# 12 Lei da Rigidez dos Géneros - 12/18 Robert Greene
# 12 Lei da Rigidez de Géneros – Ressintonize-se com os seus lados masculino e feminino
Todos nós temos características
masculinas e femininas — uma parte destas facetas é genética, outra tem origem
na influência profunda do progenitor do sexo oposto. Mas na necessidade de
apresentar uma identidade coerente em sociedade, tendemos a reprimir estas
qualidades, identificando-nos excessivamente com o papel masculino ou feminino
que é esperado de nós. E pagamos um preço por isso. Perdemos dimensões valiosas
da nossa personalidade. O nosso pensamento e formas de agir tornam-se rígidos.
Os nossos relacionamentos com elementos do sexo oposto sofrem quando os
projetamos nelas as nossas fantasias e hostilidades. Temos de nos tornar
conscientes destes traços masculinos e femininos perdidos na nossa forma de
pensar. Ao destacar o fundo masculino ou feminino da nossa natureza, fascinará
os outros se for genuíno. Não interprete o papel de género esperado, mas crie
aquele que mais de lhe adequa.
Caso Catarina Sforza
Interpretação: No tempo de Catarina Sforza, os
papéis que uma mulher podia desempenhar eram extremamente limitados. O
principal era ser uma boa mãe e mulher, mas, se não fosse casada, podia dedicar
a sua vida à religião ou, em casos raros, tornar-se cortesã. Era como se
tivesse sido desenhado um círculo à volta de cada mulher e esta não se
atrevesse a explorar para lá do mesmo. Era nos primeiros anos de vida e na
educação da mulher que estas restrições eram interiorizadas. Se estudasse
apenas um número limitado de assuntos e praticasse apenas determinadas
competências, não poderia alargar o seu papel, mesmo que o desejasse. O
conhecimento era poder.
Catarina destacou-se como exceção
notável, pelo facto de ter beneficiado de uma confluência única de
circunstâncias. Os Sforza eram novos no poder. Haviam descoberto na sua
ascensão que uma mulher forte e capaz podia ser uma grande ajuda. Desenvolveram
a prática de treinar as filhas na caça e no combate com espada como forma de as
endurecer e de as tornar destemidas — qualidades importantes em peões
preparados para o xadrez de casamento. No entanto, o pai de Catarina levou este
aspeto ainda mais longe. Talvez visse na filha um reflexo de si mesmo no
feminino. O facto de lhe ter atribuído o seu próprio precetor assinalava algum
tipo de identificação que sentia entre ambos.
E assim teve início uma experiência
única no castelo de Porta Giovia. Isolada do mundo exterior e autorizada a um
espantoso nível de liberdade, Catarina podia desenvolver-se em todos os
sentidos que desejasse. Intelectualmente, era-lhe permitido explorar todas as
formas de conhecimento. Podia satisfazer todos os seus interesses naturais no
seu caso, moda e artes. No seu treino físico, tinha autorização para dar rédea
solta ao seu espírito ousado e aventureiro. Na sua educação inicial, podia
expressar as muitas facetas diferentes do seu temperamento.
Por isso, quando entrou na vida
pública, aos dez anos de idade, transpôs naturalmente o círculo limitado
imposto às mulheres. Podia representar muitos papéis. Como obediente Sforza,
era capaz de ser a esposa respeitadora. Naturalmente empática e carinhosa,
podia ser a mãe dedicada. Sentia grande prazer em ser a jovem mais na moda e
mais bela da corte papal. Mas, quando as ações do marido pareceram condená-la a
ela e à família, sentiu-se chamada a interpretar outro papel. Treinada para
pensar por si própria e inspirada pelo pai, podia transformar-se no soldado
temerário, pondo toda uma cidade sob o seu controlo. Tornar-se-ia a estratega
arguta, maquinando vários passos com antecedência, numa crise. Podia igualmente
conduzir as suas tropas, de espada na mão. Em rapariguinha, fantasiara
representar todos estes papéis, e parecia-lhe natural e profundamente
satisfatório fazê-lo na vida real.
Diríamos de Catarina que tinha um espírito
feminino com um fundo masculino pronunciado, o oposto do pai. E estes traços
femininos e masculinos combinavam-se, conferindo-lhe uma forma única de pensar
e de agir. Quando se tratava de governar, apresentava um elevado nível de
empatia, algo invulgar para a época. Quando a peste negra atingiu Forli,
confortou os doentes, com grande risco para a própria vida. Estava disposta a
sofrer as piores condições na prisão para salvaguardar a herança dos filhos, um
ato raro de autossacrifício para alguém que se encontrava no poder. Mas, ao
mesmo tempo, era uma negociadora arguta e dura e não tinha qualquer tolerância
para com os incompetentes ou os fracos. Era ambiciosa e tinha orgulho nisso.
Em qualquer conflito, desenvolvia
sempre uma estratégia para vencer os adversários masculinos e agressivos pela
astúcia e para evitar o derramamento de sangue. Com Cesare Borgia, tentou
atraí-lo para a ponte levadiça usando ardis femininos; mais tarde, procurou
arrastá-lo mais para o interior do castelo, encurralando-o numa batalha
prolongada e dando aos seus aliados o tempo suficiente para a salvarem. Quase
foi bem-sucedida em ambos os esforços.
Esta capacidade de interpretar
muitos papéis diferentes, de combinar o masculino com o feminino, esteve na
origem do seu poder. A única vez que renunciou a ele foi no seu casamento com
Giacomo Feo. Quando se apaixonou por Feo, encontrava-se numa posição altamente
vulnerável. As pressões sobre a sua pessoa haviam sido imensas - lidar com um
marido inútil e abusivo, sobreviver às muitas gravidezes que a haviam esgotado,
preservar as ténues alianças políticas que construíra. E assim, ao conhecer
subitamente a adoração de Feo, era natural para ela procurar uma folga dos seus
fardos, renunciar ao poder e ao controlo em favor do amor. Mas, ao reduzir-se
ao papel da esposa dedicada, devia reprimir a sua natureza naturalmente
expansiva. Tinha de investir a sua energia no atenuar das inseguranças do
marido. No processo, perdeu toda a iniciativa e pagou o preço, passando por uma
profunda depressão que quase a matou. Aprendeu a lição e, daí em diante,
permaneceria fiel a si própria para o resto da vida.
Talvez o aspeto mais surpreendente
da história de Catarina Sforza seja o efeito que teve nos homens e nas mulheres
do seu tempo. Esperar-se-ia que as pessoas a condenassem como bruxa ou mulher
forte e autoritária e a ostracizassem por desprezar as convenções associadas ao
género. Em vez disso, fascinou quase todos os que entraram em contacto com ela.
As mulheres admiravam a sua força. Isabella d'Este, governante de Mântua e sua
coetânea, achava-a inspiradora e escreveu depois da sua captura pelos Borgia:
«Se os franceses criticam a cobardia dos nossos homens, ao menos deviam louvar
a ousadia e a coragem das mulheres italianas. Homens de todos os tipos -
artistas, soldados, sacerdotes, nobres, serviçais ficavam obcecados por ela.
Mesmo aqueles que a queriam destruir, como Cesare Borgia, sentiam uma atração
inicial e o desejo de a possuir.
Os homens podiam falar de batalha e
de estratégia com Catarina e sentir que estavam a falar com alguém de igual
para igual, não como as outras mulheres das suas vidas, com quem mal conseguiam
conversar. Mas, mais importante, captavam uma liberdade nela que era
empolgante. Também tinham de interpretar um papel de género, que não era tão
coercivo como um papel de mulher, mas tinha as suas desvantagens. Esperava-se
que estivessem sempre sob controlo, que fossem duros e implacáveis.
Secretamente, eram atraídos por esta mulher perigosa, com quem podiam perder o
controlo. Não era uma boneca, completamente passiva e existindo apenas para
agradar os homens. Era irreprimida e autêntica, o que inspirava neles o desejo
de se libertarem também, de irem para lá dos seus próprios papéis limitados.
Compreender: Poderá gostar de pensar que muito
mudou no que diz respeito aos papéis de género, que o mundo de Catarina Sforza
é demasiado distante do seu para ser relevante. Mas, ao pensá-lo, estará
redondamente enganado. Os pormenores específicos dos papéis de género podem
oscilar de acordo com a cultura e com o período temporal, mas o padrão é essencialmente
o mesmo e o que se segue: todos nascemos como seres completos, com muitas
vertentes. Temos qualidades do sexo oposto, tanto geneticamente como em virtude
da influência do progenitor do género oposto. A nossa personalidade tem
profundidade e dimensão. Quando se trata de rapazes, os estudos mostram que, em
idades mais precoces, estes são efetivamente mais reativos em termos emocionais
do que as raparigas. Possuem elevados níveis de empatia e sensibilidade. As
raparigas têm um espírito aventureiro e exploratório que lhes é natural.
Possuem um espírito forte, que gostam de aplicar na transformação do meio que
as envolve.
No entanto, à medida que
envelhecemos, temos de apresentar ao mundo uma identidade coerente. Temos de
interpretar determinados papéis e viver à altura de certas expectativas. Temos
de limar e de reduzir algumas qualidades naturais. Os rapazes perdem o seu
leque rico de emoções e, na ânsia de ficarem à frente, reprimem a sua empatia
natural. As raparigas têm de sacrificar o seu lado assertivo. Espera-se que
sejam simpáticas, sorridentes, deferentes, pondo sempre os Sentimentos dos
outros à frente dos seus. Uma mulher pode ser chefe, mas deve ser terna e
flexível, nunca demasiado agressiva.
Neste processo, tornamo-nos cada
vez menos dimensionais; conformamo-nos aos papéis esperados pela nossa cultura
e período temporal. Perdemos aspetos valiosos e ricos da nossa personalidade.
Por vezes, só nos apercebemos disto quando encontramos pessoas que são menos
reprimidas e sentimo-nos fascinados por elas. Catarina Sforza tinha seguramente
esse efeito.
A sua missão consiste em abandonar
a rigidez que se apodera de si quando se identifica excessivamente com o papel
de género esperado. O poder reside em explorar esse espaço intermédio entre o
masculino e o feminino, em contrariar as expectativas das pessoas. Regresse às
facetas mais duras ou suaves da sua personalidade que perdeu ou reprimiu. Ao
relacionar-se com as pessoas, alargue o seu repertório desenvolvendo mais
empatia ou aprendendo a ser menos deferente. Quando confrontado com um problema
ou com resistência por parte de outros, treine-se de modo a responder de formas
diferentes - atacando quando normalmente se defende ou vice-versa. Na sua forma
de pensar, aprenda a combinar o analítico com o intuitivo de modo a tornar-se
mais criativo.
Não tenha medo de revelar os aspetos
mais sensíveis ou ambiciosos da sua personalidade. Estas partes reprimidas
anseiam por ser libertadas. No teatro da vida, alargue os papéis que
representa. Não se preocupe com as reações dos outros a quaisquer mudanças na
sua pessoa. Não é assim tão fácil rotulá-lo, o que irá fascinar as outras
pessoas e dar-lhe a capacidade de jogar com as suas perceções acerca da sua
pessoa, alterando-as a seu gosto.
“E a terrível deceção do amor que começa por nos levar a brincar não com uma mulher do mundo exterior, mas com uma boneca moldada no nosso cérebro - a única mulher, aliás, que temos sempre à nossa disposição, a única que alguma vez iremos possuir.
—Marcel Proust
Explicações
para a natureza humana
Os seres humanos gostam de
acreditar que são coerentes e maduros e que têm um controlo razoável sobre as
suas vidas. Tomamos decisões com base em considerações racionais, naquilo que
nos irá beneficiar mais. Temos livre-arbítrio. Sabemos mais ou menos quem
somos. Mas, num aspeto em particular da nossa vida, estas autoimagens são todas
facilmente destruídas - quando nos apaixonamos.
Quando estamos apaixonados,
tornamo-nos vítimas de emoções que não conseguimos controlar. Escolhemos
parceiros que não conseguimos explicar racionalmente, e muitas vezes estas
escolhas acabam por ser infelizes. Muitas pessoas conhecerão pelo menos um
relacionamento bem-sucedido na vida, mas tenderão a ter muitos mais
decididamente malsucedidos, que terminam de forma infeliz. E muitas vezes
repetimos o mesmo tipo de escolhas negativas de companheiros, como se fossemos
compelidos por um demónio interior.
Gostamos de dizer a nós próprios,
em retrospetiva, que, quando estávamos apaixonados, uma espécie de loucura
temporária se apoderou de nós. Pensamos nesses momentos como representando a
exceção, não a regra, ao nosso comportamento. Mas vamos considerar para já a
possibilidade contrária - na nossa vida diária consciente, somos sonâmbulos,
desconhecedores de quem realmente somos; apresentamos uma fachada de
racionalidade ao mundo e confundimos a máscara com a realidade. Quando nos
apaixonamos, estamos de facto a ser mais nós próprios. A máscara cai.
Apercebemo-nos então de quão profundamente as forças inconscientes determinam
muitas das nossas ações. Estamos mais sintonizados com a realidade da
irracionalidade essencial da nossa natureza.
Vamos analisar algumas das mudanças
habituais que acontecem quando estamos apaixonados.
Normalmente, as nossas mentes
encontram-se num estado de distração. Contudo, quando mais profundamente nos
apaixonamos, mais a nossa atenção fica completamente concentrada numa pessoa.
Tornamo-nos obsessivos.
Gostamos de apresentar um aspeto
particular ao mundo, que sublinha os nossos pontos fortes. No entanto, quando
estamos apaixonamos, muitas vezes traços contrários vêm à tona. Uma pessoa que
normalmente seja forte e independente pode subitamente tornar-se bastante
impotente, dependente e histérica. Uma pessoa carinhosa e empática pode
subitamente tornar-se tirânica, exigente e autocentrada.
Na qualidade de adultos, sentimo-nos
relativamente maduros e práticos, mas, quando apaixonados, podemos subitamente
regressar a um comportamento que só pode ser encarado como infantil. Sentimos
medos e inseguranças bastante exagerados. Sentimos terror perante o pensamento
de ser abandonados, como um bebé que foi deixado sozinho por alguns minutos.
Temos oscilações graves de humor do amor ao ódio, da confiança à paranoia.
Normalmente, gostamos de imaginar
que avaliamos bem o caráter das outras pessoas. No entanto, quando estamos
encantados ou apaixonados por alguém,
confundimos o narcisista com um
génio, asfixia com carinho, o preguiçoso com o rebelde excitante, o controlador
com o protetor. Os outros muitas vezes Conseguem ver a verdade e tentam
desviar-nos das nossas fantasias, mas não lhes damos ouvidos. E, o que é pior,
muitas vezes continuamos a cometer o mesmo tipo de erros de avaliação,
repetidamente.
Ao observar estes estados
alterados, podemos ser tentados a descrevê-los como formas de possessão.
Normalmente somos a pessoa racional A, mas, sob a influência de uma paixão,
começa a surgir a pessoa irracional B. De início, A e B podem oscilar ou mesmo
combinar-se uma com a outra, mas, quanto mais intensamente nos apaixonamos,
mais a pessoa B domina. A pessoa B vê qualidades em pessoas que não existem,
age de formas contraproducentes e até autodestrutivas, é bastante imatura, tem
expectativas irrealistas e toma decisões que são muitas vezes misteriosas para
a pessoa A, mais tarde.
Quando se trata do nosso
comportamento nestas situações, nunca chegamos a compreender completamente o
que está a acontecer. Demasiado do nosso inconsciente está em jogo, e não temos
acesso racional a estes processos. Mas o eminente psicólogo Carl Jung — que
analisou ao longo da sua carreira milhares de homens e mulheres com histórias
de amor dolorosas — apresentou talvez a mais profunda explicação para o que nos
acontece quando nos apaixonamos. De acordo com Jung, estamos de facto possuídos
nesses momentos. Damos à entidade (pessoa B) que se apodera de nós o nome de anima
(para o masculino) e de animus (para o feminino). Esta entidade existe
no nosso inconsciente, mas vem à superfície quando uma pessoa do sexo oposto
nos fascina. Falaremos da origem da anima e do animus e o modo
como estes operam.
Todos possuímos hormonas e genes do
sexo oposto. Estes traços contrassexuais estão em minoria (dependendo, em maior
ou menor medida, do indivíduo), mas encontram-se dentro de todos nós e fazem
parte da nos a personalidade. Igualmente significativa é a influência na nossa
psique do progenitor do sexo oposto, de quem assimilamos traços femininos e
masculinos.
Nos nossos primeiros anos de vida,
éramos completamente abertos e suscetíveis à influência dos outros. O
progenitor do sexo oposto foi o nosso primeiro encontro com alguém radicalmente
diferente de nós. A medida que nos relacionávamos com a sua natureza diversa,
grande parte da nossa personalidade foi formada em resposta, tornando-se mais
dimensional e multifacetada. (Com o progenitor do mesmo sexo existe com
frequência um nível de à vontade e identificação imediata que não exige a mesma
energia adaptativa.)
Por exemplo, os rapazinhos
sentem-se muitas vezes à vontade a expressar emoções e características que
aprenderam com a mãe, como um afeto aberto, com empatia e sensibilidade. As
raparigas, pelo contrário, sentem-se com frequência confortáveis a expressar
características que aprenderam com o pai, como agressividade, ousadia, rigor
intelectual e agilidade física. Cada criança também pode possuir naturalmente
estes traços do género oposto. Além disso, cada pai também terá um lado sombrio
que a criança irá assimilar ou com o qual terá de lidar. Por exemplo, uma mãe
pode ser narcisista em vez de empática, e um pai pode ser dominador ou fraco em
vez de protetor e forte.
As crianças têm de se adaptar a
estes aspetos. Em qualquer circunstância, o rapaz e a rapariga interiorizam as
características positivas e negativas do progenitor do sexo oposto de forma a
tornarem-se inconscientes e profundas. E a associação com o progenitor do sexo
oposto estará carregada de todo o tipo de emoções - ligações físicas e
sensuais, sentimentos imensos de excitação, fascínio ou deceção em relação
àquilo que não se recebeu.
No entanto, rapidamente surge um
período crítico nas nossas vidas em que temos de nos afastar dos nossos pais e
de criar a nossa própria identidade. E a forma mais simples e mais poderosa de
criar esta identidade é em torno dos papéis de género, o masculino e o
feminino. O rapaz tende a ter um relacionamento ambivalente com a mãe que o
marca para a vida. Por um lado, anseia pela segurança e pela atenção que esta
lhe dá; por outro, sente-se ameaçado por ela, pois a mãe pode sufocá-lo com a
sua feminilidade, e ele perder-se-ia. O rapaz receia a sua autoridade e o seu
poder sobre a sua própria vida. A partir de uma determinada idade, sente a
necessidade de se distinguir. Precisa de estabelecer a sua própria ideia de
identidade masculina. Claro que as mudanças físicas que ocorrem à medida que
cresce alimentarão esta identidade com o lado masculino, mas, no processo,
tenderá a identificar-se excessivamente com o papel (a menos que se
identifique, em vez disso, com o papel feminino), reforçando a sua dureza e
independência para enfatizar a sua separação da mãe. O outro lado desta
personalidade - a empatia, a delicadeza, a necessidade de ligação, que
assimilou da mãe ou que faziam naturalmente parte dele tenderá a tornar-se
reprimido e afundado no inconsciente.
A rapariga poderá ter um espírito
aventureiro e integrar a força de vontade e a determinação do pai na sua
própria personalidade. Mas, à medida que cresce, muito provavelmente sentirá
pressão no sentido de se adequar a determinadas normas culturais e a criar a
sua identidade em torno do que é considerado feminino. Espera-se que as
raparigas sejam simpáticas, carinhosas e acatadoras. Espera-se que ponham os
interesses dos outros à frente dos seus. Espera-se que dominem quaisquer
tendências impulsivas, que sejam bonitas e objetos de desejo. Para a rapariga,
estas expectativas transformam-se em vozes que ouvem dentro sempre a julgá-las
e a fazerem-na duvidar do seu valor. Estas pressões podem ser mais subtis nos
nossos tempos, mas continuam a exercer uma influência poderosa. Quanto mais
exploratórias, agressivas e negras forem as facetas da sua personalidade -
todas elas surgindo e tendo sido absorvidas naturalmente do pai, mais tenderão
a ser reprimidas e a mergulhar no inconsciente, se ela adotar um papel feminino
mais tradicional.
A faceta feminina inconsciente do
rapaz e do homem é aquilo a que Jung chama anima. A parte inconsciente
masculina da rapariga e da mulher é o animus. Como são facetas que estão
profundamente enterradas, nunca estamos realmente conscientes delas na nossa
vida diária. Mas, quando ficamos fascinados com uma pessoa do sexo oposto,
anima e animus ganham vida. A atração que sentimos em relação a outrem
poderá ser meramente física, mas é mais frequente a pessoa que nos chama a
atenção por ter inconscientemente alguma semelhança - física ou psicológica -
com a nossa mãe ou pai. Não se esqueça de que esta relação primordial está
carregada de energia, de excitação e de obsessões que são reprimidas, mas que
anseiam por se manifestar. Quem desencadear estas associações em nós
representará um íman para a nossa atenção, mesmo que não estejamos conscientes
da origem dessa atração.
Se o relacionamento com a mãe ou
pai foi de modo geral positivo, tendemos a projetar na outra pessoa as
qualidades desejáveis que o nosso progenitor teve, na esperança de reviver esse
paraíso primordial. Imagine, por exemplo, um jovem cuja mãe cuidou dele com
todo o zelo. Pode ter sido um rapazinho doce e amoroso, dedicado à mãe e
refletindo a sua energia carinhosa, mas reprimiu estes traços à medida que se
foi tornando um homem independente com uma imagem masculina a preservar. Na
mulher que desencadeia uma associação com a mãe verá a capacidade de o adorar
por que secretamente anseia. Esse sentimento de obter o que deseja irá
intensificar esta excitação e atração física. Ela oferecer-lhe-á as qualidades
que ele próprio nunca desenvolveu. Estará a apaixonar-se pela sua própria
anima, sob a forma de mulher desejada.
Se os sentimentos em relação à mãe
ou ao pai foram fundamentalmente ambivalentes (a sua atenção incoerente),
muitas vezes tentaremos reparar a relação original apaixonando-nos por alguém
que nos lembre a nossa figura paternal imperfeita, na esperança de podermos
eliminar as suas qualidades negativas e de obter o que nunca conseguimos nos
primeiros anos de vida. Se o relacionamento tiver sido fundamentalmente
negativo, podemos ir à procura de alguém com as qualidades contrárias às do
progenitor, muitas vezes uma natureza obscura e sombria. Por exemplo, uma
rapariga que tenha tido um pai demasiado severo, distante e crítico poderá
acalentar o desejo secreto de se rebelar, mas não se atrever a fazê-lo. Mais
tarde, poderá ser atraída por um homem rebelde, pouco convencional, que represente
o lado selvagem que nunca conseguiu expressar, e este é o extremo oposto do
pai. O rebelde é o seu animus, agora exteriorizado sob a forma do jovem.
Em todo o caso, quer a associação
seja positiva, negativa ou ambivalente, as emoções intensas são desencadeadas,
e ao sentirmo-nos transportados para o relacionamento primordial da nossa
infância, agimos de formas que são muitas vezes contrárias à persona que
apresentamos. Tornamo-nos histéricos, carentes, obsessivos, controladores. A
anima e o animus têm as suas próprias personalidades, e, por isso, quando
ganham vida, agimos como a pessoa B. Como não nos estamos realmente a
relacionar com mulheres e homens tal como eles são, mas de acordo com as
projeções que deles fazemos, acabaremos eventualmente por nos sentir
dececionados, como se tivessem a culpa de não ser o que imaginámos. O
relacionamento tende com frequência a desmoronar-se a partir da interpretação
errada e da falta de comunicação de ambos os lados, e, se desconhecermos a
origem deste facto, passaremos precisamente pelo mesmo ciclo com a próxima
pessoa.
Existem variações infinitas nestes
padrões, porque toda a gente tem circunstâncias muito particulares e
combinações de masculino e feminino. Por exemplo, há homens que são mais
psicologicamente femininos do que as mulheres e mulheres que são mais
psicologicamente masculinas do que os homens. Se forem heterossexuais, o homem
será atraído por mulheres masculinas que tenham as qualidades que ele nunca
desenvolveu em si. Tem mais animus do que anima. A mulher será atraída por
homens femininos. Existem muitos casais contrassexuais deste tipo, alguns mais
abertos do que outros, e podem ser bem-sucedidos, se ambas as partes obtiverem
o que desejam - um exemplo histórico famoso seria o do compositor Frédéric
Chopin e da escritora George Sand.
Se forem homossexuais, o homem ou a
mulher continua a andar à procura das qualidades contrassexuais por desenvolver
dentro de si e, modo geral, as pessoas são desequilibradas, identificando-se
excessivamente com o masculino ou com o feminino e sendo atraídas pelo extremo
oposto.
A missão como estudioso da natureza humana é
tripla. Em primeiro lugar, deverá tentar observar a anima e o animus tal
como se manifestam nos outros, especialmente nas suas relações íntimas. Ao
prestar atenção ao seu comportamento e padrões nestas situações, terá acesso ao
seu inconsciente, que normalmente lhe é negado. Verá as partes que reprimiu e
usará esse conhecimento em seu proveito. Preste especial atenção às pessoas
hipermasculinas ou hiperfemininas. Irá certamente verificar que, sob a
superfície, espreita uma anima muito feminina para o homem e um animus muito masculino
para a mulher. Quando as pessoas vão muito longe ao reprimirem as suas
características femininas e masculinas, estas tendem a transparecer de forma
caricaturada.
O homem hipermasculino, por
exemplo, sentir-se-á secretamente obcecado com roupa e com a sua aparência. Irá
exibir um interesse invulgar pelo aspeto das pessoas, incluindo os outros
homens, e fará juízos de valor depreciativos deles. Richard Nixon tentou
desesperadamente projetar uma imagem de macho naqueles que trabalharam para si
como presidente, mas estava sempre a comentar a cor dos fatos que usavam e a
afadigar-se em torno dos tecidos usados no gabinete. O homem hipermasculino irá
expressar opiniões fortes sobre carros, tecnologia ou política que não se
baseiam em conhecimento real e, quando chamado a atenção para isso, tornar-se-á
histérico a defendê-los e fará birra ou beicinho. Estará sempre a tentar conter
as emoções, mas estas muitas vezes podem ter vida própria.
Por exemplo, sem o desejar,
tornar-se-á subitamente bastante sentimental.
A mulher hiperfeminina esconderá
com frequência bastante raiva reprimida e ressentimento face ao papel que foi
obrigada a interpretar. O seu comportamento sedutor e efeminado com os homens é
na verdade um estratagema de poder, para provocar, apanhar e magoar o alvo. O
seu lado masculino transparecerá um comportamento passivo-agressivo, uma
tentativa de dominar dissimuladamente os outros nos relacionamentos. Por baixo
da fachada carinhosa e submissa, pode ser bastante determinada e altamente
crítica em relação aos outros. A sua determinação, sempre subjacente, surgirá
sob a forma de uma teimosia bastante irracional e de modos mesquinhos.
A sua segunda tarefa consiste em tomar consciência
do mecanismo de projeção dentro de si. As projeções desempenham um papel
positivo na sua vida, e não as poderia interromper mesmo que quisesse, por
serem tão automáticas e inconscientes. Sem elas, não prestaria atenção a
ninguém, não ficaria fascinado por uma pessoa, não a idealizaria e se
apaixonaria. No entanto, quando o relacionamento se desenvolve, tem de ter a
capacidade e a consciência de eliminar as projeções, para que possa começar a
ver as mulheres e os homens como realmente são. Ao fazê-lo talvez se aperceba
de quão verdadeiramente incompatíveis são ou do contrário. Depois de estar
ligado à pessoa real, pode continuar a idealizá-la, mas isso basear-se-á em
características positivas que essa pessoa possui. Talvez possa achar os seus
defeitos algo encantador. Pode conseguir tudo isto tornando-se consciente dos
seus próprios padrões e dos tipos de qualidades que tende a projetar nos
outros.
Estes factos também são relevantes
para relacionamentos com o sexo oposto que não sejam íntimos. Imagine que, numa
situação profissional, um colega critica o seu trabalho ou adia uma reunião que
o solicitou. Se essa pessoa for do sexo oposto,
todo tipo de emoções - ressentimentos, medos, que, deceções, hostilidade –
virão à tona, juntamente com várias projeções , ao passo que, com alguém do seu
próprio género, haveria muito menos reação. Ao observar esta dinâmica na vida
diária, tornar-se-á mais capaz de a controlar e de manter relacionamentos mais
suaves com pessoas do sexo oposto.
A sua terceira tarefa consiste em olhar para
dentro de si, para observar as características femininas ou masculinas
reprimidas e subdesenvolvidas. Pode ter vislumbres da sua anima ou animus nos
seus relacionamentos com o sexo oposto.
A assertividade que deseja ver num
homem ou a empatia numa mulher é algo que precisa de desenvolver em si,
revelando o seu fundo feminino ou masculino. O que está a fazer,
essencialmente, é a integrar na sua personalidade diária os traços que se
encontram dentro de si, mas reprimidos. Já não atuam de forma independente e
automática, sob a forma de possessão. Tonar-se-ão parte do seu eu de todos os
dias, e as pessoas serão atraídas pela autenticidade que captam em si.
Finalmente, quando se trata de
papéis de género, gostamos de ver uma linha contínua de progresso que conduz à
igualdade perfeita e de acreditar que não estamos longe de alcançar este ideal.
Mas isto está longe de ser verdade. Embora a um certo nível possamos ver
progressos decisivos, a outro, mais profundo, podemos verificar uma tensão e
polarização crescentes entre os sexos, como se os velhos padrões de
desigualdade entre homens e mulheres exercessem uma influência inconsciente
sobre nós.
Esta tensão pode por vezes
assemelhar-se a uma guerra, e tem origem numa distância psicológica crescente
entre géneros, em que pessoas do sexo oposto parecem seres alienígenas, com
hábitos e padrões de comportamento que não conseguimos abarcar. Esta distância
pode transformar-se em hostilidade entre alguns. Embora possamos vê-lo tanto em
homens como em mulheres, a hostilidade é mais forte entre homens. Talvez isto
se relacione com a hostilidade latente que muitos homens sentem em relação à
figura materna e ao sentimento de dependência e fragilidade que esta deflagra
inconscientemente. O sentido da masculinidade muitas vezes possui uma vertente
defensiva que revela inseguranças subjacentes. Tal insegurança tornou-se apenas
mais acentuada com a alteração dos papéis de género e aumenta a desconfiança e
a hostilidade entre homens e mulheres.
No entanto, este conflito externo
entre os géneros é apenas o reflexo de um conflito interior não resolvido.
Enquanto o feminino ou masculino interiores forem negados, a distância exterior
limitar-se-á a aumentar. Quando ultrapassarmos esta distância a partir de
dentro, a nossa atitude face ao sexo oposto também muda. Sentimos uma ligação mais profunda. Podemos
falar e relacionar-nos com ele como se estivéssemos a lidar com partes de nós mesmos.
A polaridade entre os sexos continua a existir e ainda nos leva a sentir
atracão e a apaixonarmo-nos, mas agora inclui o desejo de nos aproximarmos do
feminino ou do masculino. Isto é muito diferente da polarização entre os
géneros, em que distância e hostilidade acabam por vir à liça na relação e por
afastar mais as pessoas. A ligação interior melhorará amplamente a ligação
exterior e deverá ser o ideal a almejar.
Projeção
de género — tipos
Embora seja possível encontrar um
sem-fim de variações, encontra de seguida seis dos tipos mais comuns de
projeções de género. Deverá usar este conhecimento de três formas:
Em primeiro lugar, deverá
reconhecer qualquer tendência para uma destas formas de projeção. Isto irá
ajudá-lo a compreender algo profundo acerca dos seus primeiros anos de vida e
facilitar-lhe bastante o distanciamento em relação às suas projeções sobre
outras pessoas. Em segundo, deverá usá-lo como ferramenta inestimável para
aceder ao inconsciente de outras pessoas, para ver a sua anima e animus em
ação. E, finalmente, deverá permanecer atento ao modo como os outros projetam
as suas necessidades e fantasias sobre a sua pessoa. Tenha em mente que, quando
se torna o alvo das projeções das outras pessoas, a tentação consiste em
desejar estar à altura da idealização que fazem da sua pessoa, ser a sua
fantasia. Ficará enredado na sua excitação e quer acreditar que é tão bom, tão
forte ou tão empático como eles imaginam. Sem se aperceber disso, começa a
interpretar o papel que elas desejam que interprete. Tornar-se-á a figura
maternal ou paternal por que anseiam. No entanto, inevitavelmente, acabará por
se ressentir disto - não pode ser quem é; não é apreciado pelas suas
verdadeiras qualidades. É preferível estar consciente desta dinâmica antes que
ela o deixe encurralado.
O Romântico Demoníaco: Para a mulher que se encontra
neste cenário o homem que a fascina — muitas vezes mais velho e bem-sucedido —
poderá parecer uma espécie de libertino, o tipo que não consegue evitar andar
através de mulher novas. Mas também é um romântico. Quando está apaixonado,
enche a mulher de atenções. Ela decide seduzi-lo e torna-se o alvo da sua
atenção. Estará à altura das suas fantasias. Como poderá ele não desejar
assentar com ela e pedir a reforma? Ela deliciar-se-á com o seu amor. Mas, de
alguma forma, ele não é tão forte, masculino ou romântico como ela imaginou. É
um pouco egocêntrico. Ela não consegue a atenção desejada ou esta não dura
muito. Ele não pode ser mudado e abandona-a.
Esta é muitas vezes a projeção de
mulheres que tiveram relacionamentos intensos e que chegaram a namoriscar com o
pai. Este tipo de pai muitas vezes acha
a esposas aborrecida, e a filha mais encantadora e divertida. Volta-se para
filha em busca de inspiração; a filha torna-se dependente da sua atenção e
tende a interpretar o papel da menina que o papá deseja. Dá-lhe uma sensação de
poder. Torna-se o seu objetivo na vida recuperar a sua atenção e o poder que a
acompanha. Qualquer associação com a figura paternal desencadeará o mecanismo
de projeção, e irá inventar ou exagerar a natureza romântica do homem.
As mulheres neste contexto ficaram
presas à atenção que o pai lhes concedeu desde tenra idade. Têm de ser
constantemente encantadoras, inspiradoras e sedutoras
Para obter essa atenção mais tarde.
O seu animus é sedutor, mas com uma faceta agressiva e masculina, tendo
assimilado grande parte da energia do pai.
no entanto procuram constantemente um homem que não existe. Se o homem
fosse absolutamente atento constantemente e incansavelmente romântico,
cansar-se-iam dele. Seria encarado como demasiado fraco. São secretamente
atraídas pelo lado diabólico do homem imaginário e pelo narcisismo que o
acompanha. As mulheres que presas nesta projeção ressentir-se-ão ao longo dos
anos quanto à quantidade de energia que têm de investir a brincar com as
fantasias dos homens e quanto ao pouco que recebem em troca. A única forma de
saírem desta armadilha é detetarem esse padrão, para pararem de mistificar o
pai e se concentrarem em vez disso nos danos que este pela atenção inadequada
que lhes concedeu.
A Mulher Perfeita e Esquiva: Ele acha
que encontrou a mulher ideal. Ela dá-lhe aquilo que não teve nas relações
anteriores, seja alguma loucura, conforto e compaixão ou uma chama criativa.
Embora tenha tido alguns encontros reais com a mulher em causa, pode imaginar
todo o tipo de experiências positivas com ela. Quanto mais pensa nela, mais tem
a certeza que não pode viver sem a sua pessoa. Quando fala desta mulher
perfeita, irá notar que não há pormenores muito concretos sobre o que a torna
tão sublime. Se não conseguir desenvolver um relacionamento, sentir-se-á
rapidamente desiludido. Ela não é quem ele pensava, enganou-o. Passa então à
próxima mulher, sobre a qual projetará a sua fantasia.
Trata-se de uma forma comum de
projeção. Contém todos os elementos que pensa nunca ter recebido da mãe, nunca
ter obtido das outras mulheres da sua vida. Esta parceira ideal irá
atormentá-lo nos seus sonhos. Não lhe aparecerá sob a forma de alguém que
conhece; é uma mulher moldada na sua imaginação — com frequência jovem,
esquiva, mas que promete algo extraordinário. Na vida real, certos tipos de
mulheres tendem a desencadear esta projeção. É normalmente muito difícil de
categorizar e enquadra-se naquilo a que Freud chamou a mulher narcisista
contida, sem precisar realmente de um homem ou de alguém que a complete. Pode
ser um pouco fria e representar uma tela em branco em que os homens podem
projetar o que quiserem. Como alternativa, pode parecer um espírito livre,
cheio de energia criativa, mas sem uma noção clara da sua própria identidade.
Para o homem, funciona como musa, um grande catalisador para a sua imaginação,
um engodo capaz de libertar a sua mente rígida.
Os homens propensos a esta projeção
muitas vezes tiveram mães que não estavam totalmente presentes. Talvez uma mãe
deste tipo esperasse que o filho lhe desse a atenção e reconhecimento que não
recebia do marido. Devido a esta inversão de papéis, quando o rapaz se torna
homem, sente um grande vazio dentro de si que precisa de preencher
constantemente. Não consegue verbalizar exatamente o que deseja ou o que não
teve, em virtude da imprecisão da sua fantasia. Passará toda a sua vida à
procura desta figura evasiva e nunca se satisfará uma mulher de carne e osso. A
perfeita será a próxima. Se se apaixonar tipo de mulher narcisista, irá repetir
o problema que conheceu com a mãe, apaixonando-se por uma mulher que não
consegue dar o que ele deseja. A sua anima é pouco sonhadora, introspetiva e
temperamental, o que corresponde ao comportamento ele próprio tenderá a exibir
quando estiver apaixonado.
Homens deste tipo deverão
reconhecer a natureza do seu padrão. Do que realmente precisam é de descobrir
uma mulher real e de interagir com ela, de aceitar as suas falhas inevitáveis e
de dar mais de si. Muitas vezes preferem ir atrás da sua fantasia, porque nesse
cenário controlam e têm a liberdade de sair quando a realidade se instala. Para
quebrar o padrão, estes homens têm de abdicar de algum do seu controlo. Quando
se trata da necessidade de uma musa, têm de aprender a encontrar essa
inspiração de dentro, a deixar transparecer mais a sua anima. Estão demasiado
alienados do seu próprio espírito feminino e precisam de abrandar os seus
processos de pensamento. Não precisando deste lado de loucura da sua mulher
imaginária, relacionar-se-ão melhor com a mulher que realmente têm na sua vida.
O Rebelde Encantador: Para a mulher que é atraída por
este tipo, o homem que a intriga manifesta um desprezo assinalável pela
autoridade. E um inconformista. Ao contrário do Romântico Demoníaco, este homem
será com frequência jovem e não muito bem-sucedido. Também tenderá a estar fora
do seu círculo normal de conhecimentos. Ter um relacionamento com ele seria ligeiramente
equivalente a um tabu — certamente o pai não aprovaria, e os seus amigos e
colegas provavelmente também não. No entanto, se ocorrer de facto um
relacionamento, verá uma faceta totalmente diferente dele. Não consegue manter
um bom emprego, não por ser um rebelde, mas por ser preguiçoso e incapaz.
Apesar das tatuagens e da cabeça rapada, é bastante convencional, controlador e
dominador. O relacionamento não vingará, mas a fantasia permanecerá.
A mulher que faz esta projeção
muitas vezes teve um pai forte e patriarca que era distante e rigoroso. O pai
representa a ordem, as regras e as convenções. Era com frequência crítico em
relação à filha — esta nunca era suficientemente boa ou bonita ou inteligente.
Ela interiorizou esta voz repreensiva e está sempre a ouvi-la na sua cabeça. Em
rapariga, sonhava rebelar-se e afirmar-se contra o controlo do Pai, mas era
muitas vezes obrigada a obedecer e a interpretar o papel de filha obediente. O
seu desejo de se revoltar foi reprimido e canalizado para o seu animus, que é
bastante irado e ressentido. Em vez de desenvolver a rebeldia por si mesmo.
Procura exteriorizá-la sob a forma do homem rebelde. Se tiver a impressão de
que um homem pode ser assim, com base na sua aparência, irá projetar fantasias
intensas e sexuais. Muitas vezes escolhe um homem que seja relativamente novo porque
isso o torna menos ameaçador, menos patriarcal. Mas a sua juventude e
imaturidade tornam quase impossível desenvolver um relacionamento estável, e a sua
fúria irá revelar-se através de um desencanto desenvolver progressivo.
Quando uma mulher admitir ser
propensa a este tipo de projeção, deverá aceitar um facto simples: o que
realmente deseja é desenvolver a independência assertividade e a capacidade de
desobediência, por si mesma. Nunca é tarde para o fazer, mas estas qualidades
devem ser construídas e desenvolvidas etapas, desafios diários em que pratica o
ato de dizer não, de desobedecer. Tornando-se mais assertiva, pode começar a
ter relacionamentos que sejam mais igualitários e satisfatórios.
A Mulher Perdida: Para
o homem em causa, a mulher que o fascina parece muito diferente daquelas que
conheceu. Talvez provenha de uma cultura ou social diferente. Provavelmente não
recebeu o mesmo tipo de educação. poderá haver algo dúbio acerca da sua
personalidade e do seu passado; é decerto menos fisicamente limitada do que a
maior parte das mulheres. Pensa que ela precisa de proteção, de educação e de
dinheiro. Será aquele que irá em seu auxílio e que a fará ascender. Mas, de
alguma forma, quanto mais se aproxima dela, menos as coisas correm como
esperara.
No primeiro volume do romance “Em
Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust, o protagonista, Charles Swann -
baseado numa figura real- é um conhecedor de arte. Também é um Don Juan que
morre de medo de qualquer relacionamento ou forma de compromisso. Seduziu
muitas mulheres da sua classe. Mas então conhece uma mulher chamada Odette, que
provém de um círculo social decididamente diferente. Não recebeu qualquer tipo
de educação, é um pouco vulgar, e alguns diriam que é uma cortesã. Deixa-o
intrigado. Então, um dia, enquanto observa a reprodução de uma cena bíblica de
um fresco de Botticelli, decide que ela se parece com a mulher do quadro. Fica
fascinado e começa a idealizá-la. Odette deve ter tido uma vida difícil e
merece melhor. Apesar do medo que tem dos compromissos, casa com ela e educa-a
nas melhores coisas da vida. Aquilo de que não se apercebe é que ela não se assemelha
de todo com a mulher com que fantasiou. É extremamente inteligente e
determinada, muito mais forte do que ele. Acabará por o transformar num escravo
passivo, enquanto continua a ter casos amorosos com outros homens e mulheres.
Homens deste tipo muitas vezes
conheceram figuras maternais fortes na infância. Tornaram-se rapazes bons e
obedientes, excelentes alunos na escola. Conscientemente, são atraídos por
mulheres bem-educadas, por aquelas que parecem boas e perfeitas. Mas,
inconscientemente, pendem para mulheres imperfeitas, más ou de caráter
duvidoso. Anseiam secretamente por aquilo que constitui o oposto deles
próprios. Trata-se da cisão clássica de mãe/prostituta - desejam a figura
maternal como esposa, mas sentem uma atração física muito mais forte pela
prostituta, a Mulher Perdida, o tipo que gosta de exibir o corpo. Reprimiram as
facetas divertidas, sensuais e terra a terra da sua personalidade em rapazes.
São rígidos e civilizados. A única forma de se conseguirem relacionar com
mulheres que parecem ser muito diferentes deles próprios.
Tal como Swann, arranjam forma de
as idealizar ser muito com alguma referência intelectual que não se relaciona
com a realidade. Projetam nestas mulheres fragilidade e vulnerabilidade. Dizem
a si mesmos que querem ajudá-las e protegê-las, mas aquilo que os atrai é o
perigo e os prazeres maliciosos que estas mulheres parecem prometer.
Subestimando a sua força, acabam muitas vezes como seus peões. A sua alma é
passiva e masoquista.
Homens que se envolvem neste tipo de
projeção têm de desenvolver os lados menos convencionais da sua personalidade.
Têm de sair da sua zona de conforto e de tentar experiências novas por sua
conta e risco. Requerem mais desafios e até um pouco de perigo que ajudará a
soltá-los. Talvez precisem de arriscar mais no trabalho. Também necessitam de
desenvolver o lado mais físico e sensual da sua personalidade. Não tendo de
obter aquilo por que anseiam ao procurarem o tipo da Mulher Perdida, podem de
facto começar a satisfazer os seus desejos com qualquer tipo de mulher, não
ficando passivamente à espera de que ela tome a iniciativa, mas dando
ativamente início aos prazeres sensuais.
O Homem Superior: Parece brilhante, hábil, forte e
estável. Irradia confiança e poder. Poderia ser um homem de negócios com
grandes responsabilidades, um professor, um artista, um guru. Embora possa
parecer mais velho e não muito atraente em termos físicos, a sua autoconfiança
confere-lhe uma aura atrativa. Para a mulher que se sente atraída por homens
deste tipo, um relacionamento com os mesmos dar-lhe-ia uma sensação indireta de
força e de superioridade.
O que estas mulheres precisam de
fazer primeiro é de perceber que a origem das suas inseguranças são as opiniões
críticas dos outros, que têm de aceitar e de interiorizar. Não surgem da sua
falta de inteligência ou valor. Esta mulher deve procurar ativamente
desenvolver a sua assertividade e autoconfiança através das suas ações -
aceitar projetos, começar negócios, dominar uma arte. Com os homens, deverá
ver-se como estando em pé de igualdade, potencialmente tão forte e criativa
como eles ou mais ainda. Com uma autoconfiança genuína, será então capaz de
avaliar o verdadeiro mérito e personalidade dos homens que conhece.
A Mulher para Adorar o Homem: Ele é
motivado e ambicioso, mas a sua vida é dura. Lá fora, o mundo é difícil e não
perdoa, não sendo fácil encontrar conforto. Sente que algo lhe falta na vida.
Surge então uma mulher que é atenciosa consigo, calorosa e cativante. Parece
admirá-lo. Ele sente-se extremamente atraído por ela e pela sua energia. E a
mulher que o completa, que o conforta. Mas, à medida que o relacionamento se
desenvolve, ela deixa de parecer tão simpática e atenciosa. Deixou decerto de o
admirar. Ele conclui que ela o enganou ou que mudou. Essa traição deixa-o
zangado.
Esta projeção masculina geralmente
tem origem num tipo específico de relacionamento com a mãe - ela adora o filho
e enche-o de atenções. Talvez seja para compensar o facto de nunca ter obtido o
que desejava do marido. Enche o rapaz de confiança; ele torna-se dependente da
sua atenção e anseia pela sua presença terna e envolvente, que é aquilo que ela
deseja.
Quando cresce, é com frequência
muito ambicioso, tentando sempre estar à altura das expectativas da mãe.
Esforça-se muito. Escolhe um certo tipo de mulher para perseguir e então
coloca-a subtilmente no papel maternal confortar, adorar e apaparicar-lhe o ego.
Em muitos casos, a mulher acabará por perceber que ele a manipulou de modo a
representar este papel e irá sentir-se ofendida. Deixará de ser tão
tranquilizadora e reverencial. Ele irá culpá-la por ter mudado, mas na verdade
foi ele quem projetou qualidades que nunca estiveram propriamente presentes e
que tentou fazer que ela se adaptasse às suas expectativas. A rutura que se
segue será muito dolorosa para o homem, porque este investiu energia desde os
seus primeiros anos de vida e irá sentir a situação como um abandono da figura
maternal. Mesmo que consiga que a mulher interprete esse papel, ele próprio irá
sentir-se ressentido desta dependência, a mesma dependência e ambivalência que
tinha em relação à mãe. Poderá sabotar a relação ou afastar-se. Esta anima tem
uma faceta aguda e recriminatória, sempre pronta a queixar-se e a culpar.
O homem, neste caso, deverá ver o
padrão destes relacionamentos na sua vida. O que isso lhe indicaria é que
precisa de desenvolver interiormente mais das qualidades maternais que projeta
nas mulheres. Deverá encarar a natureza da sua ambição como algo com origem no
seu desejo de agradar à mãe e de estar à altura das suas expectativas. Tende a
comportar-se de forma demasiado dura. Deverá aprender a confortar-se e
tranquilizar-se a si próprio, a afastar-se de vez em quando e a sentir-se
satisfeito com as suas conquistas. Terá de ser capaz de cuidar de si próprio.
Isso irá melhorar drasticamente os seus relacionamentos. Dará mais em vez de
estar à espera de ser adorado e de que tomem conta dele. Irá relacionar-se com
as mulheres tal como são, e, no fim, talvez estas se sintam inconscientemente
impelidas a oferecer um pouco mais do carinho de que precisa, sem serem
forçadas a isso.
O
homem/mulher original
Uma experiência comum para os seres
humanos reside em que, a dado ponto da vida - com frequência perto dos quarenta
anos de idade —, passamos por algo conhecido como crise de meia-idade. O
trabalho tornou-se mecânico e desprovido de alma. Os relacionamentos íntimos
perderam o entusiasmo e a alma. Ansiamos por mudança e procuramo-la através de
uma nova carreira ou relacionamento, de experiências diferentes e até de algum
perigo. Ansiamos por
mudança e procuramo-la através de uma nova carreira ou relacionamento, de
experiências diferentes e até de algum perigo. Essas mudanças poderão dar-nos
algum sobressalto terapêutico de curto prazo, mas deixam a verdadeira fonte do problema
está intocada, e o mal-estar regressa.
Vamos encarar este fenómeno sob uma perspetiva diferente como crise de
identidade. Em crianças, tínhamos uma ideia fluida de eu. Assimilávamos a
energia de toda a gente e de tudo o que nos rodeava. Sentíamos um leque muito
de amplo de emoções e estávamos abertos à experiência. Mas tivemos de moldar,
um eu social, um eu coerente e que nos permitisse integrarmo-nos num grupo.
Para o fazer, tivemos de aparar e de reforçar a nossa liberdade de espírito. E
grande parte desta contenção teve a ver com papéis de género. Tivemos de
reprimir os aspetos masculino ou feminino de nós próprios de modo a sentir e
apresentar um eu mais coerente.
No fim da adolescência e já na casa
dos vinte, adaptámos constantemente esta identidade de modo a podermos
enquadrar-nos - ainda é um trabalho em curso e retiramos algum prazer do
desenvolvimento desta identidade. Sentimos que as nossas vidas podem avançar em
muitos sentidos, e essas muitas possibilidades encantam-nos. Mas, à medida que
os anos passam, o papel de género que representamos torna-se cada vez mais fixo
e começamos a sentir que perdemos algo essencial, que somos praticamente
estranhos para quem éramos na juventude. As nossas energias criativas secaram.
Naturalmente, olhamos para fora, para a fonte desta crise, mas esta vem de
dentro. Tornámo-nos desequilibrados, identificamo-nos de forma demasiado rígida
com o nosso papel e com a máscara que apresentamos aos outros. A nossa natureza
original incorporava mais das qualidades que assimilamos da mãe ou do pai e com
os traços do sexo oposto que biologicamente fazem parte de nós. A certo ponto,
rebelamo-nos interiormente com a perda do que faz essencialmente parte de nós.
Compreender: O regresso à natureza
original contém um poder elementar. Ao relacionar-se mais com os lados feminino
e masculino naturais que existem dento de si, libertará energia que foi
reprimida; a sua mente irá recuperar a fluidez natural; irá compreender e
relacionar-se melhor com as pessoas do sexo
Ao longo de milénios, foram os
homens que definiram amplamente os papéis masculino e feminino e que impuseram
juízos de valor aos mesmos. As formas de pensar femininas estavam associadas à
irracionalidade, e as formas de agir femininas eram encaradas como fracas e
inferiores. Podemos ter evoluído exteriormente em termos de desigualdade entre
os géneros, mas interiormente estes juízos de valor continuam a estar profundamente
enraizados em nós. A forma de pensar masculina ainda é considerada superior, e
a feminilidade continua a ser vivida como suave e fraca. Muitas mulheres
interiorizaram estes juízos de valor. Sentem que estar em pé de igualdade
significa serem capazes de ser tão duras e agressivas como os homens. Mas
aquilo que realmente é necessário no mundo moderno é ver o masculino e o
feminino como absolutamente iguais em potencial capacidade de raciocínio e
força para a ação, mas de modos diferentes.
Digamos que existem estilos
femininos e masculinos quando se trata de pensar, de passar à ação, de aprender
com a experiência e de se relacionar com as outras pessoas. Estes estilos
refletiram-se no comportamento dos homens e das mulheres ao longo de milhares
de anos. Alguns estão relacionados com diferenças psicológicas, outros têm
principalmente origem na cultura. Existem decerto homens que têm mais estilos
femininos e mulheres mais estilos masculinos, mas quase todos nós pendemos mais
para um lado ou para o outro. A nossa tarefa é abrirmo-nos ao contrário.
Resta-nos perder a rigidez.
Formas de pensamento masculinas e femininas: O
pensamento masculino tende a concentrar-se no que separa um fenómeno de outro e
a categorizá-los. Procura contrastes entre coisas para melhor as rotular. O seu
processo de pensamento é linear, procurando a sequência de passos que conduz a
um acontecimento. Prefere olhar para as coisas de fora, com distanciamento
emocional. A forma de pensar masculina tende a preferir a especialização, a
escavar profundamente algo específico. Sente prazer em descobrir a ordem nos
fenómenos. Gosta de construir estruturas elaboradas, seja num livro ou num
negócio. A forma de pensar feminina orienta-se de modo diferente. Gosta de se
concentrar no todo, na forma como as partes de ligam umas às outras, na
estrutura geral. Ao olhar para um grupo de pessoas, deseja ver de que forma
estas se relacionam umas com as outras. Em vez de congelar o fenómeno no tempo
de modo a analisá-lo, concentra-se no processo orgânico em si, no modo como uma
coisa se transforma noutra. Ao tentar resolver um enigma, o estilo feminino
prefere meditar em vários aspetos, assimilar os padrões e deixar as respostas
ou soluções chegarem ao nível individual com o tempo, como se precisassem de
ser cozinhadas. Esta forma de pensamento leva a determinadas perspetivas quando
as ligações ocultas entre as coisas subitamente se tornam visíveis em lampejos
intuitivos. Em oposição à especialização, estará mais interessado no modo como
campos ou formas de conhecimento diferentes se podem ligar uns aos outros. Ao
estudar outra cultura, por exemplo, irá desejar aproximar-se mais dela,
compreender como é vivida de dentro. Será mais sensível a informação provinda
dos sentidos, não apenas do raciocínio abstrato.
Durante muito tempo, o estilo
masculino foi encarado como sendo mais racional e científico, mas isso não
reflete a realidade. Todos os grandes cientistas da história apresentaram uma
combinação poderosa dos estilos masculino e feminino. As maiores descobertas do
biólogo Louis Pasteur tiveram origem na sua capacidade de abrir a mente ao máximo
possível de explicações, para as deixar maturar, de modo a ver as ligações
entre fenómenos abrangentes. Einstein atribuiu todas as suas grandes
descobertas a intuições, em que longas horas de pensamento deram subitamente
lugar a visões sobre a interligação de determinados factos. A antropóloga
Margaret Mead usava os mais recentes modelos abstratos da época para analisar
rigorosamente culturas indígenas, mas combinava-os com meses de coabitação com
os mesmos e com uma noção clara do que era pertencer a esses grupos.
No mundo dos negócios, Warren
Buffett é um exemplo de alguém que combina os dois estilos. Quando pensa em
comprar uma empresa, divide-a nas suas partes constituintes e analisa-as a um
nível estatístico profundo, mas também tenta ficar com uma impressão geral da
estrutura do negócio, da forma como os funcionários se relacionam uns com os
outros, do espírito do grupo instilado pelo homem ou mulher que se encontram no
ponto mais alto — muitos dos aspetos intangíveis que a maior parte dos homens de
negócios ignoram. Olha para uma empresa por fora e por dentro.
Quase todas as pessoas penderão
mais para um destes estilos de pensamento. O que irá desejar é criar equilíbrio
inclinando-se mais na direção contrária. Se estiver mais para o lado masculino,
irá desejar alargar os campos para os quais olha, encontrando ligações entre
formas de conhecimento diferentes. Ao procurar soluções, deverá considerar mais
possibilidades, reservar mais tempo para o processo de deliberação e permitir
associações mais livres. Procure levar a sério as intuições que lhe surgem
depois de grande deliberação e não negligenciar o valor das emoções para esse
pensamento. Sem entusiasmo e inspiração, o seu pensamento pode tornar-se
viciado e sem vida.
Se pender mais para o lado feminino,
deverá ser capaz de se encontrar e de investigar problemas específicos,
contrariando o impulso para alargar as suas buscas e fazer várias coisas ao
mesmo tempo. Procure o prazer de analisar um aspeto do problema. Reconstituir
uma sucessão de acasos e apurá-la de forma constante irá conferir profundidade
ao seu modo de pensar. Tenderá a ver a estrutura e a ordem como algo
aborrecido, dando mais ênfase à expressão de uma ideia e a sentir-se inspirado
por ela. Em vez disso, discuta ou projete. Ser criativo e claro em termos de
estrutura dará ao seu material todo o poder de influenciar as pessoas. por
vezes precisa de ganhar distância emocional para compreender um problema e deve
obrigar-se a fazê-lo.
Formas de ação masculinas e
femininas: Quando se trata de passar à ação, a tendência masculina é para
avançar, explorar a situação, atacar e vencer. Se houver obstáculos pelo
caminho, tentará ultrapassá-los. Este desejo foi expresso de forma eloquente
pelo velho líder militar Aníbal: “Ou arranjo maneira ou crio maneira” Retira
prazer pelo facto de se manter na ofensiva e de correr riscos. Prefere manter a
sua independência e espaço de manobra.
Quando confrontado com um problema
ou com a necessidade de passar à ação, o estilo feminino muitas vezes prefere
afastar-se primeiro da situação imediata e considerar mais profundamente as
suas opções. Irá com frequência procurar formas de evitar o conflito, de
amaciar as relações, de ganhar sem ter de avançar para a batalha. Por vezes a
melhor ação é a ausência de ação deixar a dinâmica desenrolar-se para a
compreender melhor; deixar o inimigo perder-se através das suas ações
agressivas.
No Ocidente, este estilo feminino
de estratégia e ação é instintivamente considerado fraco e tímido. Contudo,
noutras culturas, é encarado de forma muito diferente. Para os estrategas
chineses, a wu-wei, ou não ação, representa muitas vezes o ponto máximo
da sabedoria, e a ação agressiva a um sinal de estupidez porque estreita as
opções. Existe de facto uma força extraordinária contida no estilo feminino -
paciência, resistência e flexibilidade. Para o grande guerreiro samurai Miyamoto
Musashi, a capacidade de recuar e de esperar, de deixar o adversário cansar-se
mentalmente antes de contra-atacar, foi determinante para o sucesso.
Para quem tenha uma propensão
masculina para a agressividade, o equilíbrio poderia provir de treinar-se a
recuar antes de partir para qualquer ação. Considere a possibilidade de ser
preferível esperar e ver como as coisas se desenrolam ou até de não responder de
todo. Passar à ação sem a devida ponderação revela fraqueza e falta de
autocontrolo. Para o contrabalançar, tente sempre considerar as relações
interdependentes em que se encontra envolvido e como cada grupo ou indivíduo
será afetado por determinada ação. Se verificar que paralisou em termos
profissionais, num ponto mais avançado da vida, deverá adquirir a capacidade de
se distanciar e de refletir sobre quem é, sobre as suas necessidades, os seus
pontos fortes e fracos e os seus verdadeiros interesses antes de tomar decisões
importantes. Isto exige semanas ou meses de introspeção. Alguns dos grandes
líderes da história tiveram as melhores ideias enquanto se encontravam presos.
Como os franceses diriam, reculer pour mieux sauter («recuar para melhor poder saltar»).
Para as pessoas em que predomina o
estilo feminino, é preferível habituar-se a vários níveis de conflito e
confronto, de modo que qualquer evitamento do mesmo seja estratégico e não
resultante do medo. Isto exige pequenos passos, confrontando as pessoas de
forma comedida, em situações do dia a dia, antes de lidar com conflitos
maiores. Prescinda da necessidade de considerar sempre os sentimentos do outro
lado; às vezes há más pessoas que devem ser frustradas, e o facto de ser
compassivo mais não faz do que conceder-lhes poder. Tem de se sentir à vontade
a dizer não e a recusar. Por vezes, quando tenta atenuar as coisas, não é por
empatia ou estratégia, mas por aversão a desagradar os outros. Foi educado para
ser obediente e tem de se libertar deste impulso. Volte a sintonizar-se com o
espírito ousado e aventureiro que em tempos teve e de alargar as suas opções
estratégicas tanto de ofensiva como de defesa. Por vezes pode pensar
excessivamente nas coisas e de se lembrar de demasiadas opções. A ação por si
só pode ser terapêutica, e tomar medidas agressivas pode desconcertar os seus
adversários.
Formas masculinas e femininas de autoafirmação e de aprendizagem: Como os
estudos mostraram, quando os homens cometem erros, tendem a Olhar para fora e a
arranjar outras pessoas ou circunstâncias para responsabilizar pelos mesmos. A
ideia masculina de eu está profundamente ligada ao seu sucesso, e os homens não
gostam de olhar para dentro quando falham. Isto não lhes permite aprender
facilmente com o fracasso. Por outro lado, os homens tenderão a sentir que são
completamente responsáveis por qualquer sucesso na vida. Isto torna-os cegos
face à componente de sorte e à ajuda dos outros, o que alimentará as suas
tendências para a grandiosidade
Do mesmo modo, se existir um problema, o estilo masculino consistirá em percebê-lo por si - pedir ajuda seria reconhecer a sua própria fraqueza. De modo geral, os homens sobrestimam as suas capacidades e revelam confiança em competências suas que nem sempre são garantidas pelas circunstâncias.
Com as mulheres acontece o
contrário. Quando há fracasso, tendem a culpar-se e a olhar para dentro. Quando
há sucesso, inclinam-se mais para olhar para o papel que os outros tiveram ao
ajudá-las. Têm facilidade em pedir ajuda; não veem este aspeto como um sinal de
inadequação pessoal. Tendem a subestimar
as suas capacidades e são menos dadas à confiança arrogante que muitas
vezes alimenta os homens. Para as pessoas marcadas pelo estilo masculino,
quando se trata de aprender e de se aperfeiçoar, é preferível inverter a ordem
olhar para dentro quando se cometem erros e olhar para fora quando se tem
sucesso. Poderá beneficiar da experiência abdicando do sentimento de que o seu
ego está ligado ao sucesso de cada ação ou decisão que toma. Desenvolva esta
inversão como um hábito. Não tenha medo de pedir ajuda ou feedback; em vez
disso, faça igualmente disto um hábito. A fraqueza decorre da incapacidade de
fazer perguntas e de aprender. Baixe o nível da sua autoimagem. Não é tão bom
ou talentoso como pensa. Isto irá estimulá-lo a aperfeiçoar-se realmente. Para
as pessoas marcadas com o estilo feminino, é fácil martirizar-se depois de
fracassos ou erros. A introspeção pode ir demasiado longe. O mesmo se pode
dizer de atribuir o sucesso a outros. As mulheres, mais do que os homens,
sofrerão de baixa autoestima, algo que não é natural, mas adquirido.
Interiorizaram com frequência vozes críticas provenientes dos outros. Jung
chamou-lhes vozes animus: todos os homens que, ao longo dos anos, julgaram as
mulheres pelo seu aspeto e inteligência. Capte essas vozes no momento em que se
manifestam e livre-se delas. Como os fracassos ou críticas também o podem
afetar profundamente, pode ficar com medo de tentar algo de novo, o que reduz as
suas possibilidades de aprendizagem. Deve adquirir mais da autoconfiança
masculina sem a estupidez associada. Nos seus encontros diários, procure
prescindir das suas respostas emocionais aos acontecimentos ou minimizá-las e
vê-los com mais distanciamento, estará a treinar-se para não levar as coisas
tão a peito.
Formas masculinas e femininas de se relacionar com pessoas e
liderança: Tal com
acontece com os chimpanzés do sexo masculino, num cenário de grupo, o estilo
masculino consiste em exigir um líder, em aspirar a esse papel ou em ganhar
poder para ser o seu mais leal seguidor. Os líderes irão designar vários
delegados para cumprirem as suas ordens. Os homens formam hierarquias e
castigam aqueles que desobedecem. São altamente conscientes do estatuto, hiper
conscientes do seu lugar no grupo. Os líderes tendem a usar a componente do
medo para manter o grupo coeso. O estilo de liderança masculino consiste em
identificar objetivos claros e alcançá-los. Põe a ênfase nos resultados, seja
como for que sejam alcançados.
O estilo feminino tem mais a ver
com a manutenção do espírito de grupo e com a preservação da suavidade das
relações, com menos diferenças entre indivíduos. É mais empático, tendo em
conta os sentimentos de cada elemento e tentando envolvê-los mais no processo
de tomada de decisões. Os resultados são importantes, mas a forma como são
alcançados, o processo, é igualmente fundamental.
Para as pessoas que pendem para o
estilo masculino, é importante alargar o conceito de liderança. Se pensar com
atenção nos indivíduos da equipa e se procura estrategicamente envolvê-los
mais, poderá obter resultados superiores, empenhando a energia e a criatividade
do grupo. Alguns estudos mostraram que os rapazes são tão empáticos como as
raparigas, altamente sintonizados, por exemplo, com as emoções da mãe. Mas a
empatia é lentamente expulsa dos homens quando estes desenvolvem o seu estilo
assertivo. No entanto, alguns dos maiores líderes do sexo masculino em toda a
história conseguiram manter e desenvolver a empatia.
Para as pessoas que pendem para o
estilo feminino, não deverão ter receio de assumir um papel de liderança forte,
especialmente em tempos de crise. Ter em conta os sentimentos de toda a gente e
integrar as ideias de demasiadas pessoas irão enfraquecê-lo a si e aos seus
planos. Embora as mulheres sejam certamente melhores ouvintes, por vezes é
preferível saber quando se deve parar de ouvir e avançar com o plano pelo qual
se optou. Depois de se reconhecerem os tolos, os incompetentes e os
hiperegoístas do grupo, é melhor despedi-los e, inclusive, sentir prazer em
livrar-se daqueles que põem todo o grupo para baixo. Instilar um toque de medo
nos seus assistentes nem sempre é algo mau.
FINALMENTE, PENSE NISTO DA SEGUINTE MANEIRA: SOMOS FORÇADOS POR NATUREZA a desejar aproximarmo-nos do que é feminino ou masculino, sob a forma de atracão por outra pessoa. Mas, se formos sensatos, também iremos perceber que somos igualmente compelidos a fazê-lo interiormente. Ao longo de séculos, os homens olharam para as mulheres como musas, fontes de inspiração. Mas a verdade é que a musa, para ambos os géneros, está dentro de nós. Aproximarmo-nos da nossa anima ou animus irá deixar-nos mais perto do nosso inconsciente, que contém tesouros criativos por explorar. Experimentará o mesmo fascínio que sente em relação ao lado feminino ou masculino dos outros em relação ao seu trabalho, ao seu próprio processo de pensamento e à vida em geral.
“o que há mais belo nos homens
viris é algo feminino; o que é mais belo nas mulheres femininas é algo masculino.”
-
Susan Sontag