# 16 A Lei da Agressão– 16/18 Robert Greene

 

 

À superfície, as pessoas que o rodeiam parecem muito educadas e civilizadas. Mas, por detrás da máscara, lidam inevitavelmente com frustrações. Precisam de influenciar pessoas e de ganhar controlo sobre as circunstâncias. Sentindo-se bloqueadas nas suas iniciativas, muitas vezes tentam afirmar-se deformas manipuladoras, que o apanham de surpresa São aqueles cuja necessidade de poder e impaciência em o alcançar são maiores do que as de outros. Tornam-se especialmente agressivos, conseguindo o que desejam pela intimidação de quem os rodeia, revelando-se incansáveis e prontos a fazer quase tudo. Deverá transformar-se num observador superior dos desejos agressivos insatisfeitos das pessoas, prestando especial atenção aos agressores crónicos e aos agressores passivos que o rodeiam, deverá reconhecer os sinais — os padrões de comportamento do passado, a necessidade obsessiva de controlar tudo no seu meio - que anuncia os tipos perigosos. Estes vivem para o deixar num estado emocional - receoso, zangado- tão exacerbado que se torna incapaz de pensar racionalmente. Não lhes confira este poder. Quando se trata da sua própria energia agressiva, aprenda a domá-la e a canalizá-la para objetivos produtivos defenda-se a si mesmo, enfrentando os problemas com uma energia implacável e concretizando grandes ambições.

 

Interpretação da história de John D Rockefeller: A história da subida de John D. Rockefeller ao poder deve ser considerada como uma das mais notáveis da humanidade. Num período relativamente curto (cerca de vinte anos), ascendeu do ponto mais baixo da sociedade (a família conhecera períodos de pobreza) para se tornar o fundador e proprietário da maior empresa da América e para, pouco depois, surgir como o homem mais rico do mundo. No processo, como tantas vezes acontece nestes casos, a sua história envolveu-se em todo o tipo de mitos. Era ora um demónio ora um deus do capitalismo. Mas, perdida em todas estas respostas emocionais, está a resposta a uma pergunta simples: Como conseguiu um homem com escassa ajuda acumular tanto poder em tão pouco tempo?

Se o analisarmos profundamente, teremos de concluir que não foi através de uma inteligência suprema, de um talento particular ou de uma visão criativa. Tinha algumas destas qualidades, mas nada de suficientemente forte que justificasse o seu extraordinário sucesso. Na verdade, aquilo a que o podemos atribuir mais do que tudo é à força de vontade incansável que possuía para dominar completamente cada situação e rival que encontrava e para explorar cada oportunidade com que se cruzava. Iremos chamar-lhe energia agressiva. Essa energia pode ter objetivos produtivos e decerto Rockefeller realizou alguns feitos que beneficiaram a sociedade do seu tempo. Mas, como tantas vezes acontece com pessoas altamente agressivas, esta energia levou-o a monopolizar praticamente todo o poder numa indústria complexa. Fê-lo eliminar todos os rivais e qualquer possível concorrência, vergar as leis em seu benefício, estandardizar todas as práticas de acordo com os seus desejos e, no fim, reduzir a inovação no campo.

Vamos afastar a história de Rockefeller das respostas emocionais habituais e olhar simplesmente para ele de forma desapaixonada, como um espécime que nos ajuda a compreender a natureza de indivíduos altamente agressivos e que consegue que grandes multidões se submetam à sua vontade. Desta forma, também podemos aprender algumas lições valiosas sobre a natureza humana e a forma de começar a contrariar quem atua constantemente para monopolizar o poder, muitas vezes em detrimento de todas as outras pessoas.

Rockefeller cresceu em circunstâncias particulares. O pai, William, foi um vigarista conhecido. E, desde o início, o pai definiu um padrão bastante desagradável para a família: deixava a mulher, Eliza, e quatro filhos (sendo John o mais velho) durante meses a fio na sua sórdida morada no Oeste de Nova Iorque e viajava pela região, aplicando os seus vários esquemas. Durante estes períodos, a família mal tinha dinheiro para sobreviver. Eliza teve de arranjar forma de fazer render cada tostão. Depois o pai voltava a aparecer, cheio de dinheiro e de presentes para a família. Era divertido (um grande contador de histórias), mas por vezes bastante cruel e até violento. Depois voltava a partir, e o padrão reiniciava-se. Era impossível prever quando regressaria, e os elementos da família estavam sempre no limite quando ele estava presente e depois ausente.

Na adolescência, John teve de ir trabalhar para ajudar a fornecer alguma estabilidade às finanças da família. E, à medida que avançava na carreira, conseguia escapar às ansiedades que o haviam atormentado na infância. Tinha uma necessidade desesperada de pôr em ordem tudo o que o rodeava e de lhe dar previsibilidade. Mergulhava profundamente nos seus livros de contabilidade não havia nada mais previsível do que os mais e os menos na folha de um livro razão. Ao mesmo tempo, tinha grandes ambições para fazer fortuna; o pai instilara nele um amor quase visceral pelo dinheiro.

E assim, quando soube o que se poderia realizar com uma refinaria de petróleo, encarou-o como a sua grande oportunidade. Mas a sua atração pela indústria petrolífera pode parecer à primeira vista bastante estranha. Vivia-se um ambiente de Faroeste, totalmente anárquico; era possível fazer ou perder fortunas numa questão de meses. Em muitos sentidos, o negócio das petrolíferas era como o pai - empolgante, prometendo riqueza rápida, mas traiçoeiramente imprevisível. Inconscientemente, sentia-se atraído por esse mundo por essas mesmas razões - podia reviver os seus piores medos de infância e ultrapassá-los, ao estabelecer um controlo rigoroso sobre a indústria petrolífera. Seria como conquistar o próprio pai. O caos instigá-lo-ia apenas a ir mais longe, visto que teria de trabalhar com um afinco redobrado para domar o seu ardor.

Nesses primeiros anos de atividade, podemos ver o fator motivador que o levaria às suas ações subsequentes — a necessidade avassaladora de controlo. Quanto mais complicada e difícil fosse esta tarefa, mais implacável seria a energia reunida para alcançar esse objetivo. E desta necessidade surgiu uma segunda, quase tão importante a de justificar as suas ações agressivas perante o mundo e perante si próprio. Rockefeller era um homem profundamente religioso. Não conseguia viver com o pensamento de que aquilo que guiava as suas ações era o desejo de controlar as pessoas e de adquirir grandes quantias, necessárias para tal objetivo. Representava ver-se sob uma luz demasiado desfavorável e sem alma.

Para reprimir esse pensamento, construiu aquilo a que iremos chamar a narrativa do agressor. Teve de se convencer de que a sua demanda de poder respondia um objetivo superior. Havia na altura uma crença entre os protestantes de que fazer muito dinheiro era sinal da graça de Deus. Com a riqueza, o indivíduo religioso podia devolver à comunidade e ajudar a paróquia local. Mas Rockefeller foi mais longe. Acreditava que instalar a ordem no negócio das petrolíferas era uma missão divina, como pôr ordem no cosmos. Envolvia-se numa cruzada destinada a levar preços mais baixos e previsibilidade aos lares norte-americanos. Transformar a Standard Oil num monopólio combinava perfeitamente com as suas profundas convicções religiosas.

Acreditando sinceramente nesta cruzada, não lhe perturbava a consciência o facto de que manipular e arruinar impiedosamente os seus rivais, subornar legisladores, desrespeitar quaisquer leis, formar falsas empresas rivais da Standard Oil, desencadear e usar a violência de uma greve (com a Pennsylvania Railroad) ajudaria a longo prazo. A crença nesta narrativa tornou-o ainda mais enérgico e agressivo, e, para os que o enfrentavam, podia ser confuso - talvez houvesse algo de bom no que estava a fazer; talvez afinal não fosse um demónio.

Finalmente, para realizar o seu sonho de controlo, Rockefeller transformou-se num intérprete extraordinário dos seres humanos e da sua psicologia. E qualidade mais importante a aferir nos vários rivais que enfrentou era a força de vontade e a resistência relativas. Sentia-o na linguagem corporal das pessoas e nos padrões das suas ações. Quase todas as pessoas, considerava, são bastante fracas. São fundamentalmente arrastadas pelas suas emoções, que podem mudar de dia para dia. Querem que tudo na vida seja essencialmente fácil e tendem a seguir o caminho de menor resistência. Não têm estômago para batalhas prolongadas.

 Querem dinheiro pelos prazeres e confortos que este lhes possa proporcionar, para os seus iates e mansões. Querem parecer poderosas, para satisfazer o seu ego. Se forem assustadas, baralhadas ou frustradas ou se se lhes oferecer uma saída fácil, rendem-se a esta vontade mais forte. Se ficarem zangadas, tanto melhor. A raiva esgota-se rapidamente, e Rockefeller sempre apostou no longo prazo. Veja-se como manipulou cada um dos adversários que se cruzaram no seu caminho. Com Clark, alimentou cuidadosamente a sua arrogância e irritou-o deliberadamente, para que concordasse rapidamente com o leilão, só para se ver livre de Rockefeller, sem pensar demasiado nas consequências.

O coronel Payne era um homem convencido e ganancioso. Se lhe dessem muito dinheiro e um título simpático, ficaria satisfeito e cederia a refinaria a Rockefeller. Quanto aos outros proprietários de refinarias, a técnica consistiu em instilar receios sobre um futuro incerto, usando a SIC como um papão conveniente. Fazê-los sentirem-se isolados e fracos e semear algum pânico. Sim, as suas refinarias eram mais lucrativas, como se revela nos seus livros, mas os outros proprietários não conseguiram perceber que o próprio Rockefeller era tão vulnerável como eles aos altos e baixos do negócio. Se se tivessem unido em oposição à sua campanha, poderia tê-lo combatido, mas estavam demasiado emotivos para pensar racionalmente e entregaram as refinarias com facilidade. No que dizia respeito a Scott, Rockefeller via-o como um homem exaltado, enfurecido pela ameaça que a Standard Oil representava para a sua posição de destaque no negócio. Rockefeller aceitou a guerra com Scott e preparou-se para ela reunindo grandes quantias. Sobreviveria simplesmente mais tempo do que ele. E, quanto mais irritava Scott com as suas táticas heterodoxas, mais imprudente e precipitado Scott se tornava, indo ao ponto de tentar esmagar a greve dos caminhos de ferro, o que apenas enfraqueceu a sua posição. Com Benson, Rockefeller reconheceu o tipo - o homem apaixonado pelo seu próprio brilhantismo e que ansiava por atenção por ser o primeiro a derrotar a Standard Oil. Colocar obstáculos no seu caminho fá-lo-ia apenas desejar esforçar-se mais, enfraquecendo-lhe as finanças. Seria simples comprá-lo no fim, quando se tivesse cansado da pressão inflexível de Rockefeller.

Como medida adicional, Rockefeller desenvolveria sempre estratégias para que os seus adversários se sentissem pressionados e impacientes. Clark teve apenas um dia para planear o leilão. Os proprietários das refinarias enfrentavam uma catástrofe iminente dali a alguns meses se não lhe vendessem as respetivas empresas. Scott e Benson tinham de se despachar nas suas batalhas, caso contrário ficariam sem dinheiro. Isso deixou-os mais emotivos e menos capazes de planear uma estratégia.

Compreender: Rockefeller representa um tipo humano com o qual muito provavelmente se cruzará na sua área. Chamar-lhe-ei agressor sofisticado, em oposição a agressor primitivo. Os agressores primitivos têm fusíveis curtos. Se alguém desencadear neles sentimentos de inferioridade ou fraqueza, explodem. Carecem de autocontrolo e por isso tendem a não ir muito longe na vida, intimidando e magoando inevitavelmente demasiadas pessoas. Os agressores sofisticados são muito mais astutos. Ascendem a posições cimeiras e podem manter-se nelas porque sabem encobrir as suas manobras, apresentar uma aparência que distraia e jogar com as emoções das pessoas. Sabem que a maior parte dos indivíduos não gosta de confrontos ou de batalhas prolongadas e por isso podem intimidar ou esgotá-los. Dependem da nossa docilidade tanto quanto da sua própria agressão.

Os agressores sofisticados que encontra não têm de ser espetacularmente bem-sucedidos como Rockefeller. Podem ser o seu chefe, um rival ou mesmo um colega intriguista que pretendam subir na carreira. Pode reconhecê-los por um único sinal: chegam onde querem basicamente através da sua energia agressiva, não do seu talento particular. Gostam mais de ganhar poder do que da qualidade do seu trabalho. Fazem o que for necessário para assegurar a sua posição e esmagar qualquer tipo de competição ou desafio. Não gostam de partilhar o poder.

Ao lidar com este tipo de indivíduos, tenderá a sentir raiva ou medo, aumentando desta forma a sua influência e deixando-se cair nas suas mãos. Ficará obcecado pelo seu caráter negativo e não prestará a devida atenção ao que realmente estão a fazer. Aquilo a que muitas vezes acaba por se render é a aparência ou ilusão de força que projetam, a sua fama de agressividade. A melhor forma de lidar com eles é reduzir a temperatura emocional. Comece por olhar para o indivíduo, não para o mito ou para a lenda. Compreenda a sua motivação primária – ganhar controlo sobre o contexto envolvente e sobre as pessoas que os rodeiam. Como no caso de Rockefeller, esta necessidade de controlo dissimula grandes camadas de ansiedade e insegurança. Deverá procurar a criança assustada que existe dentro deles, aterrada por tudo o que é imprevisível. Desta forma, pode reduzi-los à sua dimensão certa, diminuindo a sua capacidade de o intimidar.

Pretendem controlar os seus pensamentos e reações. Negue-lhes este poder concentrando-se nas ações que põem em prática e nas suas próprias estratégias, não nos seus sentimentos. Analise e antecipe as suas verdadeiras metas. Querem instilar em si a ideia de que não tem opções, de que render-se é inevitável e a melhor maneira escapar. Mas tem sempre opções. Mesmo que sejam seus chefes e que tenha de se render na altura momento, pode manter a sua independência interior e aguardar pelo dia em que cometam um erro e se tornem vulneráveis, usando o conhecimento dos seus pontos fracos para os derrotar.

Veja para lá da sua narrativa e das suas perspicazes tentativas de o distrair. Apresentam-se muitas vezes como muito inocentes ou como a vítima da maldade de outras pessoas. Quanto mais alto proclamarem as suas convicções, mais certo será estarem a esconder alguma coisa. Tenha a noção de que por vezes parecem encantadores e carismáticos. Não se deixe enfeitiçar por esta aparência. Observe os seus padrões de comportamento. Se tiverem prejudicado pessoas no passado, continuarão a fazê-lo no presente. Nunca se associe a este tipo de indivíduos, independentemente de quão amistosos e encantadores possam parecer. Gostam de se aproveitar do seu trabalho árduo e depois exercer o controlo. A avaliação realista da sua verdadeira força e das suas intenções agressivas é a melhor defesa.

Quando se trata de tomar medidas contra os agressores, deverá ser tão sofisticado e astuto como eles. Não tente combatê-los diretamente. São demasiado implacáveis e normalmente têm poder suficiente para o esmagar num confronto direto. Deverá vencê-los em inteligência, descobrindo ângulos inesperados de ataque. Ameace expor a hipocrisia da sua narrativa ou más ações passadas que tenham tentado esconder do público. Faça-os ver que uma batalha consigo será mais dispendiosa do que haviam imaginado, que também está disposto a fazer jogo sujo, mas apenas como defesa. Se for bastante arguto, mostre-se aparentemente fraco e exposto, atraindo-os para um ataque precipitado que tenha preparado. Muitas vezes a estratégia mais sensata é juntar-se a outras pessoas que tenham sofrido às suas mãos, criando força e vantagem numérica.

Tenha em mente que os agressores muitas vezes conseguem os seus intentos porque receia, ao combatê-los, ter demasiado a perder no presente. Mas, em vez disso, deverá calcular o que haverá a perder a longo prazo — menores hipóteses de poder e expansão na sua própria área, visto que assumem uma posição de domínio;

própria dignidade e amor-próprio, por lhes fazer frente. A rendição e a docilidade podem tornar-se um hábito com consequências devastadoras para o seu bem-estar. Use a existência de agressores como estímulo para o seu espírito combativo e para construir a sua própria confiança. Enfrentar e vencer os agressores pela inteligência pode ser uma das experiências mais satisfatórias e nobilitantes que os seres humanos podem ter.

 

Os homens não são seres amáveis e amistosos que anseiam por amor, que se defendem simplesmente se forem atacados. ..l Deve reconhecer-se um desejo intenso de agressão como parte da sua... natureza.

—Sigmund Freud

 

Explicações para a natureza humana

 

Gostamos de pensar em nós próprios como membros relativamente pacíficos e afáveis da sociedade. No fundo, somos animais sociais e precisamos de nos convencer de que somos leais e cooperativos com as comunidades a que pertencemos. Mas, uma ou outra vez, todos nós agimos de formas que vão contra esta autoimagem. Talvez tenha surgido um momento em que tenhamos sentido que a nossa segurança profissional era ameaçada ou que alguém estava a dificultar-nos a carreira. E possível também que tenhamos considerado não estar a receber a atenção e o reconhecimento que merecemos pelo nosso trabalho. Ou talvez isso tenha surgido num momento de insegurança financeira. Ou ainda num relacionamento amoroso em que nos tenhamos sentido especialmente frustrados na nossa tentativa de mudar o comportamento do outro ou em que tenhamos antecipado que essa pessoa nos ia abandonar,

Devido a frustração, raiva, insegurança, medo ou impaciência, descobrimos que, de repente, nos tornámos invulgarmente assertivos. Fizemos algo um pouco extremo para garantir o emprego; tentámos afastar um colega do caminho; recorremos a um esquema duvidoso para obter dinheiro fácil e rápido; fomos demasiado longe no sentido de obter atenção; tornamo-nos beligerantes e controladores para com o nosso companheiro; assumimos uma posição vingativa e atacámos alguém nas redes sociais. Em momentos como estes, transpusemos um limiar e tornamo-nos agressivos. Muitas vezes, quando agimos desta forma, racionalizamos o nosso comportamento para connosco e para com os outros: não tivemos outra hipótese; sentimo-nos ameaçados; estávamos a ser tratados injustamente. as pessoas estavam a ser insensíveis e a magoar-nos; não fomos nós a começar. Desta forma, conseguimos manter a autoimagem de seres pacíficos que imaginamos ser. Embora raramente nos demos conta disso, também podemos observar um exemplo mais subtil de manifestação das nossas tendências agressivas. Quando enfrentamos indivíduos intimidatórios que são mais agressivos do que nós, muitas vezes descobrimo-nos a agir de forma mais submissa do que o normal, e talvez um pouco dissimulada, se tiverem poder para isso. Mas, quando enfrentamos pessoas claramente mais fracas e dóceis, muitas vezes o leão que existe em nós vem inconscientemente à superfície. Podemos decidir ajudá-las, mas, combinado com esta ação, há um sentimento de desprezo e de superioridade. Tornamo-nos agressivos nesse auxílio, impondo ordens à sua vida e sendo firmes nos nossos conselhos. Ou, se sentimos pouca empatia por elas, poderemos sentir-nos compelidos a usá-las de alguma forma para os nossos próprios propósitos e fazer delas o que nos apetecer. Tudo isto acontece de forma inconsciente; geralmente não o experimentamos como agressividade, mas, quando comparamos a nossa força interior com a dos outros, não podemos evitar baixar ou subir o nível de agressão.

É possível detetar esta cisão entre aquilo que pensamos de nós próprios e o modo como por vezes agimos realmente - no comportamento de amigos, colegas e de quem aparece nas notícias. No nosso local de trabalho, inevitavelmente certas pessoas conseguem progredir e alcançar mais poder. Talvez fiquem com os louros do nosso trabalho, nos roubem as ideias, nos afastem de um projeto ou se aliem de forma bastante enérgica com quem se encontra no poder. Podemos ver nas redes sociais o prazer que as pessoas têm em sentir-se indignadas, em atacar os outros e deitá-los abaixo. Podemos ver a energia com a qual a imprensa expõe o menor defeito em quem se encontra no poder e o delírio desenfreado que se segue. Podemos observar a violência crescente nos filmes e nos jogos, todos eles disfarçados de entretenimento. E, entretanto, ninguém reconhece ser agressivo.

De facto, mais do que nunca, as pessoas parecem muito modestas e progressistas. O fosso é profundo.

O que isto significa é o seguinte: todos compreenderemos que os seres humanos foram capazes de grande violência e agressão no passado e no presente. Sabemos que existem pelo mundo criminosos sinistros, empresários gananciosos e sem escrúpulos, negociadores beligerantes e agressores sexuais. Mas criamos uma linha divisória profunda entre esses exemplos e nós próprios. Temos um bloqueio forte relativamente a imaginar qualquer tipo de continuum ou espectro quando se trata dos nossos próprios momentos agressivos e dos da variedade mais extrema, nos outros. Definimos de facto o mundo de modo a descrever as manifestações mais fortes de agressão, excluindo-nos. É sempre o outro que é beligerante, que começa, que é agressivo.

Trata-se de um equívoco profundo da natureza humana. A agressão é uma tendência que está latente em todo o ser humano, individualmente. É uma tendência enraizada na nossa espécie. Tornamo-nos o animal dominante neste planeta precisamente por causa da nossa energia agressiva, complementada pela nossa inteligência e destreza. Não podemos separar esta agressividade da forma como lidamos com os problemas, alteramos o ambiente para tornar as nossas vidas mais fáceis, lutamos contra a injustiça ou criamos algo em grande escala. A raiz latina para a palavra agressão significa «avançar», e, quando nos afirmamos neste mundo e tentamos criar ou mudar algo, estamos a fazer uso desta energia.

A agressão pode ter finalidades positivas. Ao mesmo tempo, em determinadas circunstâncias, esta energia pode impelir-nos para um comportamento antissocial, para desejarmos obter muito ou mandar nos outros. Estes aspetos positivos e negativos constituem dois lados da mesma moeda. E, embora alguns indivíduos sejam claramente mais agressivos do que outros, todos somos capazes de resvalar para esse lado negativo. Existe um continuum de agressão humana, e todos nos encontramos nesse espectro.

Não estar consciente da nossa verdadeira natureza causa-nos muitos problemas. Podemos tornar-nos agressivos no sentido negativo, se nos apercebermos do que está a acontecer, e depois pagar as consequências de ter ido demasiado longe. Ou, sentindo-nos desconfortáveis com os nossos impulsos assertivos e sabendo dos problemas que estes podem causar, poderemos tentar reprimir a agressividade e parecer o exemplo da humildade e da bondade, para nos tornarmos apenas mais passivo-agressivos em termos de comportamento. Esta energia não pode ser negada ou recalcada; emergirá de alguma forma. Mas, com consciência, podemos começar a controlá-la e canalizá-la para fins produtivos e positivos. Para o fazer, devemos compreender a fonte de toda a agressão humana, como esta se torna negativa e por que motivo algumas pessoas se tornam mais agressivas do que outras.

 

A origem da agressão humana

 

Ao contrário de qualquer outro animal, os seres humanos estão conscientes da sua própria mortalidade. Consciente ou inconscientemente, este pensamento atormenta-nos por toda a vida. Temos noção de que a nossa posição na vida nunca é segura podemos perder o emprego, o estatuto social e o dinheiro, muitas vezes por motivos que escapam ao nosso controlo. As pessoas que nos rodeiam são igualmente imprevisíveis - nunca conseguimos ler os seus pensamentos, antecipar as suas ações ou contar com o seu apoio, estamos dependentes dos outros, que muitas vezes falham. Temos desejos inatos de amor, excitação e estimulação, e muitas vezes escapa ao nosso controlo satisfazer estes desejos da forma que gostaríamos. Além disso, todos temos determinadas inseguranças com origem em mágoas da infância. Se algum acontecimento ou pessoa desencadear estas inseguranças e reabrir velhas feridas, sentimo-nos especialmente vulneráveis e fracos.

O que isto significa é que os seres humanos são constantemente atormentados por sentimentos de impotência que decorrem de muitas fontes. Se este sentimento for suficientemente forte ou durar demasiado, pode tornar-se insuportável. Somos criaturas obstinadas que anseiam por poder. Este desejo de poder não é perverso ou antissocial; é uma resposta natural à consciência da nossa fragilidade e vulnerabilidade essencial. Fundamentalmente, o que motiva muito do nosso comportamento é ter controlo sobre as circunstâncias, sentir a ligação entre o que fazemos e o que recebemos sentir que podemos influenciar as pessoas e os acontecimentos em certa medida. Isto mitiga a sensação de impotência e torna tolerável a imprevisibilidade da vida.

Satisfazemos esta necessidade desenvolvendo competências profissionais sólidas que nos ajudam a garantir o estatuto da carreira e nos dão uma sensação de controlo sobre o futuro. Também tentamos desenvolver competências sociais que nos permitem trabalhar com outras pessoas, ganhar o seu afeto e obter algum nível de influência sobre elas. Quando se trata das nossas necessidades de excitação e de estimulação, geralmente escolhemos satisfazê-las através de várias atividades — desporto, entretenimento, sedução — que a nossa cultura sugere ou aceita.

Todas estas atividades ajudam-nos a ter o controlo por que tanto ansiamos, mas exigem que reconheçamos determinados limites. Para ganhar esse poder no trabalho e nos relacionamentos, temos de ser pacientes. Não podemos forçar as coisas. É preciso tempo para garantir uma posição profissional, para desenvolver capacidades criativas genuínas, para aprender a influenciar e encantar pessoas. Também exige sujeitarmo-nos a certos códigos sociais e mesmo leis. Não podemos simplesmente fazer tudo para avançar na carreira; não podemos forçar as pessoas a cumprirem as nossas ordens. Podemos chamar a estes códigos e leis guardas, atrás das quais devemos permanecer de modo a ganhar poder, enquanto permanecemos amados e respeitados.

No entanto, em certos momentos, temos dificuldade em aceitar estes limites. Não podemos avançar na carreira ou fazer muito dinheiro tão depressa quanto gostaríamos. Não podemos obrigar as pessoas a trabalharem connosco nas condições que pretendemos, por isso sentimo-nos frustrados. Ou talvez uma velha ferida da infância se reabra subitamente. Se anteciparmos que um parceiro poderá estar a querer pôr fim a um relacionamento e temos um grande medo de ser abandonados que tem origem na frieza dos nossos pais, podemos reagir facilmente de forma excessiva e tentar controlar essa pessoa, usando todas as nossas capacidades de manipulação e tornando-nos bastante agressivos. (Os sentimentos de amor muitas vezes transformam-se em hostilidade e agressão nas pessoas, porque é no amor que nos sentimos mais dependentes, vulneráveis e impotentes.)

Nestes casos, a nossa fome de mais dinheiro, poder, amor ou atenção esmaga qualquer paciência que possamos ter. Poderemos então ser tentados a sair das guardas, a procurar poder e controlo de uma forma que viole os códigos e até as leis tácitas. Mas a maior parte das pessoas, quando transpõe a fronteira, sente-se pouco à vontade e talvez arrependida. Corremos precipitadamente a abrigar-nos atrás das guardas de que escapámos, de volta às formas habituais de procurar poder e controlo. Estes atos de agressividade podem ocorrer em momentos das nossas vidas, mas não se tornam um padrão.

No entanto, não é caso com indivíduos mais cronicamente agressivos. Esta impressão de impotência ou de frustração que podemos sentir de vez em quando atormenta-os mais profundamente e com mais frequência. Sentem-se cronicamente inseguros e frágeis e tem de o disfarçar com uma quantidade excessiva de poder e de controlo. A sua necessidade de domínio é demasiado imediata e forte para que aceitem os limites e ultrapassa qualquer sentido de contrição ou de responsabilidade social.

É possível que haja uma componente genética neste aspeto. A psicanalista Melanie Klein, que se especializou no estudo de crianças muito pequenas, notou que alguns bebés eram decididamente mais ansiosos e ávidos do que outros. Desde os seus primeiros dias de vida, mamavam do peito da mãe como se o estivessem a atacar e a secar completamente. Precisavam de mais mimo e atenção do que outros. O seu choro e birras eram quase impossíveis de interromper. Sentiam um nível mais elevado de impotência, que raiava uma histeria permanente.

Estes bebés estavam em minoria, mas Klein conseguiu identificá-los. Perguntou-se se os indivíduos que são cronicamente agressivos poderiam ser versões adultas do bebé insaciável. Nasceram simplesmente com uma maior necessidade de controlar tudo o que os rodeia. Cismavam mais em sentimentos de mágoa ou inveja - «Porque hão de as outras pessoas ter mais do que eu?» Quando sentem estar a perder o controlo em certa medida, a sua tendência é para exagerar a ameaça, para reagir de forma excessiva e para ficar com muito mais do que é necessário.

 

Também é verdade que, no início, a vida familiar pode desempenhar um papel decisivo. De acordo com o psicanalista e escritor Erich Fromm, se os pais forem demasiado dominadores, se reprimirem a necessidade de poder e independência dos filhos, estas crianças tornam-se muitas vezes os tipos que, mais tarde, gostam de dominar e tiranizar os outros. Se lhes tiverem batido em criança, muitas vezes recorrem às sovas e aos abusos físicos em adultos. Desta forma, transformam a passividade imposta na infância em algo ativo em adultos, dando-lhes a sensação de controlo que tanta falta lhes fez nos primeiros anos, através de comportamento agressivo.

Seja qual for a causa das suas tendências, estes tipos não vão a correr abrigar-se atrás das guardas, mas recorrem permanentemente a um comportamento agressivo. Têm uma vontade invulgarmente forte e pouca paciência para satisfazer os seus desejos por canais socialmente aceites. Consideram as formas normais de obter estimulação como sendo demasiado entediantes. Precisam de algo mais forte e mais imediato. Se corresponderem ao tipo mais básico, poderão recorrer ao comportamento criminoso ou tornar-se simplesmente opressores assumidos; se forem mais sofisticados, aprenderão a controlar este comportamento até certo ponto e usá-lo quando necessário.

O que isto significa é que a agressão humana tem origem numa insegurança subjacente, em oposição a um simples impulso no sentido de magoar ou tirar dos outros. Antes de qualquer impulso se tornar uma ação agressiva, os agressores processam inconscientemente sentimentos de impotência e ansiedade. Muitas vezes veem as ameaças que na verdade não estão presentes ou exageram-nas.  Tomam medidas no sentido de antecipar o ataque captado de outrem ou de conseguir coisas de modo a dominar uma situação que sentem poder evitar o seu controlo. (Estes sentimentos também provocam o tipo positivo de agressão.) Sentir a necessidade de combater uma injustiça ou de criar algo importante é precedido de sentimentos de ansiedade e insegurança. Permanece como forma de controlo para fins positivos.) Quando olhamos para qualquer agressor crónico que nos rodeie temos de procurar a insegurança subjacente, a ferida profunda, os sentimentos de impotência que ecoam dos seus primeiros anos de vida.

Podemos reparar no seguinte fenómeno interessante: as pessoas que são dominadoras são muitas vezes extremamente intolerantes face a qualquer tipo de divergência. Precisam de estar rodeadas de apoiantes e de ser constantemente lembradas da sua grandeza e superioridade. Se estes indivíduos tiverem poder político procuram abafar qualquer publicidade negativa e controlar o que as pessoas dizem acerca deles. Temos de encarar esta hipersensibilidade à crítica como sinal de grande fragilidade interior. Uma pessoa que seja realmente forte interiormente consegue suportar as críticas e uma discussão aberta sem se sentir ameaçada pessoalmente. De modo geral, os agressores e os indivíduos autoritários são especialistas em esconder esta profunda fragilidade interior projetando constantemente dureza e convicção. Mas temos de nos treinar de modo a conseguir ver para lá da sua fachada, a divisar a sua fragilidade interior. Isto pode ajudar-nos bastante a controlar quaisquer sentimentos de medo ou intimidação, que os agressores adoram estimular.

Existem outras qualidades dos agressivos crónicos que devemos compreender. Em primeiro lugar, os agressores têm menos tolerância a sentimentos de impotência e ansiedade do que o resto das pessoas. O que nos pode levar a sentir frustrados ou inseguros muitas vezes irá desencadear neles uma reação muito mais poderosa, a raiva. Provavelmente, é por isso que a agressão crónica é muito mais comum entre os homens do que entre as mulheres. Os homens têm mais dificuldade em lidar com sentimentos de dependência e impotência, algo que os psicólogos detetaram em crianças do sexo masculino. Os homens são geralmente mais inseguros quanto ao seu estatuto no mundo profissional e noutros campos. Têm uma necessidade maior de se afirmarem constantemente e de avaliarem o efeito que exercem sobre os outros. A sua autoestima está ligada a sentimentos de poder, controlo e respeito pelas suas opiniões. Por esse motivo, muitas vezes desencadear a resposta agressiva nos homens requer menos esforço. Em qualquer circunstância, devemos estar sempre conscientes de que o agressor crónico é mais suscetível do que nós, e, se soubermos que estamos a lidar com um indivíduo deste tipo, teremos de ser especialmente cautelosos para não desencadear inadvertidamente a sua resposta de raiva, ao desafiar a sua autoestima ou ao criticá-lo.

Outro aspeto comum do comportamento agressivo é o facto de se poder tornar facilmente uma dependência. Ao manifestarem os seus desejos de uma forma aberta e imediata, ao conseguirem o melhor das pessoas através das suas manobras, os agressores recebem um choque de adrenalina que se pode tornar viciante. Sentem-se estimulados e excitados, e as formas mais socialmente aceitáveis de escapar ao tédio podem parecer tépidas, quando comparadas com esta. (Certamente a emoção de obter dinheiro fácil, seja como corretores de Wall Street a vender investimentos duvidosos ou como criminosos a roubar o que conseguem, tem uma vertente extremamente viciante.) À primeira vista, pode parecer autodestrutivo, na medida em que cada explosão de agressividade cria mais inimigos e consequências indesejadas. Mas os agressores gostam muitas vezes de subir a parada com comportamentos ainda mais intimidatórios, para que poucos os desafiem. Este processo conduz muitas vezes ao fenómeno da armadilha do agressor: quanto mais poder obtêm e maior for o seu império, mais pontos de vulnerabilidade criam; têm mais rivais e inimigos com que se preocupar. Isto desencadeia neles a necessidade de serem cada vez mais agressivos e de obterem cada vez mais poder. (Rockefeller foi certamente vítima desta dinâmica.) Também acabam por sentir que pararem de agir desta forma os faria parecer fracos. Independentemente do que os agressores nos possam dizer ou de como tentam disfarçar as suas intenções, temos de compreender que o seu padrão passado de comportamento continuará inevitavelmente no presente, porque estão simultaneamente dependentes e encurralados. Nunca devemos ser ingénuos ao lidar com eles. Estes indivíduos serão implacáveis. Se recuarem um passo, será apenas algo momentâneo. Raramente serão capazes de alterar este padrão essencial no seu comportamento.

Temos de estar conscientes de que os agressores veem as pessoas que os rodeiam como objetos a usar. Poderão revelar alguma empatia natural, mas, como a sua necessidade de poder e de controlo é tão forte, não podem ser suficientemente pacientes para confiar apenas no encanto e nas competências sociais. Para alcançarem o que desejam, têm de usar as pessoas, e isto torna-se um hábito que degrada qualquer empatia que possam ter conhecido. Precisam de adeptos e de discípulos, por isso treinam-se para ouvir, para elogiar os outros ocasionalmente e para fazerem favores às pessoas. No entanto, o encanto que possam exibir de vez em quando destina-se apenas a fazer figura e revela pouco calor humano. Quando nos estão a ouvir, estão a avaliar a força da nossa vontade e a ver como podemos servir os seus objetivos mais tarde. Se nos elogiarem ou fizerem um favor, é uma forma de nos enredarem e comprometerem mais. Podemos vê-lo nos sinais não verbais, nos olhos que nos trespassam, no escasso interesse que revelam pelas nossas histórias. Devemos sempre tentar tornar-nos imunes a qualquer tentativa de encanto da sua parte, tendo em conta o seu objetivo.

E interessante notar que, apesar de todas as qualidades socialmente negativas que os agressores acabam por revelar, estes conseguem frequentemente atrair seguidores suficientes para os ajudarem na sua demanda de poder. As pessoas que são atraídas para estes agressores muitas vezes têm os seus problemas enraizados, os seus próprios desejos agressivos frustrados. Acham a confiança e por vezes a desfaçatez do agressor bastante estimulantes e apelativas. Apaixonam-se pela narrativa. Ficam contagiadas pela agressão do líder e aplicam-na aos outros, por vezes seus subordinados. Mas tal ambiente é cansativo, e quem serve o agressor está constantemente a receber golpes na sua autoestima. Com a maior parte dos agressores, a rotação é elevada e o moral baixo. Como o dramaturgo da Grécia antiga Sófocles escreveu em tempos: «Quem conseguir entrar na corte de um tirano torna-se seu escravo, mesmo que aí tenha chegado como homem livre.»

A sua missão assume três vertentes. Em primeiro lugar, deverá parar de negar a realidade das suas próprias tendências agressivas. Encontra-se no espectro da agressividade, como todos nós. Claro que há indivíduos que se situam num ponto mais baixo desta escala. Talvez lhes falte confiança na sua capacidade de obter o que desejam ou tenham simplesmente menos energia. Mas muitas pessoas encontram-se no ponto médio a alto desse espectro, com níveis relativamente fortes de vontade. Esta energia assertiva tem de ser gasta de alguma forma e tenderá a ir numa de três direções.

Inicialmente, podemos canalizar essa energia para o trabalho, para alcançar coisas de forma paciente (agressão controlada). Em segundo, podemos canalizá-la sob a forma de aversão por si próprio, direcionando a raiva e a agressão para as próprias falhas e ativando o sabotador interior (vê-lo-emos melhor mais tarde). Deve analisar a forma como lida com a sua energia assertiva. Uma maneira de se avaliar consiste em ver como enfrenta momentos de frustração e incerteza, situações em que tem menos controlo. Tende a atacar, a ficar zangado e tenso, e faz coisas de que mais tarde se arrepende? Ou interioriza a raiva e fica deprimido? Observe os momentos inevitáveis em que se afastou das guardas e analise-os. Não é tão pacífico e amável como pensa. Apure o que o levou a este comportamento e como, durante esses momentos, arranjou formas de o racionalizar. Então, com algum distanciamento, pode talvez analisar estas racionalizações.

O seu objetivo não é reprimir esta energia assertiva, mas tornar-se consciente de que o impele para diante e canalizá-la de forma produtiva. Reconheça interiormente que tem um desejo profundo de exercer um efeito sobre as pessoas, de ter poder, e para o admitir deverá desenvolver competências sociais e técnicas superiores, terá de se tornar mais paciente e resistente. Deverá disciplinar e dominar a sua energia assertiva natural. E aquilo a que iremos chamar agressão controlada e conduzirá à realização de grandes feitos.

A sua segunda tarefa consiste em tornar-se um mestre da observação da agressão nas pessoas que o rodeiam. Quando, por exemplo, observa o seu ambiente profissional, imagine que consegue visualizar a guerra permanente entre os diferentes tipos de vontade das pessoas e todas as interseções desses conflitos. As pessoas mais assertivas parecem ascender às posições cimeiras, mas exibem inevitavelmente sinais de submissão face a quem se encontra ainda mais acima. e muito diferente das hierarquias que podemos observar entre chimpanzés.

Se parar de se concentrar nas palavras das pessoas e na fachada que estas apresentam e concentrar-se nas suas ações e sinais não verbais, quase poderá captar o nível de agressividade que emanam.

Ao observar este fenómeno, é importante que seja tolerante com os outros: já todos passámos do limite a dado momento e nos tornámos mais agressivos do que o costume, muitas vezes devido às circunstâncias. Quando se trata de indivíduos poderosos e bem-sucedidos, é impossível neste mundo alcançar esse ponto sem níveis mais elevados de agressão e alguma manipulação. Para alcançar grandes feitos, podemos perdoar-lhes um ocasional comportamento duro e agressivo. Do que precisa é de determinar se está a lidar com agressores crónicos, pessoas que não conseguem tolerar críticas ou ser desafiadas a qualquer nível, cujo desejo de controlo é excessivo e que irão engoli-lo na sua demanda implacável no sentido de obter mais.

Procure indícios reveladores. Em primeiro lugar, se tiverem um número invulgarmente elevado de inimigos acumulados ao longo dos anos, deverá haver um bom motivo para isso, e não aquele que lhe anunciam. Preste grande atenção ao modo como justificam as suas ações no mundo. Os agressores tenderão a apresentar-se como cruzados, como uma espécie de génios que não conseguem evitar a forma como se comportam. Estão a criar arte, dizem, ou a ajudar os desvalidos. Aqueles que lhes impedem o caminho serão infiéis ou o demónio. Alegarão, como Rockefeller, que ninguém como eles foi tão criticado ou investigado; são as vítimas, não os agressores. Quanto mais estrondosa e extrema for a sua narrativa, mais certezas terá de estar a lidar com agressores crónicos. Concentre-se nas suas ações, nos seus padrões passados de comportamento, muito mais do que naquilo que dizem.

Também pode procurar sinais mais subtis. Os agressores crónicos muitas vezes têm personalidades obsessivas. Ter hábitos meticulosos e criar um ambiente completamente previsível é a sua forma de se agarrarem ao controlo. Pensar obsessivamente num objeto ou numa pessoa anuncia o desejo de o engolir inteiro. Preste também atenção aos sinais não verbais. Vimos com Rockefeller que este não suportava ser ultrapassado por ninguém na rua. O tipo do agressor apresentará estas obsessões físicas— ir sempre à frente, na sua área. Em qualquer circunstância, quanto mais depressa detetar estes sinais melhor.

Depois de se ter apercebido de que está a lidar com este tipo, deverá investir toda a sua energia para se libertar mentalmente, para ganhar controlo sobre a sua resposta emocional. Muitas vezes, aquilo que acontece quando enfrenta agressores é sentir-se inicialmente hipnotizado e mesmo paralisado até certo ponto, como se estivesse na presença de uma cobra. Depois, enquanto processa o que fizeram, torna-se emotivo — fica zangado, ofendido, assustado. Quando passa a esse estado os agressores têm facilidade em mantê-lo reativo e sem pensar. A sua raiva não leva a nada de produtivo, mas, com o tempo, dissipa-se em amargura e frustração.

A única resposta será arranjar maneira de se distanciar aos poucos da influência dos agressores. Detete as suas manobras, descortine a fragilidade subjacente que os impele, reduza-os à sua verdadeira dimensão. Concentre-se sempre nos seus objetivos, no que realmente procuram, e não nas distrações que criam.

Se for inevitável uma batalha contra eles, nunca se envolva em confrontos diretos ou os desafie de forma aberta. Se forem do tipo sofisticado, usarão toda a sua astúcia para o destruir e podem ser implacáveis. Deverá combatê-los sempre de forma indireta. Procure as vulnerabilidades que inevitavelmente escondem. Podem ser a sua reputação duvidosa ou atos especialmente prejudiciais no passado que tenham conseguido manter em segredo. Desmonte a sua narrativa. Expondo aquilo que pretendem manter escondido, obterá uma arma poderosa que os assustará e que evitará que o ataquem. Lembre-se de que o seu maior medo é perder o controlo. Pense que essa sua ação os poderia assustar desencadeando uma reação em cadeia de acontecimentos que os poderá levar a perder o controlo. Faça que a vitória fácil que estão à espera de alcançar sobre si pareça subitamente mais cara.

Os agressores geralmente têm a vantagem de estar dispostos a abandonar a proteção das guardas com mais frequência, para o combaterem. Isto dá-lhes mais opções, mais manobras desonestas com que o podem surpreender. Em negociações, irão bombardeá-lo com uma mudança de última hora àquilo com que acordaram, violando todas as regras, mas sabendo que irá ceder porque avançou até àquele ponto e não desejará invalidar todo o processo. Irão espalhar rumores e desinformação para turvar as águas e fazê-lo parecer tão duvidoso quanto eles próprios. Deverá procurar antecipar estas manipulações e retirar o elemento de surpresa aos agressores.

Por vezes também deverá estar disposto a aventurar-se para longe das guardas, sabendo que se trata de uma medida temporária e defensiva. Pode pôr a dissimulação em prática e distraí-los, parecendo mais fraco do que é, atraindo-os para ataque que os deixará malvistos e para o qual preparou um contra-ataque engenhoso. Pode até espalhar rumores que tenderão a desequilibrá-los psicologicamente, visto que não estão habituados a que os outros usem os mesmos truques contra si. Em qualquer circunstância, com a bitola tão alta, deverá considerar que derrotar os agressores é mais importante do que manter a pureza.

 

Finalmente, a sua terceira tarefa como estudioso da natureza humana é libertar-se da negação das tendências agressivas muito reais da própria natureza humana e do que essa agressão poderá significar para o seu futuro como espécie. Esta negação tende a assumir a forma de um de dois mitos em que é provável que acredite. Primeiro mito é que há muito tempo os seres humanos eram criaturas pacíficas, em harmonia com a natureza e com os outros seres humanos. É o mito do bom selvagem, do inocente caçador-recolector. O que está subjacente é que a civilização juntamente com o desenvolvimento da propriedade privada e do capitalismo tornou o pacífico ser humano numa criatura agressiva e egoísta. A organização da nossa sociedade é responsável por isto, pelo que o mito continua. Ao desenvolver um sistema político e social mais igualitário, poderíamos reverter à bondade natural e à natureza pacífica.

No entanto, descobertas recentes da antropologia e da arqueologia provaram para lá de qualquer sombra de dúvida que os nossos antepassados (recuando dezenas de milhares de anos, muito antes da civilização) se envolviam em guerras que eram tão mortíferas e brutais como todas as do presente. Eram tudo menos pacíficos. Também há muitos exemplos de culturas indígenas que destruíam grande parte da flora e da fauna no seu movimento, numa interminável busca de recursos alimentares e de abrigo, extinguindo muitas espécies e despojando regiões inteiras de árvores. A grande capacidade dos seres humanos cooperarem nestas culturas foi igualmente usada para os ajudar a envolverem-se nas mais sangrentas escaramuças.

O outro mito, predominante nos dias de hoje, é que podemos ter sido violentos e agressivos no passado, mas estamos a evoluir, tornando-nos mais tolerantes, esclarecidos e guiados pelos nossos melhores anjos. Mas os sinais da agressão humana são tão predominantes na nossa era como no passado. Podemos apresentar como prova os intermináveis ciclos de guerra, os atos de genocídio e a crescente hostilidade entre Estados e etnias dentro de nações, que continuam plenamente neste século. Os imensos poderes da tecnologia aumentaram apenas os nossos poderes destrutivos no que diz respeito à guerra. E a destruição do meio ambiente tornou-se apenas substancialmente pior, apesar da consciência do problema,

Também podemos detetar os níveis crescentes de desigualdade em termos de poder e riqueza por todo o mundo, nos tempos mais recentes, próximos das disparidades que existiam há séculos. Estas desigualdades continuam a produzir-se na sociedade humana porque, inevitavelmente, existem indivíduos que são simplesmente mais agressivos do que outros quando se trata de acumular poder e riqueza. Não há regras ou leis que pareçam interromper este processo. Os poderosos escrevem as regras que os beneficiam. E as tendências monopolizadoras do século XIX, como no exemplo da Standard Oil, sinais de agressão corporativa, simplesmente moldaram-se para se encaixarem nas indústrias mais recentes.

No passado, as pessoas assistiam a execuções como forma de entretenimento. Podemos não ir tão longe, mas mais pessoas do que nunca gostam de ver outras ser humilhadas em reality shows ou nas notícias, e cedem a jogos e filmes que deliciam com descrições gráficas de assassinatos e derramamento de sangue.

(Também podemos divisar uma vertente cada vez mais agressiva no humor.)

Com a tecnologia, tornou-se mais fácil expressar e satisfazer os nossos desejos agressivos. sem termos de encarar as pessoas fisicamente, na Internet, as nossas discussões e críticas podem tornar-se muito mais hostis, acaloradas e pessoais. A Internet também criou uma arma nova e poderosa - sempre aconteceu, os criminosos integram simplesmente a tecnologia para se tornarem mais criativos e esquivos.

A agressão humana adapta-se simplesmente aos novos órgãos de comunicação social e inovações tecnológicas, descobrindo formas de expressar e até de se difundir através deles. Seja qual for a nova invenção em cem anos de comunicação, é provável que conheça o mesmo destino. Como Gustave Flaubert referiu, «Digam o que quiserem do progresso. Mesmo quando se extraem os caninos a um tigre e ele só consegue comer papas de aveia, no seu coração, continua a ser carnívoro».

A agressão humana nos indivíduos e nos grupos tende a emergir ou a aquecer quando nos sentimos impotentes e vulneráveis, quando cresce a impaciência pelo controlo e pelo efeito. E, como cada vez mais pessoas e grupos se sentem assim, podemos esperar mais e não menos deste fenómeno no futuro. As guerras tornar-se-ão mais desleais. A medida que as inseguranças crescem, haverá mais confrontos entre grupos políticos, entre culturas, entre gerações, entre homens e mulheres. E haverá ainda melhores e mais sofisticadas formas de os seres humanos justificarem a sua agressão para si mesmos e para o mundo.

A negação é mais forte do que nunca - é sempre a outra pessoa, o outro lado, a outra cultura que é mais agressiva e destrutiva. Teremos, por fim, de aceitar o facto de que não é o outro, mas nós próprios, todos nós, independentemente do tempo ou da cultura. Convém dominar este facto da nossa natureza antes de podermos considerar ultrapassá-lo. E apenas na nossa consciência que podemos começar a pensar em progresso.

 

Agressão passiva — as suas estratégias e como contrariá-las

 

A maior parte das pessoas tem receio de um confronto direto; queremos parecer provavelmente educados e sociáveis, Mas muitas vezes é impossível obter o que queremos sem nos afirmarmos de algum modo. As pessoas podem ser teimosas e resistentes à nossa influência, independentemente de quão simpáticos sejamos. Por vezes precisamos de libertar toda a tensão interior que surge de termos sido deferentes e corretos. Por isso todos temos inevitavelmente comportamentos em que nos afirmamos de modo indireto, ansiando por controlo ou influência da forma mais subtil possível. Talvez demoremos mais tempo a responder às comunicações das pessoas, para assinalar um ligeiro desprezo por elas; ou pareçamos elogiar os outros, mas fazemos sugestões subtis que se entranham e instilam dúvidas. Por vezes fazemos um comentário que poderia ser encarado como bastante neutral, mas o nosso tom de voz e expressão facial indicam que estamos aborrecidos, desencadeando sentimentos de culpa.

Chamamos passiva a esta forma de agressão, na medida em que damos a entender que estamos apenas a ser nós próprios, não manipulando ativamente tentando influenciar o outro. Seja como for, envia-se uma mensagem que cria o efeito que desejamos. Nunca somos tão passivos como parecemos ao assumir esta postura. Lá no fundo, estamos conscientes de estar a demorar bastante mais tempo a responder a alguém ou de incluir uma sugestão num comentário, mas ao mesmo tempo também podemos fingir para nós próprios e para os outros que somos inocentes. (Os seres humanos são capazes de ter pensamentos contraditórios ao mesmo tempo.) De modo geral, temos de considerar esta versão diária da agressão passiva apenas como uma parte irritante da vida social, algo de que todos somos culpados. Deveríamos ser tão tolerantes quanto possível face a esta agressão passiva de nível inferior que grassa na sociedade bem-educada.

No entanto, algumas pessoas são agressores passivos crónicos. Tal como os agressores mais ativos, têm geralmente um nível elevado de energia e necessidade de controlo, mas ao mesmo tempo receio de um confronto direto. Poderão ter tido pais dominadores ou negligentes; a agressão passiva tornou-se a sua forma de obter atenção ou de afirmarem a sua vontade, ao mesmo tempo que evitavam os castigos. Este tipo de comportamento torna-se um padrão para elas em adultos, visto que muitas vezes repetem os mesmos tipos de estratégias que funcionavam na infância. (Se observarmos o agressor passivo com a atenção suficiente, muitas vezes podemos ver a criança manipuladora espreitar por detrás da máscara do adulto.)

Estes tipos crónicos atuam numa relação pessoal ou profissional, em que as suas estratégias passivo-agressivas constantes, com o tempo, podem ter efeito sobre um indivíduo. São especialistas em ser ambíguos e esquivos nunca temos a certeza de nos estarem a atacar; talvez estejamos a imaginar coisas e a ser paranoicos. Se fossem diretamente agressivos, poderíamos zangar-nos e resistir, mas, ao serem indiretos, semeiam a confusão e exploram-na para obter poder e controlo. Se forem realmente bons nisto e conseguirem controlar as suas emoções, poderão fazer-nos a vida num inferno.

Tenha em mente que os indivíduos ativamente agressivos por vezes podem ser bastante passivo-agressivos, como Rockefeller era seguramente. A agressão

passiva é simplesmente uma arma adicional para eles nas suas tentativas de exercer o controlo. Em qualquer circunstância, a solução para nos defendermos dos agressivos passivos consiste em reconhecer quem são o mais rapidamente possível.

As estratégias que se seguem são as mais comuns utilizadas por estes agressores, apresentando-se também formas de as contrariar.

A Estratégia da Superioridade Subtil: Um amigo, colega ou funcionário chega cronicamente atrasado, mas tem sempre uma desculpa pronta que é lógica, além um pedido de desculpas que parece sincero. Ou, do mesmo modo, estes indivíduos esquecem-se de reuniões, de encontros importantes e de prazos, sempre com desculpas impecáveis à mão de semear. Se este comportamento se repetir muitas vezes, a sua irritação irá aumentar, mas, se tentar confrontá-los, poderão perfeitamente tentar inverter a situação e fazê-lo parecer rígido e insensível. Não é culpa deles, dirão - têm demasiadas coisas que os preocupem, as pessoas estão a pressioná-los, são artistas temperamentais que não conseguem manter-se a par de tantos pormenores irritantes, estão sobrecarregados. Poderão até acusá-lo de contribuir para o seu stresse.

Deverá compreender que na origem deste fenómeno está a necessidade de deixarem claro para eles próprios e para si que são de alguma forma superiores. Se tivessem de dizer claramente que se sentem superiores, cairiam no ridículo e sentir-se-iam envergonhados. Querem que o sinta de forma subtil, conseguindo ao mesmo tempo negar os seus planos. Pô-lo na posição inferior é uma forma de controlo, em que conseguem definir a relação. Deverá prestar atenção ao padrão, mais do que aos pedidos de desculpa, mas também reparar nos sinais não verbais quando se desculpam. O tom de voz é lamuriento, como se sentissem na verdade que o problema é seu. Os pedidos de desculpa são apresentados com grande veemência, para disfarçar a sua falta de sinceridade; finalmente, estas justificações dizem mais sobre os seus problemas na vida do que sobre os motivos do seu esquecimento. Na verdade, não estão nada arrependidos.

Se se tratar de um comportamento crónico, não deverá aborrecer-se ou exibir uma irritação aberta os agressores passivos vivem para conseguir deixar o outro exaltado. Em vez disso, mantenha-se calmo e reflita subtilmente o seu comportamento, chamando a atenção para o que estão a fazer e estimulando algum sentimento de vergonha, se possível. Poderá marcar encontros ou compromissos com eles e deixá-los à espera ou aparecer terrivelmente atrasado, com os pedidos de desculpa mais sinceros, combinados com um toque de ironia. Deixe-os matutar o que isto realmente significa. No início da sua carreira, quando o conhecido Psiquiatra Milton Erickson era professor na Faculdade de Medicina, teve de lidar aluna muito inteligente chamada Anne, que chegava sempre atrasada às aulas e depois pedia desculpas efusivas e de forma muito sincera. Na verdade, era uma aluna brilhante. Prometia sempre chegar a horas na aula seguinte, mas isso nunca acontecia. Era algo que dificultava a vida aos colegas, pois Anne dava palestras com frequência ou apresentava trabalho laboratorial. Ora, no primeiro dia de uma das aulas de Erickson em que ela deveria dar uma destas palestras parecia pronta para mais um dos seus truques, mas Erickson estava preparado. Quando entrou, atrasada, o professor mandou toda a turma levantar-se e fazer-lhe uma reverência trocista; ele próprio fez o mesmo. Inclusive depois da aula, enquanto atravessava o átrio, os alunos continuaram em vénia. A mensagem era clara: «Estamos a perceber-te.» Sentindo-se perturbada e envergonhada, deixou de chegar tarde.

Se lidar com um chefe ou alguém numa posição de poder que o faça esperar, a sua afirmação de superioridade não será tão subtil. O melhor que poderá fazer é manter-se o mais calmo possível, exibindo a sua própria forma de superioridade ao permanecer paciente e imperturbável.

A Estratégia da Comiseração: De alguma forma, a pessoa com que está a lidar é sempre a vítima - de hostilidade irracional, de circunstâncias injustas, da sociedade em geral. Repare que estes indivíduos parecem apreciar o enredo dramático das suas histórias. Ninguém sofre tanto como eles. Se tiver cuidado, poderá detetar uma expressão vagamente entediada quando ouvem os problemas das outras pessoas; não estão assim tão interessados. Como sobrevalorizam a sua suposta impotência, sentir-se-á naturalmente compassivo, e, quando o descobrem, irão pedir-lhe favores, mais carinho e atenção. E esse tipo de controlo que procuram. São hipersensíveis a quaisquer sinais de dúvida no seu rosto e não querem ouvir conselhos sobre como poderiam ser ligeiramente responsáveis. Poderão explodir e classificá-lo como um dos vitimizadores.

O que poderá dificultar a sua identificação é o facto de muitas vezes sofrerem efetivamente adversidades invulgares e sofrimento pessoal, mas são especialistas em atrair o sofrimento. Escolhem parceiros que os irão dececionar; têm uma atitude negativa no trabalho e atraem críticas; são negligentes relativamente aos pormenores e por isso as coisas à sua volta desmoronam. O responsável não é um destino malicioso, mas algo dentro de si que deseja o drama e se alimenta do mesmo. As pessoas que são verdadeiras vítimas não conseguem evitar sentir alguma vergonha e embaraço em relação ao seu destino, parte de uma superstição humana intemporal de que o azar de uma pessoa é sinal de que algo de mal se passa com esse indivíduo. Estas verdadeiras vítimas não gostam de contar as suas histórias. Fazem-no com relutância. Os agressores passivos, por outro lado, estão ansiosos por partilhar o que lhes aconteceu e por se deliciarem com a nossa atenção.

Como parte deste processo, poderão apresentar vários sintomas e achaques - de ansiedade, depressão, dores de cabeça que fazem o seu sofrimento parecer bastante real. Desde a infância, todos fomos capazes de desejar tais sintomas para obter atenção e apoio. Ficamos doentes de preocupação; podemos pensar ao ponto de ficar deprimidos. Deverá procurar este padrão: parece reaparecer nos agressores passivos quando precisam de algo (como um favor), quando acham que se está a afastar, quando se sentem especialmente inseguros. Em qualquer destas circunstâncias, tendem a absorver o seu tempo e espaço mental, contagiando-o com a sua energia e necessidades negativas, e é muito difícil libertar-se disso. Estes indivíduos muitas vezes perseguem os mais propensos a sentirem-se culpados — as pessoas sensíveis e preocupadas. Para lidar com a manipulação aqui envolvida, precisa de alguma distância, e não é fácil. A única forma de o fazer é sentir alguma raiva e revolta face ao tempo e energia que está a desperdiçar ao tentar ajudá-los e quão pouco eles lhe devolvem desse investimento na sua pessoa. A relação pende inevitavelmente a seu favor no que diz respeito a atenção. E esse o seu poder. Criar alguma distância interior irá permitir-lhe decifrá-los e eventualmente abandonar esse relacionamento tão pouco saudável. Não se sinta mal com isso. Ficará surpreendido com a rapidez com que irão encontrar outro alvo.

A Estratégia da Dependência: Torna-se subitamente amigo de alguém que se mostra invulgarmente atento e preocupado com o seu bem-estar. Quer ajudá-lo no seu trabalho ou noutras tarefas. Quer ouvir as suas histórias de mágoa e adversidade. Que refrescante e raro é receber este tipo de atenção! Descobre que se tornou extremamente dependente do que essa pessoa lhe dá. Mas, de vez em quando, deteta alguma frieza da sua parte e atormenta-se a tentar descobrir o que poderá ter dito ou feito para o desencadear. De facto, não consegue perceber bem se estes indivíduos estão aborrecidos consigo, mas dá consigo, mesmo assim, a tentar agradar-lhes e, aos poucos, sem realmente se reparar nisso, a dinâmica inverte-se, e as manifestações de solidariedade e preocupação parecem desviar-se de si para eles.

Por vezes instala-se uma dinâmica semelhante entre pais e filhos. Uma mãe, Por exemplo, pode inundar a filha de afeto e de amor, mantendo a menina ligada a ela, se a filha tentar em algum momento ser independente, a mãe responde-lhe corno se isto fosse um ato agressivo e frio da parte da filha. Para evitar sentir-se culpada, a rapariga para de se afirmar e esforça-se ainda mais por obter o afeto de que se tornou dependente. A relação inverte-se. Mais tarde, a mãe exerce o controlo sobre outros aspetos da vida da filha, incluindo dinheiro, carreira e companheiros amorosos. O mesmo pode acontecer com casais.

Uma variante desta estratégia surge com pessoas que gostam de fazer promessas (de ajuda, de dinheiro, de emprego), mas não as cumprem. De alguma forma, esquecem-se do que prometeram ou oferecerem-lhe apenas uma parte do sugeriram dar, sempre com uma desculpa razoável. Se se queixar, poderão acusá-lo de ser ganancioso ou insensível. Tem de andar atrás delas para compensar a sua indelicadeza ou para implorar um pouco daquilo que haviam prometido.

Esta estratégia tem sempre a ver com ganhar poder sobre outrem. A pessoa que se torna dependente é devolvida à posição da criança ávida e vulnerável, que deseja mais. É difícil imaginar que alguém que foi tão atento poderá usar esse facto como estratagema, o que o torna ainda mais árduo de descortinar. Deverá estar alerta contra quem for excessivamente solícito, demasiado cedo, numa relação. Não é natural, visto que normalmente desconfiamos um pouco das pessoas quando começamos a relacionar-nos com elas. Estas poderão estar a tentar torná-lo de alguma forma dependente e por isso deverá manter alguma distância antes de conseguir avaliar realmente os seus motivos. Se começarem a parecer frias e se sentir confuso relativamente ao que possa ter feito, estarão de certeza a usar esta estratégia. Se reagirem com raiva ou consternação quando tenta criar alguma distância ou independência, surgirá claramente o jogo de poder. Abandonar uma relação deste tipo deveria ser uma prioridade.

De modo geral, tenha cuidado com as promessas das pessoas e nunca confie completamente nelas. Com as pessoas que não cumprem o que prometem, muito provavelmente trata-se de um padrão, e é preferível não ter mais nada com elas.

A Estratégia da Dúvida Insinuante: Durante uma conversa, alguém que conhece, possivelmente um amigo, emite um comentário que o faz pensar em si próprio e se o estará de alguma forma a insultar. Pode elogiá-lo pelo seu trabalho mais recente e, com um sorriso débil, dizer que imagina que deva estar a receber muita atenção pelo mesmo, ou muito dinheiro, sugerindo dessa forma ter sido esse o seu motivo para o fazer. Poderá também parecer condená-lo com um elogio frouxo: «Saíste-te muito bem para alguém com os teus antecedentes.»

Robespierre, um dos líderes do Terror durante a Revolução Francesa, foi o mestre absoluto nesta estratégia. Acabou por encarar Georges Danton, seu amigo e outro líder do movimento, como um inimigo da revolução, mas não queria dizê-lo abertamente. Queria insinuá-lo aos outros e provocar medo em Danton. Em determinado momento, numa assembleia, Robespierre levantou-se para apoiar o amigo, que fora acusado de usar o seu poder no governo para fazer dinheiro. Ao defender Danton, Robespierre repetiu cuidadosamente todas as várias acusações apresentadas contra ele, em grande pormenor, e depois concluiu: «Posso estar enganado acerca de Danton, mas, como homem de família, ele é totalmente digno de louvor.»

Como variante deste aspeto, as pessoas podem dizer coisas duras sobre si e, se se mostrar abalado, acrescentar que estavam a brincar: «Não aguentas uma piada?»

Poderão interpretar as coisas que disse sob uma luz ligeiramente negativa e, se chamar a sua atenção para o facto, responderão inocentemente: “Mas estou apenas a repetir o que disseste!”

Poderão igualmente usar estes comentários insinuantes atrás das suas costas, para semear dúvidas nos outros acerca da sua pessoa. Também serão os primeiros a transmitir-lhe más notícias ou críticas ou as opiniões negativas de outrem, sempre expressas com solidariedade, mas deliciando-se secretamente com a sua dor.

O objetivo desta estratégia é fazê-lo sentir-se mal de uma forma insidiosa e que o leve a pensar durante dias nessa insinuação. Querem desferir golpes na sua autoestima. Na maior parte das vezes, agem por inveja. A melhor oposição consiste em mostrar que as suas insinuações não têm efeito sobre si. Permaneça calmo. «Concorde» com o seu elogio esbatido e retribua-o até, de forma semelhante. Querem uma reação intempestiva da sua parte, mas não lhes deverá dar esse prazer. Sugerir que talvez os consiga desmascarar irá provavelmente contagiá-los com as suas próprias dúvidas, uma lição que vale a pena dar.

A Estratégia do Desvio da Culpa: Com certas pessoas, sente-se irritado e abalado por algo que fizeram. Talvez se tenha sentido usado por elas ou elas tenham sido insensíveis ou ignorado os seus apelos no sentido de pôr fim a um comportamento desagradável. Mesmo antes de expressar o seu aborrecimento, parecem ter percebido o seu estado de espírito, e detetará uma espécie de amuo da sua parte. Quando realmente as confronta, ficam caladas, com um ar magoado ou dececionado. Não é o silêncio de alguém arrependido. Poderão responder com um “Muito bem. Como queiras. Se é o que sentes”. Quaisquer pedidos de desculpa da sua parte são pronunciados de uma forma (pelo tom de voz ou pelas expressões faciais) que convoca subtilmente alguma descrença de que fizeram algo de errado.

Se forem realmente argutas, poderão invocar algo que disse ou fez no passado, do qual se esqueceu, mas que ainda as faz sofrer, como se não fosse assim tão inocente. Não parece algo que tenha dito ou feito, mas não tem a certeza. Talvez digam algo em sua defesa capaz de desencadear uma reação da sua parte e, se se zangar, poderão acusá-lo de ser hostil, agressivo e injusto.

Seja qual for o seu tipo de resposta, ficará com a sensação de que, afinal, talvez estivesse errado. Talvez tenha exagerado ou esteja a ficar paranoico. Poderá até duvidar ligeiramente da sua sanidade - sente-se perturbado, mas talvez não possa confiar nos seus próprios sentimentos. Agora é o leitor quem se deve sentir culpado como se devesse ser responsabilizado pela tensão. É melhor reavaliar-se e não repetir esta experiência desagradável, diz a si mesmo. A acrescentar a esta estratégia os agressores passivos são muitas vezes extremamente simpáticos e educados com os outros, limitando-se a aplicar os seus jogos à pessoa que desejam controlar.

Se tentar confidenciar a alguém a sua confusão e raiva, não obterá apoio, e o desvio de culpas terá o dobro do efeito.

Esta estratégia consiste numa forma de disfarçar todo o tipo de comportamentos desagradáveis ou de defletir qualquer crítica, além de deixar as pessoas nervosas relativamente ao seu comportamento. Desta forma, podem controlar as suas emoções e manipulá-las como bem lhes aprouver, fazendo o que lhes apetecer com toda a impunidade. Exploram o facto de muitas pessoas, desde a primeira infância, serem propensas a sentir-se culpadas com os menores pretextos. Esta estratégia é usada de forma mais óbvia em relações pessoais, mas encontra-a de forma mais generalizada no mundo profissional. As pessoas usam a sua hipersensibilidade a qualquer crítica, e aos dramas que acalentam, para dissuadir os outros de tentar confrontá-las.

Para contrariar esta estratégia, deve ser capaz de desmascarar o desvio de culpas e de não se deixar afetado por ele. O seu objetivo não é fazê-las zangarem-se, por isso não se deixe enredar em trocas de recriminações. São melhores nesse jogo emocional do que o leitor e florescem devido à sua capacidade de o irritar. Mantenha-se calmo e até justo, aceitando parte da responsabilidade pelo problema, se lhe parecer adequado. Tenha em conta que é muito difícil conseguir que estes indivíduos reflitam sobre o seu comportamento e o alterem; são demasiado hipersensíveis para isso.

O que deseja é conseguir a distância necessária para os desmascarar e libertar-se deles. Para agilizar o processo, deverá aprender a confiar nos seus sentimentos anteriores. Nos momentos em que o irritarem, escreva o que estão a fazer e registe o seu comportamento. Se o fizer, talvez se aperceba de que está de facto a reagir de forma exagerada. Caso contrário, pode regressar a estas notas para se convencer de que não está louco e interromper o mecanismo de desvio de culpas. Se não permitir que esse desvio aconteça, poderão deixar de se sentir motivados para usar esta estratégia. Se não, será preferível reduzir o seu envolvimento com um agressor passivo deste tipo.

A Estratégia do Tirano Passivo: A pessoa para quem trabalha parece fervilhar de energia, ideias e carisma. Estes indivíduos são um pouco desorganizados, mas isso é normal - têm muita coisa para fazer, muitas responsabilidades e muitos planos, não podem estar em cima de tudo. Precisam da sua ajuda, e esgotará cada fibra do seu ser para a providenciar. Ouve as suas indicações com uma atenção extrema e tenta executá-las. De vez em quando, elogiam-no, e isso permite-lhe continuar, mas por vezes repreendem-no por os desiludir, e isso fica-lhe na cabeça, mais do que qualquer louvor.

Nunca se sente à vontade ou toma o seu cargo como garantido. Tem de se esforçar ainda mais para evitar estes terríveis discursos temperamentais. São muito

perfecionistas, com padrões muito elevados, e nunca se sente à altura dos mesmos. Massacra-se a antecipar as suas necessidades e vive no terror de lhes desagradar. Se lhe dessem ordens com veemência, faria simplesmente o que lhe pedissem. Mas, serem um pouco passivos e instáveis, obrigam-no a trabalhar com o dobro do afinco para os satisfazer.

Esta estratégia normalmente é usada por quem se encontra no poder relativamente aos seus subalternos, mas pode ser aplicada por qualquer pessoa em relacionamentos, com um dos envolvidos a tiranizar o outro por ser simplesmente impossível de agradar. A estratégia baseia-se na lógica seguinte: se as pessoas souberem o que deseja e como o obter, terão algum poder sobre si. Se seguirem as suas indicações e ordens, não as poderá criticar. Se forem coerentes, pode até tornar-se dependente do seu trabalho, e elas conseguirão concessões da sua parte ameaçando ir-se embora. Mas, se não fizerem qualquer ideia do que realmente funciona, se não conseguirem discernir exatamente que tipo de comportamento atrai elogios e qual suscita castigo, não terão poder, independência, e poderão ser obrigadas a fazer qualquer coisa. Como acontece com um cão, uma festa ocasional no lombo acentuará a sua submissão.

Se as pessoas abandonarem estes tiranos, estes não se importarão com isso. O facto demonstra que o indivíduo conserva alguma independência. Encontrarão um substituto que seja ainda mais submisso, pelo menos por algum tempo. Também podem piorar o seu comportamento para testar certos indivíduos e conseguir que estes se despeçam ou se sujeitem. Estes tiranos podem tentar agir como crianças impotentes. São o artista temperamental ou o génio, naturalmente brilhantes e distraídos. Os seus pedidos de ajuda à sua pessoa e a sua necessidade urgente daquilo que faça mais parecem expressar a sua vulnerabilidade. Usam essa fragilidade fingida para justificar a vertente negativa da sua tirania.

É muito difícil criar uma estratégia contra estes indivíduos porque na maior parte das vezes são seus superiores e têm um poder real sobre si. Tendem a ser hipersensíveis e dados à ira, o que torna qualquer forma de resistência ou distanciamento interior difícil de manter. Uma rebelião aberta irá apenas piorar a situação.

 Deverá primeiro perceber que esta sua estratégia é mais consciente do que parece. Não são fracos e impotentes, mas tiranos astutos. Em vez de se agarrar a algo de positivo que tenham dito ou feito, pense apenas nas suas manipulações e dureza. A sua capacidade de se distanciar deles emocionalmente irá neutralizar a presença obsessiva que tentam instilar. Mas, no fim, nada irá funcionar realmente porque, se na sua hipersensibilidade detetarem distância, a sua atitude não fará mais que piorar. A única solução é despedir-se e recuperar. Nenhum cargo justifica este tipo de abuso, porque os danos na sua autoestima podem demorar anos a sarar.

 

Agressão controlada

 

Nascemos com uma energia poderosa que é marcadamente humana. Podemos chamar-lhe força de vontade, assertividade ou mesmo agressão, mas está combinada com a nossa inteligência e engenho. Foi-nos revelada no seu estado mais puro durante a infância. Esta energia tornou-nos ousados e temerários, não apenas fisicamente, mas também a nível mental, desejando explorar ideias e assimilar conhecimento. Fez-nos procurar ativamente amigos com quem pudéssemos explorar juntos. Também nos tornou bastante incansáveis na resolução de problemas ou na obtenção do que desejávamos. (As crianças podem muitas vezes ser ousadas naquilo que pedem.) Tornou-nos abertos ao mundo e a novas experiências. E, se nos sentirmos frustrados e impotentes durante longos períodos, esta mesma energia pode tornar-nos invulgarmente combativos.

Quando crescemos e deparamos com frustrações crescentes, resistência por parte dos outros e sentimentos de ânsia impaciente de poder, algumas pessoas podem tornar-se cronicamente agressivas. Mas outro fenómeno é ainda mais comum: ficamos pouco à vontade e mesmo assustados com essa energia assertiva interior e com o nosso potencial para o comportamento agressivo. Sermos assertivos e temerários pode conduzir a uma ação falhada, fazendo-nos sentir expostos e vulneráveis. Se expressarmos demasiado esta energia, as pessoas poderão não gostar de nós. Poderemos provocar conflito. Talvez os nossos pais nos tenham igualmente induzido alguma vergonha das nossas explosões agressivas. Seja como for, podemos acabar por encarar a parte agressiva do eu como perigosa. Mas, visto que não é possível esta energia desaparecer, volta-se para dentro, e criamos aquilo a que o psicanalista inglês Ronald Fairbairn chamou o sabotador interior.

O sabotador atua como um perseguidor a partir de dentro, julgando-nos e atacando-nos constantemente. Se estivermos prestes a tentar algo, lembra-nos do potencial para o fracasso. Tenta abafar qualquer exuberância, porque isso nos poderia abrir a críticas por parte dos outros. Deixa-nos pouco à vontade com sensações de prazer ou com a expressão de uma emoção profunda. Impele-nos a abafar as nossas ambições, a enquadrarmo-nos melhor no grupo e a não nos destacarmos. Quer que nos refugiemos no interior, onde nos podemos proteger' mesmo que isso leve à depressão. E faz-nos criar um eu falso para apresentarmos ao mundo, um eu que seja humilde e discreto. No fim, o sabotador interior opera no sentido de nos reduzir a energia e de limitar o que fazemos, tornando o nosso mundo mais gerível e previsível, mas também bastante morto. É o mesmo objetivo que o agressor - ganhar controlo sobre a incerteza -, mas através de meios contrários. O sabotador interno também pode ter um efeito amortecedor nas nossas capacidades mentais. Desencoraja-nos de sermos ousados e temerários em pensamento. Limitamos as nossas ideias e adaptamo-nos às opiniões convencionais do grupo porque é mais seguro. As pessoas criativas apresentam grande agressividade a nível de pensamento, visto que experimentam muitas opções e procuram soluções possíveis. Ao tentarmos livrar-nos de qualquer tipo de impulso agressivo, acabamos por frustrar as nossas energias criativas.

Compreender: O problema nunca foi os seres humanos serem assertivos e agressivos. Isso seria ver um problema na nossa própria natureza. Os aspetos positivos e negativos desta energia não passam de dois lados da mesma moeda. Tentar abafar os negativos, entregarmo-nos ao sabotador interior, apenas amortece os positivos. O verdadeiro problema reside em não sabermos dominar esta energia num adulto, de uma forma produtiva e pró-social. Esta energia tem de ser aceite como absolutamente humana e potencialmente positiva. O que devemos fazer é dominá-la e treiná-la

para os nossos próprios objetivos. Em vez de sermos cronicamente agressivos, passivo-agressivos ou recalcados, podemos tornar esta energia concentrada e racional. Como todas as formas de energia, quando é concentrada e sustentada, tem muita força subjacente. Ao seguir tal caminho, podemos recuperar parte do espírito puro que tínhamos em criança, sentindo-nos mais ousados, mais integrados e mais autênticos.

Seguem-se os quatro elementos potencialmente positivos desta energia que podemos disciplinar e usar, melhorando o que a evolução nos concedeu.

Ambição: Dizer que se é ambicioso, no mundo de hoje, é muitas vezes reconhecer algo ligeiramente mau, revelando talvez demasiado egocentrismo. Mas recue um pouco e pense na sua infância e juventude — acalentava inevitavelmente grandes sonhos e ambições para a sua pessoa. De alguma forma, deixaria uma marca neste mundo. Representava mentalmente várias cenas de futura glória. Era um impulso natural da sua parte e não sentia qualquer vergonha por isso. Então, ao crescer, provavelmente tentou abafar este aspeto. Ou manteve as suas ambições em segredo e apresentadas com modéstia ou deixou de todo de sonhar, tentando evitar parecer egocêntrico e ser julgado por isso.

Grande parte deste desprezo pela ambição e pelas pessoas ambiciosas tem origem, na nossa cultura, numa grande inveja das realizações de outros. Asfixiar as ambições da juventude é sinal de que não gosta de si ou de que não se respeita; já não acredita que merece ter o poder e o reconhecimento com que em tempos sonhou. Isso não o torna mais adulto, mas simplesmente mais propenso a falhar ao reduzir as suas ambições, limita as suas possibilidades e diminui a sua energia. Em qualquer circunstância, ao tentar parecer sem ambições, será tão egocêntrico como qualquer outra pessoa; ser humilde e virtuoso é a sua ambição e pretende fazer gala dela.

Algumas pessoas permanecem ambiciosas à medida que envelhecem, mas as suas ambições são demasiado vagas. Querem sucesso, dinheiro e atenção. Devido a esta imprecisão, é difícil sentirem que satisfizeram os seus desejos. O que constitui dinheiro, sucesso ou poder suficiente? Sem saberem bem o que querem, não conseguem impor um limite aos seus desejos, e, embora não seja sempre o caso, isto pode levá-las a um comportamento agressivo, na medida em que procuram sempre mais e não sabem quando parar.

Em vez disso, o que deverá fazer é aceitar essa sua parte infantil, revisitar as suas ambições originais, adaptá-las à sua realidade atual e torná-las tão específicas quanto possível. Desejará escrever um livro muito particular, expressando algumas ideias ou emoções profundas; lançar o tipo de negócio que sempre o entusiasmou; criar um movimento cultural ou político para lidar com uma causa em particular. Esta ambição específica pode ser bastante grandiosa, mas pode visualizar de forma bastante clara o seu ponto final e como lá chegar. Quanto mais claramente divisar o que deseja, mais provável será concretizá-lo. As suas ambições podem implicar desafios, mas não deveriam estar tão acima da sua capacidade que se prepare apenas para o fracasso.

Logo que a sua meta seja alcançada, independentemente do tempo que isso demore, deve voltar-se para uma nova ambição, para um novo projeto, sentindo uma imensa satisfação pelo facto de ter concretizado o último. Não deve parar neste processo ascendente, desenvolvendo impulso. A solução reside no nível de desejo e na energia agressiva que põe em cada projeto ambicioso. Não se contagie com dúvidas e culpa; mantenha-se em harmonia com a sua natureza e será largamente recompensado por isso.

Persistência: Se observar as crianças, irá reparar quão obstinadas e incansáveis são quando querem alguma coisa. Essa persistência é natural no ser humano, mas é uma qualidade que tendemos a perder quando envelhecemos e a nossa autoconsciência se esbate. E muitas vezes o que acontece mais tarde, na vida, quando enfrentamos um problema ou alguma resistência: reunimos a energia para lidar com ele, mas, lá no fundo, temos algumas dúvidas - Estaremos ao nível da tarefa? Esta ligeira redução da autoconfiança traduz-se numa diminuição da energia com a qual enfrentamos o problema. Isto leva a um resultado menos eficaz, que faz subir ainda mais o volume das dúvidas de fundo, diminuindo o efeito da nossa próxima ação ou golpe. A dado momento, reconhecemos a derrota e desistimos. Mas, inevitavelmente, fazemo-lo demasiado depressa. Rendemo-nos interiormente muito antes de nos rendermos exteriormente.

O que deverá compreender é o seguinte: quase nada no mundo consegue resistir à persistência da energia humana. Tudo vergará se desferirmos os golpes suficientes, com a força suficiente. Veja quantas grandes figuras ao longo da história tiveram sucesso desta forma. Foi a persistência meticulosa ao longo de vários anos que permitiu a Thomas Edison inventar a forma adequada para a lâmpada e a Marie Curie descobrir o rádio. Continuaram simplesmente onde outros haviam desistido. Ao longo de dez anos, foi através de experiências constantes, dia e noite, explorando todas as soluções possíveis, que Albert Einstein acabou por descobrir a teoria da relatividade. No campo espiritual, o grande mestre zen do século XVIII Hakuin conseguiu finalmente alcançar a iluminação e revitalizar um ramo moribundo do budismo zen porque se aplicou na tarefa com uma persistência incansável, ao longo de cerca de vinte anos. Trata-se de energia agressiva, indivisa, visando, com uma incidência de laser, um problema ou ponto de resistência. E por isso que, quando a criança, o cientista ou o iniciado de zen quer algo com tal intensidade, nada os irá deter. Compreendem o poder da persistência, logo, o processo torna-se uma profecia autorrealizada — ao saberem o seu valor, conseguem reunir a energia e a autoconfiança para resolverem o problema. Adotaram o lema de Aníbal: «Ou encontro um caminho ou abro um caminho.» Devemos fazer o mesmo. O truque é desejar algo com tal intensidade que nada o deterá ou entorpecerá a sua energia. Encha-se do desejo necessário para alcançar uma meta. Treine-se para não desistir tão facilmente como no passado. Continue a atacar assumindo ângulos novos, formas novas. Esqueça as dúvidas de fundo e continue a atacar com toda a força, sabendo que irá conseguir, desde que não desista. Quando sentir o poder sob esta forma de ataque, continuará a regressar ao mesmo.

Intrepidez: Somos, por natureza, seres ousados. Na infância, não tínhamos medo de pedir mais ou de afirmar a nossa vontade. Eramos espantosamente resilientes e destemidos de muitas formas. A timidez é uma qualidade que geralmente adquirimos. E uma função dos nossos medos crescentes quando envelhecemos e corresponde a uma perda de confiança na capacidade de obtermos o que desejamos. Ficamos mais preocupados com o modo como as pessoas nos veem e preocupamo-nos com o que elas possam pensar se fizermos ouvir a nossa voz. Interiorizamos as suas dúvidas. Ficamos com medo de qualquer tipo de conflito ou confronto, o que agitará as emoções e conduzirá a consequências que não podemos prever ou controlar. Desenvolvemos o hábito de transigir. Não dizemos o que sentimos mesmo quando seria apropriado e não definimos limites ao comportamento prejudicial dos outros. Temos dificuldade em pedir um aumento, uma promoção ou o respeito que nos é devido. Perder a ousadia, uma forma positiva de agressão, significa ficar sem uma parte profunda do eu, sendo inevitavelmente doloroso.

Devemos tentar recuperar a intrepidez que já foi nossa, através de passos progressivos. A solução é primeiro convencer-se de que merece coisas boas e melhores na vida. Quando o sentir, pode começar a treinar-se para dizer o que pensa ou mesmo responder às pessoas em situações do dia a dia, se estas provarem ser insensíveis. Estará a aprender a defender-se. Poderá referir aos outros o seu comportamento passivo-agressivo, não ser tão tímido a expressar uma opinião que possam não partilhar ou dizer-lhes o que realmente pensa das suas más ideias. Acabará com frequência por se aperceber de que tem menos a recear ao fazê-lo do que havia imaginado. Poderá até ganhar algum respeito. Experimente aos poucos, todos os dias.

Quando perder o medo destes encontros menos dramáticos, pode começar a avançar. Exija então às pessoas que o tratem bem ou que respeitem a qualidade do trabalho que realiza. Faça-o sem assumir um tom de queixa ou de defesa. Deixe claro, perante os opressores, que não é tão manso como parece ou tão facilmente manipulado como os outros. Pode ser tão inflexível como eles ao defender os seus interesses. Em negociações, pode treinar-se a não se ficar por pouco, mas a fazer exigências mais ousadas e ver até onde pode pressionar o outro lado.

Pode aplicar esta ousadia crescente ao seu trabalho. Não tenha tanto medo de criar algo que seja único ou de enfrentar a crítica e o fracasso. Corra riscos razoáveis e teste-se. Tudo isto deverá reforçar-se lentamente, como um músculo que atrofiou, para não arriscar uma batalha de grande escala ou uma reação agressiva antes de ter endurecido para enfrentar as mesmas. Mas, depois de ter desenvolvido este músculo, ganhará a certeza de que pode enfrentar qualquer adversidade na vida com uma atitude destemida.

É natural e saudável sentir raiva de certos tipos de pessoas aquelas que, de forma injusta, bloqueiam o seu avanço, dos muitos tolos com poder, mas que são preguiçosos e incompetentes, dos críticos hipócritas que abraçam os seus clichés com grande convicção e que o atacam sem compreenderem os seus pontos de vista. A lista poderia prolongar-se eternamente. Sentir essa raiva pode ser um poderoso dispositivo de motivação no sentido de tomar algum tipo de ação. Pode enchê-lo de energia valiosa. Deveria aceitá-la e usá-la na sua vida para esse objetivo. O que poderá fazê-lo conter ou abafar a sua raiva é o facto de esta ser uma emoção muito tóxica ou negativa, como muitas vezes acontece na nossa cultura.

O que torna a raiva algo tóxico é o nível a que se encontra desligada da realidade. As pessoas canalizam as suas frustrações naturais sob a forma de raiva para um inimigo ou bode expiatório indeterminado, convocado e difundido por demagogos. Imaginam grandes conspirações por detrás de realidades simples e ineludíveis, como os impostos, o globalismo ou as mudanças que fazem parte de todos os períodos históricos. Acreditam que certas forças no mundo devem ser responsabilizadas pela sua falta de sucesso ou de poder, em vez da sua própria impaciência e falta de forço. Não há racionalização por detrás da sua raiva, e por isso esta não leva a lado nenhum ou torna-se destrutiva.

Deverá fazer o contrário. Dirigir a sua raiva para indivíduos e forças muito específicos. Analise a emoção: Tem a certeza de que a sua frustração não tem origem nas suas próprias imperfeições? Compreende de facto a causa da raiva e aquilo para que deveria direcionar-se? Além de determinar se se justifica e para onde a raiva deveria ser dirigida, analise também a melhor forma de canalizar esta emoção, a melhor estratégia para derrotar os seus adversários. A sua raiva deverá ser controlada, realista e dirigida para a verdadeira fonte do problema, nunca perdendo de vista o que inicialmente a inspirou.

A maior parte das pessoas envolve-se numa libertação catártica da raiva, num protesto gigantesco, e quando essa desaparece voltam a cair na complacência ou tornam-se amargas. Deverá deixar arrefecer a raiva, cozinhá-la em lume brando, em vez de a fazer levantar fervura. A sua raiva controlada ajudá-lo-á a obter a determinação e a paciência de que precisa para o que poderá ser uma luta mais demorada do que imaginou. Mantenha a deslealdade e a injustiça no fundo da sua mente e permita que o mantenham energizado. A verdadeira satisfação não decorre num espasmo emocional, mas de derrotar efetivamente o opressor e de expor o tacanho por aquilo que são.

Não tenha medo de usar a sua raiva no trabalho, especialmente se estiver aliado a alguma causa ou se se expressar através de algo criativo. E muitas vezes a impressão de raiva contida que torna o orador tão eficaz; foi esta a fonte de muito do carisma de Malcolm X. Veja as obras de arte mais marcantes e envolventes e poderá muitas vezes ler ou sentir a raiva contida que se esconde por detrás delas. Somos todos tão delicados e corretos que, quando sentimos a raiva cuidadosamente canalizada num filme ou num livro ou o que quer que seja, é como uma lufada de ar fresco. Atrai todas as frustrações e ressentimentos e dá-lhes vazão. Reconhecemos que se trata de algo real e genuíno. Num trabalho expressivo, nunca se acanhe e evite libertar a raiva, mas controle-a e canalize-a, deixando-a respirar no seu trabalho num sentido de vida e de movimento. Ao dar expressão a essa raiva, encontrará sempre público.

“É necessário poder para a comunicação. Estar perante um grupo indiferente e hostil e ter algo a dizer ou transmitir de forma sincera, a um amigo, verdades profundas e que magoam é algo que exige autoafirmação, assertividade e até, por vezes, agressão.” - Rollo May

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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