, dando a impressão de que aquilo que está a tentar no presente é
uma versão mais perfeita e progressiva do que aconteceu no passado.
Ao fazê-lo, pense
em grande, em termos míticos. Danton associou-se a Cícero, cujos discursos e
ações a favor da República romana e contra a tirania encontravam eco natural
entre o povo francês e davam à missão de Danton o peso adicional do passado
mais remoto. O realizador de cinema Akira Kurosawa devolve à vida o mundo do
guerreiro samurai, tão celebrado na cultura japonesa, mas recriado de forma a
poder realizar comentários judicativos sobre questões e perspectivas do Japão do
pós-guerra. Quando estava a concorrer para presidente, John F. Kennedy queria
proclamar um novo espírito americano que ultrapassava a insipidez dos anos
cinquenta do século xx. Designou os programas que iria iniciar por a Nova
Fronteira, associando as suas ideias ao espírito pioneiro tão reverencialmente enraizado
na psique norte-americana. Esta imagística tornou-se uma componente poderosa do
seu poder de persuasão.
Ressuscite
o espírito da infância. Ao
recuperar o espírito dos seus primeiros anos de vida - o seu humor, os seus
acontecimentos históricos determinantes, os estilos e produtos da altura, o
clima vivido, tal como o afetou - alcançará um público vasto, composto por
todos os que viveram esses anos de forma Semelhante. Foi um período da vida com
grande intensidade emocional e, ao recriá-lo de alguma forma, mas refletido
através dos olhos de um adulto, o seu trabalho causará impacto nos seus pares.
Só deverá usar esta estratégia se sentir uma ligação especialmente forte com a
sua infância. Caso contrário, a sua tentativa de recriar o seu espírito
parecerá insossa e forçada.
Tenha em mente que
não procura uma recriação literal do passado, mas captar o seu espírito. Para
ter verdadeiro impacto, deverá criar uma ligação com uma questão ou problema do
presente e não cair simplesmente num pouco de nostalgia Irracional. Se estiver
a inventar alguma coisa, tente atualizar e incorporar os estilos desse período
da infância de uma forma subtil, explorando a atracão inconsciente que sentimos
por essa fase inicial da vida.
Crie a
nova configuração social. E natural
para os seres humanos ansiarem por mais interação social com aqueles com quem
sentem afinidade. Obterá sempre muito poder ao criar uma forma de interagir que
apele à sua geração. Organize um grupo em torno de ideias ou valores novos que
andem no ar ou da nova tecnologia que lhe permita juntar pessoas que pensem da
mesma maneira de uma forma nova. Elimine os intermediários que costumavam
definir barreiras que impediam associações mais livres de pessoas. Nesta forma
de agrupamento, é sempre prudente introduzir alguns rituais que liguem os seus
elementos e alguns símbolos que os identifiquem.
Vemos muitos
exemplos disto no passado os salões do século XVII em França, onde homens e
mulheres podiam falar de forma livre e aberta; as lojas dos mações no século
XVIII, na Europa, com os seus rituais secretos e ar de subversão; os bares
clandestinos e clubes de jazz dos anos vinte do século xx, onde o espírito era
«vale tudo»; ou, mais recentemente, plataformas e grupos online ou flash mobs.
Ao usar esta estratégia, pense nos elementos repressivos do passado dos quais
as pessoas anseiam por se libertar. Pode ser um período de correção ou de
puritanismo embrutecedores, de conformismo feroz ou a sobrevalorização do
individualismo e de todo o egoísmo que grassa. O grupo que fundou permitirá o
florescimento de um novo espírito e oferecerá ainda a excitação de destruir os
tabus passados sobre o que é correto.
Subverta
o espírito. Poderá
descobrir que se encontra desajustado de uma parte do espírito da sua geração
ou da época em que vive. Talvez se identifique com alguma tradição do passado
que tenha sido substituída ou os seus valores difiram de alguma forma devido ao
seu temperamento individual. Seja qual for o motivo, nunca é sensato
repreender, moralizar ou condenar o espírito do seu tempo. Não fará mais do que
marginalizar-se. Se o espírito da época for como uma vaga ou corrente, é
preferível arranjar maneira de o redirecionar suavemente, em vez de ir contra o
seu fluxo. Terá mais poder e impacto trabalhando com o zeitgeist e
subvertendo-o.
Por exemplo, crie
alguma coisa um livro, um filme, um produto que tenha o aspeto e o toque do seu
tempo, mesmo que a um nível exagerado. No entanto, através do conteúdo do que
produz, insira ideias e um espírito que sejam um pouco diferentes, que apontem para
o valor do passado, que prefere, ou que pinte outra forma possível de interagir
com os acontecimentos e de os interpretar, ajudando a soltar a estrutura
geracional rígida através da qual as pessoas veem o mundo.
Depois da Segunda
Guerra Mundial, grandes criadores de moda europeus sentiam um grande desprezo
pelo mercado norte-americano que então dominava o mundo. Não gostavam da
cultura popular emergente e da sua vulgaridade. A criadora de moda Coco Chanel
sempre enfatizou a elegância nas suas criações e partilhava decerto alguma
desta antipatia. Mas foi no sentido contrário de outros criadores da altura:
aceitou o novo poder das mulheres norte-americanas e satisfez o seu desejo de
roupas que fossem menos complicadas e mais atléticas. Ganhando a sua confiança
e usando a sua linguagem, Chanel tinha agora a capacidade de alterar os gostos
norte-americanos, investindo mais da sua verdadeira sensibilidade e conferindo
alguma elegância aos modelos mais depurados de que as mulheres norte-americanas
gostavam. Desta forma, ajudou a redirecionar o zeitgeist na moda, antecipando
as mudanças do início dos anos sessenta do século xx. E o poder que decorre de
trabalhar com o espírito em vez de contra o mesmo.
Continue
a adaptar-se. Foi
durante a juventude que a sua geração desenvolveu um espírito específico, um
período de intensidade emocional que muitas vezes recordamos com carinho. O
problema que enfrenta é que, à medida que envelhece, tende a permanecer fechado
nos valores, ideias e estilos que marcaram este período. Torna-se uma espécie
de caricatura do passado para os que são mais novos. Permite que o seu
pensamento pare de evoluir. O presente deixa-o para trás, o que o leva apenas a
agarrar-se mais firmemente ao passado como a sua única âncora. E, enquanto
envelhece e cada vez mais jovens ocupam o espaço da ribalta, o seu público
reduz-se.
Não é que deva
abandonar o espírito que o marcou, uma tarefa seja como for impossível. Tentar
imitar os estilos da geração mais nova fá-lo-á apenas parecer ridículo e falso.
Procure antes modernizar o seu espírito, adotar possivelmente alguns dos
valores e ideias da geração mais nova que o atraem, ganhando um público novo e
mais alargado ao cruzar a sua experiência e perspectiva com as mudanças em curso
e tornando-se um híbrido invulgar e atrativo.
Para o realizador
de cinema Alfred Hitchcock, a década que moldou a sua pessoa e o seu trabalho
foi a dos anos vinte do século xx, quando entrou na indústria e se tornou
realizador. O que mais importava nos filmes mudos era aperfeiçoar a linguagem
visual de modo a contar uma história. Hitchcock dominava a arte de usar os
ângulos da câmara e o movimento para levar o público a sentir-se como se
estivesse no meio do enredo.
Nunca abandonou a
sua obsessão pela linguagem visual ao longo das seis décadas em que trabalhou
como realizador, mas adaptou constantemente o seu estilo — aos espetáculos a
cores tão na moda nos anos cinquenta e aos thrillers e filmes de horror
populares nos anos sessenta e setenta. Ao contrário de outros realizadores de
cinema que iam envelhecendo, que saíam completamente de moda ou que
simplesmente tentavam imitar o estilo presente, Hitchcock criou um híbrido do
passado e do presente. O facto conferiu aos seus filmes uma imensa
profundidade, visto que integrara todas as adaptações desde o início da sua
carreira. Os seus filmes apelariam às massas, mas eram únicos devido a estas
camadas de inovação encastradas no filme. Tal profundidade terá sempre um
efeito perturbador em qualquer público, visto que o trabalho parecerá ir para
lá do próprio tempo.
O ser humano para lá do
tempo e da morte
Os seres humanos
são especialistas em transformar tudo aquilo em que tocam. Transformámos
completamente o ambiente do planeta Terra de modo a adaptá-lo aos nossos
propósitos. Evoluímos de uma espécie fisicamente fraca para o animal social
predominante e mais poderoso, alargando e reprogramando de forma eficiente os
nossos cérebros nesse processo. Somos irrequietos e extremamente inventivos.
Mas uma área parece desafiar as nossas capacidades transformadoras — o próprio
tempo. Nascemos e entrámos na corrente da vida, e cada dia nos aproxima mais da
morte. O tempo é linear, avançando sempre, e não há nada que possamos fazer
para impedir o seu progresso.
Passamos pelas
várias fases da vida, que nos marcam de acordo com padrões que escapam ao nosso
controlo. Os nossos corpos e mentes abrandam e perdem a elasticidade da
juventude. Assistimos, impotentes, enquanto cada vez mais jovens preenchem o
palco da vida, pondo-nos de lado. Nascemos num período da história e numa
geração que não foram escolha nossa e que parecem determinar muito de quem
somos e do que nos acontece. Em relação ao tempo, a nossa natureza ativa é
neutralizada, e, embora não o registemos conscientemente, a nossa impotência' neste
campo, esta é a fonte de grande ansiedade e surtos de depressão.
No entanto, se
observarmos mais atentamente a nossa experiência pessoal do tempo, podemos
reparar em algo singular a passagem das horas ou dos dias pode mudar dependendo
do nosso espírito e circunstâncias. Uma criança e um adulto vivem o tempo de
forma muito diferente - para a primeira, este avança bastante devagar, e
demasiado depressa para o último. Quando estamos aborrecidos, o tempo parece
vazio e arrasta-se; quando estamos entusiasmados e a divertir-nos, desejamos
que abrande. Quando estamos calmos e meditativos, o tempo pode passar
lentamente, mas parece preenchido e satisfatório.
O que isto
significa, de modo geral, é que o tempo é uma criação humana, uma forma de
medirmos a sua passagem tendo em vista os nossos objetivos, e a nossa
experiência desta criação artificial é bastante subjetiva e mutável. Temos a
capacidade de o abrandar ou acelerar conscientemente. A nossa relação com o
tempo é mais maleável do que pensamos. Embora não possamos deter o processo de
envelhecimento ou desafiar a realidade derradeira que é a morte, podemos
alterar a experiência dos mesmos, transformando o que é doloroso e depressivo
em algo muito diferente. Podemos permitir que o tempo pareça mais cíclico do que
linear; podemos sair da corrente e experimentar formas de intemporalidade. Não
temos de permanecer fechados na nossa geração e na sua perspetiva.
Embora isto possa
parecer uma ilusão, é possível apontar várias figuras históricas - Leonardo da
Vinci e Johann Wolfgang von Goethe, para referir apenas duas - que
conscientemente transcenderam a sua época e descreveram a sua experiência do
tempo. Trata-se de um ideal, de um ideal que a natureza permite e que vale bem
a pena tentar realizar de alguma forma.
Eis como poderíamos
aplicar esta abordagem ativa a quatro aspetos elementares do tempo.
As
fases da vida: A medida
que atravessamos as várias fases da vida -juventude, idade adulta inicial,
meia-idade e velhice - repare-se em algumas mudanças comuns em nós. Na
juventude, vivemos a vida mais intensamente. Somos mais emotivos e vulneráveis.
A maior parte das pessoas tende a concentrar-se no exterior, preocupando-se com
o que as pessoas possam pensar de nós e com o modo como nos encaixamos, somos
mais gregários, propensos a exibir um comportamento mais disparatado e
sobranceiro.
A medida que
envelhecemos, a intensidade diminui, as nossas mentes tendem a endurecer em
torno de certas ideias e crenças convencionais. Começamos lentamente a ficar
menos preocupados com o que as pessoas pensam de nós e, portanto, mais voltados
para dentro. O que por vezes ganhamos nestas fases mais tardias é algum
distanciamento da vida, algum autocontrolo e talvez a sabedoria que decorre de
experiências acumuladas.
No entanto, temos o
poder de abandonar ou mitigar as qualidades negativas que muitas vezes
acompanham certas etapas da existência, definindo de certa forma o próprio
processo de envelhecimento. Por exemplo, quando somos novos, podemos fazer
questão de reduzir a influência do grupo sobre nós e de não nos fixarmos tanto
no que os outros estão a pensar e a fazer. Podemos voltar-nos mais para dentro,
mais em harmonia com a nossa singularidade (consulte o capítulo 13 para mais
informação sobre este assunto). Podemos desenvolver conscientemente esse
distanciamento interior que surge naturalmente com os anos, pensar mais
profundamente sobre as nossas experiências, aprender lições com as mesmas e
desenvolver uma sabedoria prematura.
Ao envelhecer,
podemos tentar manter as qualidades positivas da juventude que muitas vezes se
esbatem com os anos. Por exemplo, podemos recuperar alguma da curiosidade
natural que tínhamos em criança ao abandonar alguma da presunção e da atitude
arrogante que muitas vezes se apodera de nós quando nos tornamos mais velhos.
Continuamos a olhar para o mundo através de uma perspetiva fresca, questionando
os seus valores e preconceitos, tornando as nossas mentes mais fluidas e
criativas no processo. Como parte do mesmo, podemos aprender uma nova competência
ou estudar uma nova área que nos devolva à alegria que em tempos sentimos ao
aprender algo desconhecido. Também podemos meditar sobre as experiências mais
intensas da juventude, devolvendo-nos a esses momentos através da imaginação e
religando-nos mais profundamente ao que éramos. Conseguiremos sentir essa
intensidade da juventude regressar a certo ponto às nossas experiências
presentes.
Parte do motivo
pelo qual nos tornamos menos gregários com os anos é o facto de nos tornarmos
judicativos e intolerantes face às excentricidades das pessoas, o que não
melhora a nossa experiência de vida. Podemos alterá-lo bem como tentar
compreender a natureza humana mais profundamente e aceitar as pessoas tal como
são.
O envelhecimento
tem uma componente psicológica e pode ser uma profecia autorrealizada dizemos
para nós próprios que estamos a abrandar e que não conseguimos fazer ou tentar
tanto quanto no passado. Ao agirmos em função destes pensamentos,
intensificamos o processo de envelhecimento, o que nos deixa deprimidos e
atreitos a abrandar ainda mais. Podemos ver ícones no passado, como Benjamin
Franklin, que iam no sentido contrário, desafiando constantemente a sua mente e
corpo à medida que envelheciam e que, para todos os efeitos, conservavam a mais
deliciosa disposição infantil e jovial, quando já muito passavam dos setenta e
oitenta.
Gerações
presentes: O seu
objetivo deverá ser menos um produto do seu tempo e ganhar a capacidade de
transformar a forma como se relaciona com a sua geração. Uma solução para o
fazer reside em associações ativas com pessoas de
diferentes
gerações. Se for mais novo, tentará interagir mais com as gerações mais velhas.
Pode cultivar algumas delas, que parecem ter um espírito com que se pode
identificar, como mentores e modelos. Com outras poderá relacionar-se como
faria com os seus pares - não se sentindo superior ou inferior, mas prestando
atenção aos seus valores, ideias e perspetivas e ajudando a esconder os seus.
Se for mais velho,
inverterá este processo interagindo ativamente com as pessoas de uma geração
mais nova, não como um pai ou figura de autoridade, mas como seu igual.
Permitir-se-á assimilar o seu espírito, a sua forma diferente de pensar e o seu
entusiasmo. Aborde-os com a ideia de que têm algo a ensinar-lhe. Ao interagir a
um nível mais autêntico com estas gerações diferentes, estará a criar um laço
único - o das pessoas que estão vivas no mesmo momento da história. Isto irá
apenas aumentar o seu domínio do zeitgeist.
Gerações
passadas: Quando
pensamos na história, tendemos a fazer do passado uma espécie de caricatura
morta e sem alma. Talvez nos sintamos cheios de nós e superiores a épocas
passadas e por isso concentramo-nos nos aspetos da história que indicam ideias
e valores retrógrados (não nos apercebendo de que as gerações futuras nos farão
o mesmo), vendo o que queremos ver. Ou então projetamos no passado as ideias e
valores do presente, não muito relacionadas com o modo como as pessoas do
passado viviam o mundo. Esgotamos a sua própria perspetiva geracional, algo que
vemos de forma óbvia em versões filmadas da história, em que as pessoas falam e
agem tal como nós, só que disfarçadas. Ou ignoramos simplesmente a história,
imaginando que não tem relevância para a nossa experiência presente.
Temos de nos
libertar destas noções e hábitos absurdos. Não somos tão superiores como os
indivíduos do passado, como gostamos de imaginar (consultar capítulos
anteriores sobre irracionalidade, falta de visão, inveja, grandiosidade,
conformismo e agressão). Há momentos culturais na história que são superiores
aos nossos quando se trata de democracia participante, de pensamento criativo
ou de animação cultural. Há períodos do passado em que as pessoas tinham um
domínio mais profundo da psicologia humana e um realismo estimulante que nos
fazia parecer bastante defraudados, em comparação. Embora a natureza humana
permaneça constante, as pessoas do passado enfrentavam circunstâncias
diferentes, com níveis diferentes de tecnologia, e tinham valores e crenças
bastante diferentes dos nossos, mas não necessariamente inferiores. Tinham os
valores que refletiam a as suas diferentes circunstâncias, e também nós os
teríamos partilhado.
No entanto, mais
importante de tudo, devemos compreender que o passado não está de todo morto.
Não surgimos na vida como páginas em branco, divorciados de milhões de anos de
evolução. Tudo o que pensamos e vivemos, os nossos pensamentos e crenças mais
íntimos, são moldados pelas batalhas de gerações aquilo que criamos e com que
contribuímos para a sociedade, pode exercer ainda mais poder e tornar-se parte
de uma estratégia consciente de comunicar com as pessoas do futuro e de as
influenciar. Pensar desta forma pode realmente alterar o que dizemos ou o que
fazemos.
Leonardo da Vinci
seguiu certamente esta estratégia. Tentou constantemente antecipar como poderia
ser o futuro, viver nele através da sua imaginação. Podemos ver provas disto
nos seus desenhos de invenções que talvez existam no presente, algumas das
quais, como as máquinas voadoras, tentou realmente criar. Também pensou
profundamente nos valores que as pessoas poderiam ter no futuro e que ainda não
existiam no tempo em que viveu. Por exemplo, sentia uma afinidade profunda com
os animais e via-os como seres possuidores de uma alma, uma crença de que
praticamente nunca se ouvira falar na altura. Isso levou-o a tornar-se
vegetariano e a andar a soltar pássaros engaiolados pelo mercado. Via toda a
natureza como uma só, incluindo os seres humanos, e imaginou um futuro em que
essa crença seria partilhada.
A grande feminista,
filósofa e romancista Mary Wollstonecraft (1759—1797) acreditava que os seres
humanos podem realmente criar o futuro através da forma como imaginam o
presente. Para ela, na sua breve vida, grande parte desta ideia decorreu do
facto de imaginar um futuro em que os direitos das mulheres e, mais importante,
as suas capacidades de raciocínio teriam o mesmo peso que os dos homens. Pensar
nestes termos teve de facto uma profunda influência no futuro.
Talvez um dos
exemplos mais perturbadores deste fenómeno seja o de Johann Wolfgang von Goethe
(1749—1832), cientista, romancista e filósofo. Aspirava a um tipo de
conhecimento universal, semelhante ao de Leonardo, em que tentou dominar todas
as formas de inteligência humana, mergulhar em todos os períodos da história e
dessa forma ser capaz não só de ver o futuro, mas de estar em comunhão com os
seus habitantes. Conseguiu antecipar a teoria da evolução décadas antes de
Darwin. Anteviu muitas das principais tendências políticas dos séculos xix e
xx, incluindo a eventual unificação da Europa depois da Segunda Guerra Mundial.
Imaginou muitos dos avanços da tecnologia e os efeitos que estes poderiam ter
no nosso espírito. Foi alguém que tentou ativamente viver fora do seu tempo, e
as suas capacidades proféticas eram lendárias entre os seus amigos.
Finalmente, por
vezes podemos sentir que nascemos no período errado da história, em desarmonia
com o tempo. E, no entanto, estamos fechados neste momento e temos de viver
nele. Se for o caso, esta estratégia da imortalidade pode trazer-nos algum
alívio. Estamos conscientes dos ciclos da história, do modo como o Pêndulo irá
balançar e de que os tempos irão mudar, talvez depois de termos morrido, desta
forma, podemos olhar para o futuro e sentir alguma ligação com aqueles que
vivem muito para lá deste terrível momento. Podemos apelar a eles, torná-los
parte do nosso público. Um dia lerão sobre nós ou as nossas palavras, e a
ligação irá nos dois sentidos, assinalando esta capacidade humana suprema de
ultrapassar o tempo e a finalidade da própria morte.
Os defeitos de
um homem decorrem da sua época; as suas virtudes e excelência pertencem a ele
próprio.
—Johann Wolfgang
von Goethe
