# 13 Lei da Futilidade - 13/18 Robert Greene

 



# 13 Lei da Futilidade – Avance com noção de propósito

 

Ao contrário dos animais, com os instintos capazes de os guiar através dos perigos, os seres humanos têm de confiar nas suas decisões conscientes. Fazemos o melhor que conseguimos quando se trata do percurso profissional e de lidar com os inevitáveis impasses da vida. Mas, lá bem no fundo, captamos uma ausência generalizada de direção, enquanto somos empurrados para aqui e para ali pelos nossos estados de espírito e pelas opiniões dos outros. Como viemos parar a este emprego, a este sítio? Semelhante deriva pode conduzir-nos a becos sem saída. A forma de evitar tal destino reside em desenvolver uma noção de objetivo, descobrir a nossa vocação e usar esse conhecimento para nos guiar nas nossas decisões. Acabaremos por nos conhecer mais profundamente aos nossos gostos e inclinações. Confiaremos em nós, sabendo que batalhas e desvios evitar. Até os nossos momentos de dúvida, os nossos fracassos, ganharão um propósito — endurecer-nos. Com esta energia e direção, as nossas ações assumirão uma força imparável.

Caso Martin Luther King Jr

 

Interpretação: Martin Luther King Jr. foi um homem complexo, com várias facetas na sua personalidade. Havia um King amante do prazer, que gostava de roupas belas, de comida, de dançar, de mulheres e que tinha um comportamento travesso. Havia um King sensível e introspetivo, uma faceta que o fazia pender cada vez mais para atividades espirituais. Estas vertentes entravam muitas vezes em conflito umas com as outras, quando sucumbia a estados de espírito passageiros. Foi o que o levou muitas vezes a atormentar-se com determinadas decisões. Os que a ele estavam ligados podiam por vezes sentir-se perturbados pela profundidade com que considerava as suas opções e pela frequência com que duvidava de si mesmo, imaginando que não era merecedor do papel que fora chamado a representar.

O seu relacionamento com o pai refletia essa complexidade. Por um lado, amava-o e respeitava-o verdadeiramente, o suficiente para pensar em tornar-se pastor e emular o seu estilo de liderança. Por outro, tornou-se consciente desde cedo dos perigos que se seguiriam se se permitisse sentir-se esmagado pela presença dominadora do pai. O irmão mais novo, A. D. King, carecia desta consciência, um facto que lhe trouxe muito sofrimento. A. D. tornou-se pastor, mas nunca conseguiu afirmar a sua independência. A sua carreira foi errática, tendo saltitado de igreja em igreja. Desenvolveu um problema com o álcool e, mais tarde, revelou uma tendência autodestrutiva evidente que abalou o irmão mais velho. A. D. viveu na sombra do pai.

Algo vindo do fundo de Martin Jr. o impeliu a criar algum distanciamento e autonomia. Isso não significava rebelar-se impensadamente contra o pai, o que acabaria por revelar quão definido fora por ele. Significava compreender as diferenças entre eles e usar essas diferenças como alavancas para criar espaço. Significa aproveitar o melhor do pai - a sua disciplina, o seu elevado sentido de princípio, a sua natureza carinhosa. E significava singrar o seu próprio caminho quando algo de dentro o urgia a fazê-lo. Treinou-se a ouvir essas intuições, que conduziram à decisão de começar a carreira política em Montgomery e a aceitar a posição de presidente da MIA. Em momentos como esses, era como se conseguisse prever o seu destino e abdicar do hábito de pensar demasiado nas coisas.

Então, algumas semanas depois de se tornar líder da MIA, quando começou a sentir a tensão crescente que a posição acarretava, as muitas vertentes da sua personalidade subitamente entraram em conflito e conduziram-no a uma crise interior. Havia o King que não acreditava em si mesmo, o King medroso, o King prático, frustrado pelos intermináveis obstáculos e lutas intestinas, o King que ansiava por uma vida mais simples e mais agradável. Este conflito interior paralisava-o. E, enquanto tudo isso chegava ao auge na noite em que entrou na cozinha, subitamente essas tendências e intuições que o haviam guiado antes na vida transformaram-se numa voz real, a voz de Deus, que lhe esclarecia o destino e oferecia apoio eterno. Conseguia ouvir essa voz tão claramente do seu interior que ela ecoava e ressoava por toda a sua vida.

A partir de então, em conversas e discursos, referia-se constantemente a esta «voz» que agora o guiava. E com esta voz as dúvidas, medos e conflitos internos debilitantes desapareciam. Sentia-se integrado num nível completamente novo. Certamente as oscilações de humor e as ansiedades iriam regressar, mas a voz também, tornando a sua missão muito clara para ele.

As pessoas muitas vezes sentiam-se surpreendidas, e por vezes perturbadas, por quão estratégico se tornara no seu papel de liderança alargado a nível nacional. Durante e depois de cada campanha pelos direitos civis, realizava uma análise profunda das ações e reações do outro lado, tirando lições e apurando táticas. Para alguns, o facto não se adequava com a sua posição de líder espiritual como acontecia, por exemplo, quanto à decisão de usar crianças e adolescentes em Birmingham como forma de encher as prisões da cidade. Os pastores não deviam pensar assim. Mas, para King, tal pragmatismo estava intimamente ligado com a sua missão. Inspirar apenas as pessoas com discursos era algo sentimental, e detestava-o. Não pensar profundamente nos resultados era procurar apenas atenção para parecer justo e satisfazer o ego. Martin queria desenvolver a mudança, alterar de forma drástica e palpável as condições dos negros no Sul.

E assim acabou por compreender que o que estava em causa era ganhar vantagem contra os brancos que se encontravam no poder, que resistiam à mudança a cada passo. Teve de recorrer a protestos e boicotes para maximizar o sofrimento que eles sentiam, mesmo durante o processo de negociação. Teve de maximizar a atenção por parte da imprensa e levar para as salas de estar da América branca a horrível realidade da vida no Sul, para os negros. O seu objetivo estratégico era a sua consciência. Teve de manter o movimento unificado perante o desejo crescente de violência entre os negros mais novos. E, quando a voz o lembrava do seu objetivo derradeiro, defender e pôr em prática a verdadeira justiça, sentia-se naturalmente obrigado a alargar a luta a uma campanha maciça de desobediência civil.

Num certo sentido, King seria a voz da América negra, assumindo um papel semelhante ao da voz que o guiara. Procuraria trazer unidade à causa e manter o movimento concentrado em resultados práticos em vez de em conflitos internos debilitantes.

Os seus surtos depressivos, que se tornaram cada vez mais intensos nos últimos anos, tiveram origem na sua profunda sensibilidade não apenas às pessoas que o rodeavam (a inveja e as críticas constantes que enfrentava) mas ao zeitgeist. Antes dos outros, sentia o espírito da América, a dura realidade da guerra no Vietname, o desespero nas cidades interiores, a inquietação dos jovens e a sua vontade de se evadirem da realidade através da droga, a cobardia da liderança política. Associava isto à sua própria noção de destino - sabia que seria assassinado. Tais estados de espírito esmagavam-no. Mas a voz que ouvira tantos anos antes, em Montgomery, permitia-lhe reprimir os seus medos e erguer-se acima da depressão. Sempre que se sentia ligado à sua missão e objetivo na vida, experimentava uma profunda sensação de realização. Estava a fazer aquilo para que fora chamado e não teria trocado esta vida por qualquer outra. Nos seus últimos dias, a ligação tornou-se ainda mais profunda: levaria a mudança às pessoas de Memphis, mas o seu destino iria interromper este processo.

Compreender: Em muitos sentidos, o dilema que King enfrentava é o dilema que todos nós enfrentamos na vida, devido a um elemento profundo na natureza humana. Somos todos complexos. Gostamos de apresentar uma imagem ao mundo que é coerente e madura, mas sabemos interiormente que somos objeto de muitos humores diferentes e que usamos muitos rostos diferentes, dependendo das circunstâncias. Podemos ser práticos, sociais, introspetivos, irracionais, dependendo do espírito do momento. Este caos interior, na verdade, causa-nos sofrimento. Falta-nos uma noção de coerência e de sentido para a vida. Poderíamos escolher vários caminhos, dependendo das nossas oscilações emocionais, que nos empurram para aqui e para ali. Porquê ir para aqui em vez de para ali? Deambulamos pela vida, nunca alcançando realmente as metas que consideramos tão importantes para nós ou percebendo o nosso potencial. Os momentos em que sentimos clarividência e propósito fugazes. Para atenuar a dor da nossa ausência de objetivos, podemos enredar-nos em várias dependências, procurar novas formas de prazer ou ceder a alguma causa que nos interesse por alguns meses ou semanas.

A única solução para o dilema é a solução de King descobrir um sentido superior de propósito, uma missão que nos apresente o nosso próprio sentido, não o dos nossos familiares, amigos ou pares. Esta missão está profundamente ligada à nossa individualidade, ao que nos torna únicos. Como King expressou: «Temos a responsabilidade de nos lançarmos à descoberta daquilo para que fomos feitos, de descobrir a tarefa da nossa vida, de descobrir aquilo para que fomos chamados. E, depois de o descobrirmos, deveríamos fazê-lo com toda a força e toda a intensidade que consigamos reunir.» Esta «tarefa da vida» é aquilo que estamos talhados para fazer, de acordo com as nossas competências, talentos e inclinações particulares. E a nossa vocação. Para King, foi um impulso no sentido de descobrir o seu próprio caminho, de fundir o lado prático com o espiritual. Descobrir este sentido superior de propósito dá-nos a integração e o sentido por que ansiamos.

Considere esta «tarefa da vida» como algo que lhe fala de dentro — uma voz. Esta voz muitas vezes irá avisá-lo quando se envolver em confusões desnecessárias ou quando estiver prestes a enveredar por caminhos profissionais que não se adequam ao seu temperamento, devido à falta de à vontade que sente. Direciona-o para atividades e metas que se adequam à sua natureza. Quando a ouve, sente que atinge maior clarividência e completude. Se ouvir com a atenção suficiente, irá direcioná-lo para o seu destino em particular. Pode ser encarada como algo espiritual ou algo pessoal ou ambos.

Não é a voz do seu ego, que deseja atenção e uma gratificação rápida, algo que o divide mais a partir de dentro. Em vez disso, absorve-o na sua tarefa e no que tem de fazer. As vezes é difícil de ouvir, visto que a sua mente está cheia de vozes de outros que lhe dizem o que deveria ou não fazer. Ouvi-la exige introspeção, esforço e prática. Quando segue as suas orientações, tendem a acontecer coisas positivas. Ganha a força interior para fazer o que tem de fazer e não ser arrastado por outras pessoas, que têm os seus próprios planos. Ouvir esta voz irá sintonizá-lo com os seus objetivos mais latos e ajudá-lo a evitar os desvios. Torná-lo-á mais estratégico, concentrado e adaptável. Quando a ouvir e compreender o seu Objetivo, não haverá volta a dar, O seu rumo ficará definido, e desviar-se do mesmo causará ansiedade e sofrimento.

Quem tem uma razão para viver pode suportar praticamente qualquer forma de vida.

—Friedrich Nietzsche

  

Explicações para a natureza humana

No mundo de hoje, os seres humanos enfrentam uma dificuldade especial: mal a nossa formação chega ao fim, deparamo-nos subitamente lançados no mundo do trabalho, onde as pessoas podem ser impiedosas e a competição é feroz. Apenas alguns anos antes, se tivéssemos sorte, os nossos pais satisfaziam-nos as necessidades e estavam presentes para nos guiar; em alguns casos, eram superprotetores. Agora estamos sozinhos, com pouca ou nenhuma experiência de vida em que confiar. Temos de tomar decisões e de fazer opções que afetarão todo o nosso futuro.

Num passado não muito longínquo, a carreira e as escolhas de vida das pessoas eram bastante limitadas. Estabeleciam-se em empregos ou cargos específicos que estavam disponíveis para elas e permaneciam nos mesmos durante décadas. Algumas figuras mais velhas — mentores, parentes, líderes religiosos — podiam sugerir algum propósito, se fosse necessário. Mas essa estabilidade e ajuda são difíceis de encontrar nos dias de hoje, visto que o mundo está a mudar mais depressa. Toda a gente se deixa enredar na difícil luta pela sobrevivência; as pessoas nunca estiveram tão preocupadas com as suas próprias necessidades e planos. O conselho dos nossos pais poderá ser totalmente antiquado nesta nova ordem. Face ao presente estado de coisas, tendemos a reagir de uma de duas formas.

Algumas pessoas, empolgadas com todas as mudanças, aceitam efetivamente esta nova ordem. São jovens e estão cheias de energia. O grande leque de oportunidades oferecidas pelo mundo digital deslumbra-as. Podem experimentar, testar muitos empregos diferentes, ter muitos relacionamentos e aventuras distintos. Os compromissos com uma única carreira ou pessoa parecem restrições desnecessárias a esta liberdade. Obedecer às ordens e ouvir as figuras de autoridade é algo antiquado. É preferível explorar, divertirem-se e serem abertas. Virá o tempo em que irão perceber exatamente o que fazer com as suas vidas. Entretanto, manter a liberdade de fazer o que se deseja e de ir onde bem se quiser torna-se a sua principal motivação.

No entanto, outras pessoas reagem da forma contrária: com medo do caos, optam rapidamente por uma carreira que seja prática e lucrativa, de preferência relacionada com alguns dos seus interesses, mas não necessariamente. Conformam-se com um relacionamento amoroso. Podem até continuar a depender dos pais. O que as motiva é estabelecer de alguma forma a estabilidade tão difícil de encontrar neste mundo.

Os dois caminhos tendem, porém, a conduzir posteriormente a mais alguns problemas. No primeiro caso, ao experimentar tantas coisas, nunca chegamos a desenvolver realmente capacidades sólidas numa área em particular. Temos dificuldade em concentrar-nos numa atividade específica durante muito tempo por estarmos tão habituados a saltitar de uma coisa para outra e a distrair-nos, o que torna duplamente difícil aprender novas competências se o desejarmos. Por esse motivo, as nossas possibilidades profissionais começam a reduzir-se. Ficamos presos à transição de um emprego para outro. Podemos agora desejar um relacionamento que dure, mas não desenvolvemos a tolerância face ao compromisso e não podemos evitar indignar-nos perante as restrições à liberdade que um relacionamento duradouro irá representar. Embora possamos não gostar de o reconhecer para nós mesmos, a nossa liberdade pode começar a desgastar-nos.

No segundo caso, a carreira com que nos comprometemos na casa dos vinte poderá começar a parecer-nos um pouco insossa nos trintas. Escolhemo-la por motivos práticos, que têm pouca relação com aquilo que hoje realmente nos interessa na vida. Começa a parecer apenas um emprego. A mente desliga do trabalho. E agora esse sem-fim de oportunidades do mundo moderno começa a tentar-nos quando chegamos à meia-idade. Talvez precisemos de uma carreira, de um relacionamento ou de uma aventura novos e empolgantes.

Seja como for, fazemos o que podemos para lidar com as nossas frustrações. Mas, à medida que os anos passam, começamos a sentir acessos de mágoa que não conseguimos negar ou reprimir. De modo geral, não temos consciência do nosso desconforto — a falta de propósito e verdadeiro sentido nas nossas vidas. Este sofrimento manifesta-se de várias formas.

Sentimo-nos cada vez mais entediados. Não estando realmente empenhados no trabalho, voltamo-nos para variações de que precisamos para descobrir permanentemente formas novas e mais fortes de diversão — a última tendência em termos de entretenimento, viajar para um local exótico, um novo guru ou causa a seguir, passatempos que se experimentam, mas são rapidamente abandonados, dependências de todo o tipo. Apenas quando estamos sozinhos ou em momentos de depressão sentimos de facto o tédio crónico que motiva muitas das nossas ações e que nos consome.

Sentimo-nos cada vez mais inseguros. Todos temos sonhos e uma noção do nosso próprio potencial. Se tivermos vagueado sem propósito na vida e nos tivermos extraviado, começamos a tomar consciência da discrepância entre os nossos sonhos e a realidade. Não desenvolvemos realizações sólidas. Sentimos inveja de quem as fez. O nosso ego desfaz-se em pedaços, lançando-nos numa armadilha. Somos demasiado frágeis para aceitar críticas. Aprender exige o reconhecimento de que não sabemos determinadas coisas e de que temos de melhorar, mas sentimo-nos demasiado inseguros para o reconhecer, e por isso as nossas ideias não evoluem, e as nossas competências estagnam. Disfarçamo-lo com um ar de certeza, com opiniões fortes ou com superioridade moral, mas a insegurança subjacente não pode ser abalada.

Sentimo-nos muitas vezes ansiosos e stressados, mas nunca sabemos bem por. quê. A vida implica obstáculos incontornáveis e dificuldades, mas passámos muito tempo a tentar evitar tudo o que fosse doloroso. Talvez não assumíssemos responsabilidades que nos abrissem ao fracasso. Continuámos a navegar, livres de decisões difíceis e de situações stressantes. Mas estas surgem inesperadamente no presente — somos obrigados a terminar algo dentro de um prazo ou tornamo-nos subitamente ambiciosos e queremos realizar um sonho nosso. Não aprendemos no passado a lidar com tais situações, e a ansiedade e o stresse ultrapassam-nos.

O evitamento conduz-nos a uma ansiedade reduzida e constante.

E, finalmente, sentimo-nos deprimidos. Todos queremos acreditar que existe algum propósito e significado na vida, que estamos ligados a algo maior do que nós próprios. Queremos sentir peso e significado naquilo que fizemos. Sem essa convicção, experimentamos um vazio e uma depressão que iremos atribuir a outros fatores.

Compreender: Este sentimento de estar perdido e confuso não é culpa de ninguém. E uma reação natural ao facto de termos nascido em tempos de grande mudança e caos. Os velhos sistemas de apoio do passado — causas religiosas e universais em que acreditar, coesão social — desapareceram na sua maioria, pelo menos no mundo ocidental. Em desaparecimento estão também as convenções elaboradas, as regras e os tabus que em tempos nortearam os comportamentos. Andamos todos à deriva, e não é de admirar que tantas pessoas se percam em dependências e depressão.

O problema é simples: pela sua própria natureza, os seres humanos anseiam por um sentido de direção. Outros seres vivos confiam em instintos elaborados que guiem em determinem o seu comportamento. Acabámos por depender da nossa consciência. Mas a mente humana é um poço sem fundo fornece-nos espaços mentais intermináveis para explorar. A nossa imaginação pode levar-nos a qualquer lado e invocar qualquer coisa. Em qualquer momento, podemos decidir avançar em centenas de direções diferentes. Sem sistemas de crença ou convenções em vigor, parecemos não ter pontos de orientação óbvios para nos guiar o comportamento e as decisões, o que pode levar à loucura.

Felizmente, existe uma forma de sair deste tormento e que está naturalmente disponível a cada um de nós. Não é preciso procurar gurus ou sentir-se nostálgico sobre o passado e as suas certezas. Não existem bússolas ou sistemas de orientação. Estes decorrem de procurar e descobrir o propósito individual das nossas vidas. É o caminho seguido por todos os que forem bem-sucedidos e contribuíram o avanço da cultura humana, e basta divisar esse caminho para o seguir. Eis como funciona.

Cada ser humano é radicalmente único. Esta singularidade está inscrita em cada de nós de três formas na constituição única do ADN, na forma particular corno os cérebros estão programados e nas experiências individuais à medida que avançamos na vida, experiências que não se assemelham às de ninguém. Considere esta singularidade como uma semente que é plantada à nascença, com um crescimento potencial. E esta singularidade tem um objetivo.

Na natureza, num ecossistema florescente, podemos observar um nível elevado de diversidade entre espécies. Com estas várias espécies a operarem em equilíbrio, o sistema será rico e alimentar-se-á por si mesmo, criando novas espécies e mais relacionamentos. Os ecossistemas com pouca diversidade são bastante áridos, e a sua saúde é muito mais ténue. Os seres humanos atuam no seu próprio ecossistema cultural. Ao longo da história, podemos ver que as culturas mais saudáveis e mais celebradas foram aquelas que incitaram e exploraram a maior diversidade entre indivíduos — os atenienses antigos, os chineses da dinastia Sung, a Renascença italiana, os anos vinte do século xx no mundo ocidental, para referir apenas alguns, foram períodos de criatividade extraordinária, pontos altos na história. Podemos compará-los com o conformismo e com a esterilidade das ditaduras.

Ao fazer a nossa singularidade florescer ao longo da vida, através das nossas competências particulares e da natureza específica do nosso trabalho, contribuímos com a nossa parte para esta diversidade necessária. Esta singularidade transcende de facto a nossa existência individual. Foi gravada em nós pela própria natureza. Como podemos explicar porque somos atraídos para a música ou para ajudar as outras pessoas ou para formas de conhecimento particulares? Herdámo-las, e estão ali com um objetivo.

Procurar ligar-nos e cultivar esta singularidade fornece-nos um caminho a seguir, um sistema de orientação interna através da vida. Mas sintonizarmo-nos com este sistema não é fácil. Normalmente, os sinais da nossa singularidade são mais claros para nós na primeira infância. Descobrimo-nos naturalmente atraídos por temas ou atividades específicas, apesar da influência dos nossos pais. Podemos chamar-lhes inclinações primordiais. Falam-nos, como uma voz. Mas, à medida que envelhecemos, essa voz é abafada pelos pais, pelos colegas, pelos professores, pela cultura em geral. Dizem-nos do que devemos gostar, o que é bom e o que não é. Começamos a perder a noção de quem somos, do que nos torna diferentes. Escolhemos caminhos profissionais pouco adequados à nossa natureza.

Para tirar partido do sistema de orientação, temos de tornar a ligação com a nossa singularidade o mais forte possível e aprender a confiar nessa voz.

Na medida em que o conseguimos fazer, somos recompensados de forma opulenta. Temos um sentido de direção, sob a forma de caminho profissional geral que se enquadra nas nossas inclinações particulares. Temos uma vocação. Sabemos de que competências precisamos e quais queremos desenvolver. Temos metas e submetas. Quando fazemos desvios do nosso caminho ou nos envolvemos em enredos que nos distraem das nossas metas, sentimo-nos desconfortáveis e regressamos rapidamente ao nosso caminho. Podemos explorar e ter aventuras como é natural quando somos novos, mas há um sentido relativo nessa exploração que nos liberta das dúvidas e distrações permanentes.

Este caminho não exige que sigamos uma linha simples ou que as nossas inclinações tenham um foco limitado. Talvez sintamos o poder de atração de vários tipos de conhecimento. O caminho envolve dominar uma série de competências e combiná-las de formas inventivas e criativas. Foi este o génio de Leonardo da Vinci, que combinou os seus interesses em arte, ciência, arquitetura e engenharia, tendo dominado cada um deles. Esta forma de seguir o caminho adequa-se bem aos ecléticos gostos modernos e ao nosso amor pela grande exploração.

Quando iniciamos este sistema de orientação interior, todas as emoções negativas que nos atormentam na nossa ausência de propósito são neutralizadas e até transformadas em positivas. Por exemplo, podemos sentir tédio no processo de acumular competências. A prática pode ser aborrecida. Mas podemos aceitar o tédio, sabendo dos extraordinários benefícios que hão de vir. Estamos a aprender algo que nos entusiasma. Não ansiamos por distrações constantes. As nossas mentes ficam agradavelmente concentradas no trabalho. Desenvolvemos a capacidade de nos concentrarmos profundamente, e, com esse foco, surge energia. Retemos o que assimilamos porque estamos emocionalmente envolvidos na aprendizagem. Como consequência, aprendemos a um ritmo mais rápido, que leva à energia criativa. Com uma mente a fervilhar de informação nova, as ideias começam a surgir-nos do nada. Alcançar esses níveis criativos é intensamente satisfatório e torna-se cada vez mais fácil acrescentar novas competências ao nosso repertório.

Com um sentido de propósito, sentimo-nos muito menos inseguros. Adquirimos a noção geral de que estamos a avançar, realizando parte do nosso potencial ou mesmo todo. Podemos começar a olhar para trás, para as nossas várias realizações' grandes ou pequenas. Fizemos coisas. Podemos ter momentos de dúvida, mas estão normalmente mais relacionados com a qualidade do nosso trabalho do que com a nossa autoestima - demos o melhor? Ao concentrarmo-nos mais no trabalho em si e na sua qualidade do que naquilo que as pessoas pensam de nós, podemos distinguir entre crítica prática e maliciosa. Temos uma resistência interior, que nos ajuda a recuperar dos fracassos e a aprender com eles. Sabemos quem somos, e esta autoconsciência torna-se a nossa âncora na vida.

Com este sistema de orientação em andamento, podemos transformar a ansiedade e o stresse em emoções produtivas. Ao tentar alcançar os nossos objetivos - livro, um negócio, ganhar uma campanha política, temos de lidar com muita ansiedade e incerteza, tomando decisões diárias sobre o que fazer. No processo, aprendemos a controlar os nossos níveis de ansiedade - se pensarmos demasiado sobre quão longe temos de ir, poderemos sentir-nos esmagados. Em vez disso, aprendemos a concentrar-nos em objetivos mais pequenos pelo caminho, ao mesmo tempo que mantemos um certo nível de urgência. Desenvolvemos a capacidade de regular a ansiedade o suficiente para nos fazer continuar e melhorar a nível profissional, mas não ao ponto de nos paralisar. Trata-se de uma competência importante para a vida.

Desenvolvemos igualmente uma elevada tolerância ao stresse e chegamos a alimentar-nos dele. Os seres humanos estão efetivamente programados para lidar com o stresse. As nossas mentes irrequietas e energéticas desenvolvem-se melhor quando estamos mental e fisicamente ativos, com a adrenalina a disparar. É um fenómeno conhecido que as pessoas tendem a envelhecer mais rapidamente e a deteriorar-se mais depressa logo depois de se reformarem. As suas mentes não têm nada de que se alimentar. Os pensamentos ansiosos regressam. Tornam-se menos ativas. Manter algum stresse e tensão e saber como lidar com eles pode melhorar a saúde.

E, finalmente, com uma noção de propósito, seremos menos atreitos à depressão. Sim, os momentos de quebra serão inevitáveis e mesmo bem-vindos. Permitem-nos afastarmo-nos e reavaliarmo-nos, como aconteceu com Luther King. Mas, muito frequentemente, sentir-nos-emos empolgados e elevados acima da mediocridade que com tanta frequência marca a nossa vida diária no mundo moderno. Estaremos numa missão. Estaremos a realizar o trabalho de uma vida. Estaremos a contribuir para algo multo maior do que nós, e isso irá enobrecer-nos. Teremos momentos de grande realização que nos amparam. Até a morte pode perder impacto. O que alcançámos irá transcender-nos, e não teremos o sentimento debilitante de ter desperdiçado o nosso potencial.

Pense na questão desta forma: na história militar, podemos identificar dois tipos de exércitos - os que lutam por uma causa ou por uma ideia e os que lutam basicamente por dinheiro, como se se tratasse de um emprego. Os que entram numa guerra por uma causa, como os exércitos de Napoleão Bonaparte a lutarem para espalhar as ideias da Revolução Francesa, lutam com maior intensidade. Ligam o seu destino individual ao da causa e da nação. Estão mais dispostos a morrer em batalha pela causa. Os que estão no exército e que se revelam menos entusiásticos serão arrastados pelo espírito coletivo. O general poderá pedir mais dos seus soldados. Os batalhões estarão mais unificados, e os vários líderes dos batalhões serão mais criativos. Lutar por uma causa representa um multiplicador de força quanto maior for a ligação à causa, mais elevado será o moral, que se traduz em mais força. Um exército como este pode muitas vezes derrotar outro que seja muito maior, mas menos motivado. Podemos dizer algo semelhante acerca da vida: agir com um elevado sentido de propósito constitui um multiplicador de força. Todas as suas decisões e ações têm maior poder por serem guiadas por uma ideia central e por um objetivo. As muitas facetas da sua personalidade serão canalizadas para este objetivo, dando-lhe uma energia mais sustentada. O seu foco e a sua capacidade de recuperar da adversidade conceder-lhe-ão uma energia inelutável. Poderá exigir mais de si. E, num mundo em que tantas pessoas vagueiam sem destino, passará por elas com facilidade e atrairá as atenções por esse motivo. As pessoas irão desejar estar perto de si para se imbuírem do seu espírito.

A sua missão como estudioso da natureza humana é dupla: em primeiro lugar, deve tomar consciência do papel primordial que um sentido de propósito desempenha na vida humana. Por natureza, a necessidade de objetivo tem um poder de atração gravítico a que ninguém consegue resistir. Veja que pessoas o rodeiam e tente perceber o que guia o seu comportamento, procurando padrões nas suas escolhas. Será a liberdade de fazerem o que lhes apetece a sua motivação primordial? Andam fundamentalmente à procura de prazer, de dinheiro, de atenção, de poder para si ou de uma causa a que aderir? São aquilo a que iremos chamar falsos propósitos, os quais podem conduzir a um comportamento obsessivo e a vários becos sem saída. Quando tiver identificado as pessoas como sendo motivadas por um falso propósito, deverá evitar contratá-las ou trabalhar com elas, visto que tendem a arrastá-lo para o fundo com a sua energia improdutiva.

Também irá identificar algumas pessoas que se esforçam por descobrir o seu objetivo sob a forma de vocação. Talvez as possa ajudar ou ajudarem-se uns aos outros.

E, finalmente, poderá reconhecer algumas pessoas que têm um sentido de propósito relativamente apurado. Pode ser alguém jovem aparentemente destinado à grandeza. Irá desejar ser seu amigo e deixar-se contagiar pelo seu entusiasmo. Outras serão mais velhas, com uma série de realizações associadas à sua pessoa. Junte-se a elas de todas as maneiras possíveis. Irão puxá-lo para cima.

A sua segunda tarefa será descobrir o seu sentido de propósito e elevá-lo, fazendo a ligação com o mesmo o mais profundamente possível. Se for jovem, use o que descobrir para dar um enquadramento geral à sua energia irrequieta. Explore o mundo livremente, acumule aventuras, mas tudo dentro de um determinado enquadramento. Mais importante de tudo: acumule competências. Se for mais velho e se tiver extraviado, use as competências que adquiriu e descubra formas de as canalizar suavemente no sentido que acabará por se adequar às suas inclinações e ao seu espírito. Evite mudanças profissionais súbitas e drásticas que sejam pouco práticas.

Tenha em mente que o seu contributo para a cultura pode surgir de muitas formas. Não tem de se tornar um empresário ou de aparecer com destaque no palco do mundo. Pode perfeitamente agir individualmente dentro de um grupo ou organização, desde que mantenha um ponto de vista forte que seja seu e que o use para exercer suavemente a sua influência. O seu caminho pode envolver trabalho físico e manual - orgulhe-se da excelência desse trabalho, deixando a sua marca particular na qualidade. Pode ser criar uma família da melhor maneira possível. Nenhuma vocação é superior a outra. O que importa é que esteja ligado a uma necessidade e inclinação pessoais e que a sua energia o leve ao aperfeiçoamento e à aprendizagem constantes a partir da experiência.

Em qualquer circunstância, vá o mais longe possível no sentido de cultivar a sua singularidade e a originalidade que a acompanha. Num mundo cheio de pessoas que em geral parecem intermutáveis, não pode ser substituído. E único. A sua combinação de competências e experiência não se pode reproduzir. Representa a verdadeira liberdade e o derradeiro poder que os seres humanos possuem.


Estratégias para desenvolver um elevado sentido de propósito

Quando se compromete com o desenvolvimento ou reforço do seu sentido de propósito, o trabalho árduo começa. Irá enfrentar muitos inimigos e obstáculos que impedem o seu progresso — as vozes perturbadoras dos outros que instilam dúvidas sobre a sua vocação e a sua singularidade; o seu próprio tédio e frustrações com o trabalho em si e o seu lento progresso; a falta de críticas fidedignas das pessoas que o ajudam; os níveis de ansiedade com que tem de lidar; e, finalmente, 0 esgotamento que muitas vezes acompanha um trabalho concentrado durante longos períodos de tempo. As cinco estratégias que se seguem foram concebidas para o ajudar a ultrapassar estes obstáculos. São apresentadas sem ordem definida, sendo a primeira 0 ponto de partida fundamental. Poderá pô-las as todas em prática para garantir que está a progredir de forma constante.

Descubra a sua vocação. De início a esta estratégia procurando sinais de inclinações primordiais nos seus primeiros anos de vida, quando estes se revelam de forma mais clara. Algumas pessoas conseguem lembrar-se facilmente dessas primeiras tendências, mas para muitas trata-se de algo que exige alguma introspeção e pesquisa. Recorde momentos em que se sentia invulgarmente fascinado por um assunto em particular ou por determinados objetos, atividades e formas de brincar específicas.

A grande cientista do século XIX e início do século xx Marie Curie lembrava-se distintamente do momento em que, com quatro anos de idade, entrara no escritório do pai, tendo ficado subitamente hipnotizada pela visão de todo o tipo de tubos e aparelhos de medição para várias experiências químicas instaladas por detrás de uma estrutura de vidro polido. Toda a sua vida sentiria um entusiasmo visceral semelhante sempre que entrava num laboratório. Para Anton Tchekhov, foi assistir à primeira peça de teatro em rapaz, na sua pequena cidade natal. Toda a atmosfera de faz de conta o empolgava. Para Steve Jobs, foi passar por uma loja de produtos eletrónicos, em criança, e ver os assombrosos aparelhos que se encontravam na montra, maravilhando-se com o seu design e com a sua complexidade. Para Tiger Woods, foi, aos dois anos de idade, ver o pai lançar bolas de golfe contra uma rede, na garagem, e não conseguir conter a excitação e o desejo de o imitar. Para o escritor Jean-Paul Sartre, foi um fascínio infantil por palavras impressas numa página e os possíveis significados mágicos que cada palavra possuía.

Estes momentos de atração visceral ocorreram subitamente e sem qualquer estímulo por parte de pais ou amigos. Seria difícil transmitir por palavras por que motivo ocorreram; são sinais de algo para lá do controlo pessoal. A atriz Ingrid Bergman expressou-o magnificamente ao falar do fascínio que sentia quando atuava diante da câmara de filmar do pai, em muito tenra idade: «Não escolhi ser atriz. A profissão escolheu-me a mim.»

Por vezes, estes momentos podem surgir quando somos mais velhos, como quando Martin Luther King Jr. se apercebeu da sua missão na vida quando foi arrastado para o boicote dos autocarros de Montgomery. Outras vezes podem ocorrer enquanto se observam pessoas que são especialistas na sua área.

Um jovem, o futuro realizador japonês Akira Kurosawa, sentia a falta de propósito de uma forma pungente. Tentou pintar, depois foi assistente de realização em vários filmes, um trabalho que detestava. Estava prestes a desistir quando foi contratado para trabalhar para o realizador Kajiro Yamamoto, em 1936. Ao observar este grande mestre enquanto trabalhava, os seus olhos abriram-se subitamente para as possibilidades mágicas do cinema, tendo percebido qual era a sua vocação. Como mais tarde descreveu: «Foi como o vento numa montanha a soprar no meu rosto. Com isto refiro-me àquele vento maravilhosamente refrescante que se sente depois de uma subida dolorosamente difícil. O sopro desse vento diz-nos que estamos prestes a alcançar o topo. Ficamos então nesse ponto e olhamos para baixo, para o panorama que se abre perante os nossos olhos. Quando me pus atrás de Yama-san, que estava sentado na cadeira de realizador, ao lado da câmara, senti o coração encher-se desse mesmo sentimento — «Finalmente, consegui.>»

Como outro sinal, analise os momentos da sua vida em que determinadas tarefas ou atividades lhe pareceram naturais e fáceis, como quem nada ao sabor da corrente. Ao realizar essas atividades, terá mais tolerância ao tédio que decorre da prática. As críticas das pessoas não o desencorajarão tão facilmente; desejará aprender. Pode comparar este fenómeno com outros assuntos ou tarefas que considere profundamente entediantes e pouco satisfatórios, que o deixem frustrado.

Relacionado com este aspeto, poderá tentar descobrir a forma particular de inteligência com que o seu cérebro está programado. No livro Frames of Mind [Estruturas da Mente, em português do Brasil], o psicólogo Howard Gardner enumera determinadas formas de inteligência para as quais as pessoas normalmente têm um dom ou afinidade particulares. Pode ser matemática, lógica, atividade física, palavras, imagens ou música. Também podemos acrescentar a isto inteligência social, uma sensibilidade extrema aos outros. Quando se envolver na atividade que lhe parecer certa, isso irá corresponder a essa forma de inteligência para a qual o seu cérebro estará mais adaptado.

A partir destes fatores variados, deveria ser capaz de detetar a forma da sua vocação. Essencialmente, ao passar por este processo, estará a descobrir-se a si mesmo, ao que o torna diferente, àquilo que antecede as opiniões de outras pessoas. Estará a familiarizar-se de novo com os seus gostos e aversões naturais. Mais tarde, muitas vezes perdemos contacto com as nossas preferências, sendo profundamente influenciados por aquilo que os outros estão a fazer e pela cultura. Estará a afastar-se dessas influências externas. Quanto mais profundamente fizer esta ligação com a sua vocação, mais será capaz de resistir às más ideias dos outros. Porá a funcionar o sistema de orientação interna. Reserve algum tempo para pôr em prática este processo, trabalhando com um diário, se necessário. Estará a desenvolver o hábito de se avaliar e de se ouvir, para que possa monitorizar constantemente os seus progressos e adaptar esta vocação às várias fases da sua vida.

Se for jovem e estiver a começar a carreira, irá desejar explorar um campo relativamente amplo relacionado com as suas inclinações por exemplo, se a sua tendência forem as palavras e a escrita, tente todas as modalidades até descobrir aquela que melhor se lhe adapta. Se for mais velho e tiver mais experiência, irá gostar de usar as competências que já desenvolveu e de descobrir uma forma de as adaptar mais no sentido da sua verdadeira vocação. Lembre-se de que essa vocação pode consistir em combinar vários campos que o fascinam. Para Jobs, foi a interseção de tecnologia e design. Mantenha as hipóteses em aberto; a sua experiência irá apontar-lhe o caminho.

Não tente contornar o trabalho de descoberta desse apelo ou imaginar que esta simplesmente lhe irá surgir de forma natural. Embora isso possa acontecer a algumas pessoas muito cedo na vida ou num momento-relâmpago, para a maior parte das pessoas exige introspeção e esforço constantes. Experimentar as competências e opções relacionadas com a sua personalidade e inclinações é não só o único passo essencial no desenvolvimento de um sentido de propósito, é talvez o passo mais importante na vida em geral. Saber profundamente quem é, conhecer a sua singularidade, tornará muito mais fácil evitar os outros perigos da natureza humana.

Use a resistência e os estímulos negativos. A chave para o sucesso em qualquer campo consiste primeiro em desenvolver capacidades em várias áreas, que mais tarde pode combinar de formas criativas. Mas o processo de o fazer pode ser entediante e doloroso, visto que toma consciência das suas limitações e relativa falta de capacidade. A maior parte das pessoas, de modo consciente ou inconsciente, procura evitar o tédio, a dor e qualquer forma de adversidade. Tentam colocar-se em lugares em que enfrentem menos críticas e minimizam as suas hipóteses de fracasso. Deverá avançar no sentido contrário. Aceite as experiências negativas, as limitações e até a dor como forma perfeita de reforçar o nível das suas competências e de apurar o seu sentido de propósito.

No que diz respeito ao exercício físico, compreenda a importância de níveis suportáveis de dor e desconforto, porque mais tarde se traduzem em força, energia e outras sensações positivas. Acontecer-lhe-á o mesmo se aceitar efetivamente o tédio na sua prática. A frustração é sinal de que está a fazer progressos à medida que a mente se torna consciente de níveis mais elevados de competências que ainda lhe falta alcançar.

Use e aceite qualquer tipo de prazo. Se der a si mesmo um ano para terminar um projeto ou para começar um negócio, de modo geral irá demorar um ano ou mais. Se der a si mesmo três meses, irá terminá-lo muito mais cedo, e a energia concentrada com a qual trabalha fará subir o seu nível de competência e tornar o resultado final muito melhor. Se necessário, defina prazos razoavelmente apertados para intensificar o seu sentido de propósito.

Thomas Edison sabia que podia demorar demasiado a concretizar as suas invenções, por isso desenvolveu o hábito de falar sobre a sua futura grandeza aos jornalistas, vendendo as suas ideias de forma excessiva. Com recurso à publicidade, ficaria na posição de ter de fazer que as coisas acontecessem, e relativamente depressa, caso contrário, sairia desacreditado. Teve de estar à altura das circunstâncias e quase sempre esteve.

À medida que avançar no seu caminho, tornar-se-á cada vez mais alvo das críticas das pessoas. Algumas delas poderão ser construtivas e válidas, mas muitas decorrem da inveja. Pode reconhecer o último caso pelo tom de voz emocional da pessoa ao expressar as suas opiniões negativas. Vão longe demais, falam com excesso de veemência; tornam as coisas pessoais, instilando dúvidas acerca das suas capacidades em geral, enfatizando a sua personalidade mais do que o trabalho; carecem de pormenores específicos sobre o que devem melhorar e como fazê-lo. Depois de o ter reconhecido, o truque é não interiorizar estas críticas de forma alguma. Tornar-se defensivo é sinal de que o afetaram. Em vez disso, use as opiniões negativas para se motivar e reforçar o seu sentido de propósito.

Absorva a energia dos bons propósitos. Os seres humanos são extremamente suscetíveis aos humores e à energia das outras pessoas. Por esse motivo, evite ter grande contacto com aquelas que apresentam um reduzido ou falso sentido de propósito. Por outro lado, tente sempre encontrar e associar-se a pessoas que tenham um elevado sentido de propósito. Estas poderão ser mentores, professores ou sócios perfeitos num projeto. Tenderão a revelar o melhor de si, e ser-lhe-á mais facilidade e até mais refrescante receber as suas críticas.

Foi a estratégia que concedeu tanto poder a Coco Chanel. Esta começou a vida a partir de uma posição de grande fragilidade — era uma órfã com poucos ou nenhuns recursos na vida. Apercebeu-se, no início da casa dos vinte, de que a sua vocação era conceber roupa e dar início à sua própria linha de vestuário. No entanto, precisava desesperadamente de orientação, especialmente no que dizia respeito à parte empresarial. Procurava pessoas que a pudessem ajudar a encontrar o seu caminho. Aos vinte e cinco anos de idade, conheceu o alvo perfeito, um homem de negócios inglês mais velho e rico chamado Arthur «Boy» Capel. Sentia-se atraída pela sua ambição, pela sua imensa experiência, pelo seu conhecimento das artes e pelo seu pragmatismo impiedoso. Agarrou-se a ele com grande veemência. Capel conseguia instilar-lhe a certeza de que se tornaria uma criadora famosa. Ensinou-lhe tudo sobre o mundo dos negócios, em geral. Apresentou-lhe duras críticas, que ela podia aceitar em virtude do profundo respeito que nutria por ele. Orientou-a nas primeiras decisões importantes relativas ao estabelecimento do seu negócio. Com ele, desenvolveu um sentido muito apurado de propósito que conservou para o resto da vida. Sem a sua influência, o seu caminho teria sido demasiado confuso e difícil. Mais tarde, Coco continuou a regressar a esta estratégia. Conheceu outros homens e mulheres que tinham competências que lhe faltavam ou que precisavam de ser reforçadas - afabilidade social, marketing, faro para tendências culturais - e desenvolveu relacionamentos que lhe permitiam aprender com esses indivíduos.

Neste caso, procure conhecer pessoas que sejam pragmáticas e não apenas carismáticas ou visionárias. Procure os seus conselhos práticos e assimile o seu espírito de iniciativa e de concretização. Se possível, reúna à sua volta um grupo de pessoas de diferentes campos, como amigos ou sócios, que tenham a mesma energia. Ajudar-se-ão mutuamente a elevar o sentido de propósito de cada um. Não se limite a associações ou mentores virtuais. Não terão o mesmo efeito.

Crie uma hierarquia descendente de objetivos. Operar com objetivos de longo prazo dar-lhe-á uma clarividência e determinação extraordinárias. Estas metas - a criação de um projeto ou negócio, por exemplo podem ser relativamente ambiciosas, o suficiente para suscitar o melhor de si. No entanto, o problema é que também irão tender para criar ansiedade quando se tem em conta tudo o que é preciso fazer para os alcançar desde a presente posição estratégica. Para lidar com essa ansiedade, é preciso criar uma hierarquia de objetivos mais pequena, que vá até ao presente. Estes objetivos são mais simples à medida que se desce na escala, e pode realizá-los em períodos de tempo relativamente curtos, concedendo-se momentos de satisfação e uma sensação de progresso. Divida sempre as tarefas em partes mais pequenas. Cada dia ou semana deverá ter micrometas. Isto irá ajudá-lo a concentrar-se e a evitar confusões ou desvios que lhe esgotarão a energia.

Ao mesmo tempo, deve relembrar-se permanentemente da meta maior, para evitar perdê-la de vista ou ficar demasiado concentrado em pormenores, regresse periodicamente à visão original e imagine a imensa satisfação que terá quando chegar ao momento da fruição. Isso dar-lhe clarividência e irá inspirá-lo a progredir. Deseje também alguma flexibilidade integrada no processo. Em momentos determinados, reavaliará o seu progresso e ajustará as várias metas, se necessário, aprendendo constantemente com a experiência e adaptando e melhorando o objetivo original.

Lembre-se de que procura uma série de resultados práticos e de realizações, não uma lista de sonhos por realizar e de projetos abortados. Trabalhar com objetivos mais pequenos e integrados irá permitir-lhe avançar nesse sentido.

Perca-se no trabalho. Talvez a maior dificuldade que enfrenta em manter um sentido elevado e coerente de propósito seja o nível de compromisso necessário ao longo do tempo e os sacrifícios que o acompanham. Tem de lidar com muitos momentos de frustração, tédio e fracasso e com as intermináveis tentações na nossa cultura relativamente a prazeres mais imediatos. As vantagens enumeradas nas” explicações” anteriores muitas vezes não são imediatamente visíveis. E, à medida que os anos se acumulam, poderá ficar na iminência de um esgotamento.

Para compensar este tédio, precisa de momentos de fluxo em que a sua mente fique de tal forma mergulhada no trabalho que seja transportado para lá do seu ego. Conhecerá sentimentos de profunda calma e alegria. O psicólogo Abraham Maslow chamou-lhes «experiências de pico» - quando as viver, ficará mudado para sempre. Sentir-se-á compelido a repeti-las. Os prazeres mais imediatos que o mundo tem para oferecer ficam muito aquém, quando comparados. E, quando se sentir recompensado pela sua dedicação e sacrifícios, o seu sentido de propósito será intensificado.

Estas experiências não podem produzidas, mas pode preparar o cenário para as mesmas e aumentar amplamente as suas hipóteses. Em primeiro lugar, é essencial esperar até se encontrar mais avançado no processo — a pelo menos mais de meio de um projeto ou depois de vários anos de estudo no seu campo. Nesses momentos, a sua mente estará naturalmente cheia de todo o tipo de informação e prática, madura para uma experiência de pico.

Em segundo lugar, deverá planear conceder-se um período de tempo a trabalhar sem interrupções o máximo de horas possível no dia e o máximo de dias possível na semana. Para este objetivo, deverá eliminar meticulosamente o nível habitual de distrações e até planear desaparecer por um determinado período de tempo. Encare-o como uma espécie de retiro religioso. Quando se tornar adepto deste procedimento, poderá pô-lo em prática em quase todo o lado. Einstein era conhecido por entrar num estado de concentração tão profundo que se perdia nas ruas da cidade ou enquanto navegava num lago.

Em terceiro lugar, a ênfase deverá pôr-se no trabalho, nunca em si próprio ou no desejo de reconhecimento. Estará a fundir a sua mente com o próprio trabalho, e quaisquer pensamentos intrusivos do eu, dúvidas sobre si próprio ou obsessões pessoais irão interromper o fluxo. Não só achará este fluxo imensamente terapêutico como o mesmo terá resultados estranhamente criativos.

Pense nisto como uma forma de devoção religiosa ao trabalho da sua vida. Tal devoção acabará por produzir momentos de união com o próprio trabalho e o tipo de êxtase que é impossível verbalizar sem ter sido experimentado.

O engodo dos falsos propósitos

A atração gravítica que sentimos em relação à descoberta de um propósito decorre de dois elementos na natureza humana. Em primeiro lugar, incapazes de confiar nos instintos, como os outros animais, precisamos de uma noção de direção, de uma forma de guiar e limitar o nosso comportamento. Em segundo, os seres humanos estão conscientes da sua insignificância como indivíduos num mundo com milhares de milhões de outras pessoas, num universo vasto. Estamos conscientes da nossa mortalidade e de que acabaremos por ser engolidos pela eternidade do tempo. Precisamos de nos sentir maiores do que apenas os indivíduos que somos e ligados a algo que nos transcende.

Contudo, sendo a natureza humana aquilo que é, muitas pessoas procuram criar um propósito e uma sensação de transcendência, tentando descobri-los da forma mais fácil e acessível, com o mínimo de esforço possível. Estas pessoas cedem a falsos propósitos, aqueles que fornecem apenas a ilusão de objetivo e transcendência. Podemos compará-las aos verdadeiros propósitos da forma que se segue. O verdadeiro propósito vem de dentro. E uma ideia, um apelo, um sentido de missão que vivemos pessoalmente e com o qual nos relacionamos de forma íntima. É nosso; podemos ter sido inspirados pelos outros, mas ninguém nos impôs e ninguém nos pode tirar. Se formos religiosos, não nos limitaremos a aceitar a ortodoxia; passaremos por uma introspeção e tornaremos a nossa crença interior verdadeira para nós mesmos. Os falsos propósitos vêm de fontes externas - sistemas de crenças que engolimos inteiras, em conformidade com o que as outras pessoas estão a fazer.

O verdadeiro propósito eleva-nos, faz-nos ascender a um nível mais humano. Melhoramos competências e apuramos as nossas mentes; concretizamos o nosso potencial e contribuímos para a sociedade. Os falsos propósitos diminui-nos, empurram-nos para o lado animal da nossa natureza - para as dependências, para a perda de capacidades mentais, para a submissão irrefletida e para o cinismo.

É determinante que nos tornemos conscientes destas falsas formas de propósito. Inevitavelmente, todos nós, a dado momento das nossas vidas, nos deixamos enganar por eles, por serem tão fáceis, populares e baratos. Se conseguirmos eliminar o impulso para estas formas inferiores, gravitaremos naturalmente em torno das superiores, numa busca inevitável de significado e propósito. Eis cinco das formas mais comuns de falsos propósitos que apelaram aos seres humanos desde o início da civilização.

A procura do prazer: Para muitas pessoas, o trabalho é apenas uma necessidade irritante na vida. Aquilo que realmente nos motiva é evitar a dor e descobrir o máximo de prazer possível no tempo que passamos longe do trabalho. Os prazeres que procuramos podem assumir formas variadas - sexo, estimulantes, entretenimento, comida, compras, jogos, modas tecnológicas, jogos de todo o tipo.

Independentemente dos alvos desta procura, tendem a conduzir a uma dinâmica com proveitos cada vez menores. Os momentos de prazer que obtemos tendem a tornar-se mais entediantes através da repetição. Precisamos de cada vez mais do mesmo ou de diversões sempre novas. A nossa necessidade muitas vezes transforma-se em dependência, e com a dependência vem uma redução da saúde e das capacidades mentais. Ficamos possuídos pelos objetos por que ansiamos e perdemo-nos. Sob a influência da droga e do álcool, por exemplo, podemos sentirmo-nos temporariamente transportados para lá da banalidade das nossas vidas. Esta forma de falsos propósitos é muito comum no mundo de hoje, de modo geral devido à cornucópia de distrações existentes, entre as quais podemos escolher. Mas vai contra um elemento fundamental da natureza humana: para conhecermos níveis de prazer mais profundos, temos de aprender a limitar-nos. Ler uma série de livros de entretenimento, numa sucessão rápida, conduz a uma sensação decrescente de satisfação com cada livro; as nossas mentes ficam assoberbadas e excessivamente estimuladas; e precisamos de ir buscar um novo, imediatamente. Ler um livro excelente e mergulhar nele tem um efeito relaxante e inspirador, visto que descobrimos as suas riquezas ocultas. Nos momentos em que não estamos a ler, pensamos repetidamente nesse livro.

Todos nós precisamos de momentos agradáveis fora do trabalho, de formas de aliviar a tensão. Mas, quando atuamos com um sentido de propósito, sabemos a importância de nos limitarmos, optando pela profundidade da experiência em vez de por uma estimulação excessiva.

Causas e cultos: As pessoas têm uma profunda necessidade de acreditar em algo, e, na ausência de bons sistemas unificadores de crenças, este vazio é facilmente preenchido por todo o tipo de microcausas e de cultos. Reparamos que estes grupos tendem a não durar muito. Em dez anos, parecem logo pertencer ao passado. Durante a sua breve existência, os seus adeptos irão substituir a extrema convicção e hipercrença por uma visão clara do que são depois. Com este objetivo, fazemos rapidamente inimigos e dizemos que são a fonte de tudo o que está mal no mundo. Estes grupos tornam-se a forma de as pessoas ventilarem as suas frustrações pessoais, a inveja e o ódio. Estes indivíduos também se sentem superiores, como parte de um grupo com um acesso especial à verdade. Podemos reconhecer uma microcausa ou culto através da imprecisão daquilo que os seus adeptos desejam. Estes não conseguem descrever o tipo de mundo ou sociedade que desejam em termos concretos e práticos. Grande parte da sua razão de viver gira em torno de definições negativas - livre-se destas pessoas ou das suas práticas, e o mundo tornar-se-á um paraíso. Não possuem sentido de estratégia ou formas definidas de alcançarem as suas metas nebulosas, o que constitui um sinal claro de que esse grupo se destina apenas a libertar emoções.

Muitas vezes estes grupos dependem de grandes reuniões públicas em que as pessoas podem ficar intoxicadas por números ou por sentimentos partilhados. Dirigentes astutos ao longo da história usaram-no de modo a alcançar grandes efeitos. Os elementos de uma multidão são altamente sugestionáveis. Através de frases curtas e simples, com muitas repetições, é possível fazê-las repetir slogans e engolir as ideias mais absurdas e irracionais. Numa multidão, as pessoas podem sentir-se aliviadas de qualquer personalidade pessoal, o que pode conduzir à violência. Sentem-se transportadas para lá delas próprias e não tão insignificantes, mas essa inflação pessoal não passa de uma ilusão. Na verdade, em vez de aumentarem de dimensão tornam-se mais pequenas, ao perderem a vontade própria e a sua voz individual.

Aliarmo-nos a uma causa pode ser uma parte importante do nosso sentido de propósito. Mas isso deverá surgir de um processo interno em que pensámos profundamente sobre o assunto e nos comprometemos com a causa como parte da nossa missão na vida. Não somos apenas uma roda na engrenagem desse grupo, mas participantes ativos, pondo a nossa singularidade em jogo e não mimetizando apenas as réplicas dos outros.

Não aderimos devido a uma necessidade de gratificar o nosso ego ou de descarregar emoções feias, mas devido a uma sede de justiça e verdade que corre bem do fundo do nosso sentido de propósito.

Dinheiro e sucesso: Para muitas pessoas, a procura de dinheiro e de estatuto pode oferecer grande motivação e foco. Estes indivíduos podem considerar a descoberta da sua vocação como uma monumental perda de tempo e uma ideia antiquada. Mas, a longo prazo, esta filosofia muitas vezes traz os resultados menos práticos.

Em primeiro lugar, com grande frequência, entram para a área em que podem fazer mais dinheiro e o mais depressa possível. Apostam nos ordenados mais altos. As suas opções profissionais têm pouca ou nenhuma relação com as suas inclinações naturais. Os campos que escolhem tenderão a estar apinhados de outros caçadores insaciáveis de dinheiro e sucesso, e por isso a competição é feroz. Se forem suficientemente cuidadosos, poderão dar-se bem por algum tempo, mas, à medida que envelhecem, começam a sentir-se inquietos e ligeiramente entediados. Tentam caminhos diferentes para o dinheiro e o sucesso; precisam de novos desafios. Têm de continuar a procurar formas de se motivarem. Muitas vezes cometem grandes erros na procura obsessiva de dinheiro por pensarem a tão curto prazo, como vimos com os indivíduos que investiram tudo no frenesim dos derivados financeiros que conduziu ao colapso de 2008.

Em segundo lugar, o dinheiro e o sucesso duradouros decorrem de se manter original e não de enveredar irrefletidamente pelo caminho que os outros seguem. Se fizermos do dinheiro o objetivo primordial, nunca cultivaremos verdadeiramente a nossa singularidade, e alguém mais novo e mais sedento acabará por nos suplantar.

E, finalmente, aquilo que motiva com frequência as pessoas nesta demanda é ter simplesmente mais dinheiro e estatuto do que outras pessoas e sentir-se superior. Com este padrão, é difícil saber quando esse dinheiro lhes basta, porque há sempre pessoas com mais. E por isso essa demanda é interminável e esgotante. Ora, visto que a ligação com o seu trabalho não é pessoal, estas pessoas ficam afastadas de si mesmas; a procura parece destituída de alma; são viciadas no trabalho sem verdadeira vocação. Podem ficar deprimidas ou alienadas e muitas vezes perderão o que ganharam se forem suficientemente fanáticas.

Todos conhecemos os efeitos da «hiperintenção»: se quisermos e precisarmos desesperadamente de dormir, é menos provável que adormeçamos. Se tivermos de apresentar a melhor palestra possível numa conferência, ficamos hiperansiosos quanto ao resultado, e o desempenho ressentir-se-á. Se precisarmos ansiosamente de encontrar um parceiro amoroso ou de fazer amigos, é mais provável que os afastemos. Se, em vez disso, relaxarmos e nos concentrarmos noutras coisas, é bem possível que adormeçamos, que apresentemos uma grande palestra ou que deixemos as pessoas encantadas. As coisas mais agradáveis na vida ocorrem como resultado de algo não diretamente pretendido e esperado. Quando tentamos criar momentos felizes, estes tendem a dececionar-nos.

O mesmo se aplica à procura desenfreada de dinheiro e sucesso. Muitos dos indivíduos mais bem-sucedidos, famosos e abastados não começam pela obsessão com dinheiro e estatuto. Um exemplo esclarecedor seria Steve Jobs, que reuniu uma grande fortuna na sua vida relativamente breve. Na verdade, preocupava-se muito pouco com os bens materiais. O seu único objetivo era criar os melhores e mais originais designs, e, quando o fez, a sorte esteve com ele. Concentre-se em manter um elevado sentido de propósito, e o sucesso irá acompanhá-lo naturalmente.

Atenção: As pessoas sempre procuraram a fama e a atenção como forma de se sentirem maiores e mais importantes. Ficam dependentes do número de pessoas que as aplaudem, da dimensão do exército que comandam, da multidão de cortesãos que os servem. Mas este falso sentido de propósito tornou-se bastante democratizado e difundido pelas redes sociais. Agora, quase toda a gente pode receber a quantidade de atenção com que os antigos reis e conquistadores só podiam sonhar. A autoimagem e a autoestima ficaram ligadas à atenção que recebemos diariamente. Nas redes sociais, isto exige muitas vezes tornar-se cada vez mais escandaloso para captar olhares. Trata-se de uma demanda esgotante e alienante, à medida que nos tornamos mais palhaços do que qualquer outra coisa. E, sempre que a atenção esmorece ligeiramente, uma dor torturante consome-nos: Estaremos a perder impacto? Quem estará a canalizar o fluxo da atenção que era nosso?

Tal como acontece com o dinheiro e com o sucesso, temos muito mais hipóteses de atrair a atenção desenvolvendo um sentido elevado de propósito e criando trabalho que capte naturalmente as pessoas. Quando a atenção é inesperada, como acontece com um sucesso que se conheça subitamente, tudo é mais agradável.

Cinismo: De acordo com Friedrich Nietzsche, «O homem preferiria ter o vazio como propósito a ser vazio de propósitos». No mundo de hoje, com o desencanto crescente face à política e aos sistemas de crenças do passado, esta forma de falso propósito está a tornar-se cada vez mais comum.

Tal cinismo envolve algumas ou todas as crenças que se seguem: a vida é absurda, sem sentido e arbitrária. Os padrões de verdade, excelência ou significado estão completamente ultrapassados. Tudo é relativo. Os juízos de valor das pessoas são simplesmente interpretações do mundo, nenhuma delas melhor do que outra. Todos os políticos são corruptos, por isso não vale realmente a pena envolvermo-nos; é preferível abstermo-nos ou escolher um líder que destrua deliberadamente tudo. As pessoas que são bem-sucedidas conseguem-no enganando o sistema. Qualquer forma de autoridade deveria ser naturalmente suspeita. Observe o que está por detrás dos motivos das pessoas e verá que estas são egoístas. A realidade é bastante brutal e feia; é preferível aceitá-lo e ser cético. E muito difícil levar alguma coisa a sério; deveríamos apenas rir e divertirmo-nos. E tudo a mesma coisa.

Esta atitude apresenta-se como algo que cai bem e que está na moda. Os seus adeptos apresentam um ar algo apático e sardónico que os faz parecer alguém muito arguto. Mas a atitude não é o que parece. Por detrás da mesma está a pose do adolescente que parece não se preocupar, que disfarça um grande medo de tentar e de falhar, de se destacar e de ser ridicularizado. Tem origem na preguiça pura e oferece aos que nela acreditam em consolo pela sua falta de realizações.

Como caçadores de propósito e significado, pretendemos avançar no sentido contrário. A realidade não é brutal e feia — contém muito do que é sublime, belo e digno de admiração. Vemo-lo nas grandes obras de outras pessoas de sucesso. Queremos ter mais encontros com o Sublime. Nada é mais inspirador de espanto do que o próprio cérebro humano — a sua complexidade, o seu potencial inexplorado. Desejamos realizar algum desse potencial nas nossas vidas, não chafurdar na atitude preguiçosa e cínica. Vemos um objetivo por detrás de tudo o que vivemos e observamos. Afinal, o que desejamos é fundir a curiosidade e a excitação que unhamos face ao mundo, em crianças, quando quase tudo parecia arrebatador, com a nossa inteligência adulta.

Toda a lei da existência humana consiste apenas em um homem ser sempre capaz de pender para o incomensuravelmente grande. Se as pessoas forem privadas do incomensuravelmente grande, não viverão e morrerão em desespero. O incomensurável e o infinito são necessários para o homem da mesma forma que o pequeno planeta que este habita.

- Fiódor Dostoiévski

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